BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (1)
Setembro 05, 2025
Tarcísio Pacheco

imagem: foto privada, 1989, Zim Garoupa à proa da Bicha de Alcácer, ilha Graciosa ao fundo
Creio que o ano era 1990, por aí. Na época, era professor nas Velas, em S. Jorge, deambulava então pelas ilhas, de escola em escola, em grande parte por opção, com pouca vontade de cumprir o destino habitual dos universitários açorianos, de voltar a correr para a ilha de origem, terminado o curso, casar, ter filhos e morrer devagar. Queria movimento e aventura, embora já fosse pai da minha filha mais velha, Bárbara, nascida em 1988. Com o mar salgado a correr-me nas veias, sonhava com viagens marítimas enquanto lia a Cruising World, revista americana de vela de cruzeiro, que comprava regularmente. Sabia que mais tarde ou mais cedo, haveria de ter um veleiro. Sabia também que, antes, convinha adquirir experiência de vela oceânica.
No ano anterior, acompanhado pela esposa, C., já havia feito uma primeira tentativa nesse sentido. Nas férias de Verão, fomos para a Horta, deixámos uma mensagem no Peter’s e ficámos à espera. Não tardou que surgisse uma proposta para embarcar na Bicha de Alcácer, uma velha barcaça de transporte de sal no rio Sado, convertida em veleiro e levada para as Caraíbas, onde andara no charter, mantendo o nome original. Voltava agora para França, para Bordéus. No entanto, a tripulação alemã contratada, desistira nos Açores e fora-se embora, deixando a Bicha amarrada na marina da Horta. Lá teriam as suas razões. Com efeito, a antiga barcaça salina era agora um veleiro lindíssimo, de linhas clássicas, estilo pirataria, fiquei apaixonadíssimo quando o vi. Mas parecia em mau estado e muito mal equipado, mesmo para a época. O dono contratara então um skipper francês, o Pierre Garoche, que estava acompanhado por um amigo, o competente velejador de S. Miguel, José Francisco Garoupa, mais conhecido por Zim Garoupa.* Responderam ao nosso anúncio, conhecemo-nos (no Peter’s claro, à volta de um gin) e fomos aceites como tripulantes. Preparámos o barco o melhor que pudemos. Nem sequer balsa salva-vidas havia, apenas um pequeno bote pneumático, cheio de furos. Como skipper, preparo o meu barco com toda a segurança. Mas naquela época era jovem e inexperiente. Comprámos provisões e no início de agosto de 1989, abalámos rumo a Bordéus, passando pela ponta dos Rosais, em S. Jorge e navegando entre a Terceira e a Graciosa. Navegámos por uns 3 dias, essencialmente com bom tempo. Por isso mesmo, tivemos períodos de calmaria e usámos bastante o motor. Certa noite, navegando a motor, de repente este fez uns barulhos estranhos, deu uns estampidos e…calou-se, todo fumegante. Uma rápida inspeção concluiu por avaria irreparável no mar. Com apenas 3 dias de viagem, o skipper optou por reunir a tripulação e pedir opiniões, embora a decisão final fosse sempre dele, já que um barco no meio do oceano não é um sistema democrático. Sem pressão de ninguém, o Pierre acabou por decidir voltar. Navegámos então para Oeste, rumo a S. Miguel, onde aportámos ao cabo de uns 2 dias. Lembro-me que foi a primeira vez que senti enjoo de terra, ao passarmos no cubículo escuro e estreito da autoridade marítima. A Bicha ficou em S. Miguel, mais tarde foi para terra e uns meses depois foi para França em navio cargueiro. Quanto a nós, inventámos um plano B, apanhámos a TAP e fomos passear para a serra do Gerês.
Assim, não conta com esta aventura como primeira viagem oceânica. Essa haveria de ser no ano seguinte.
No Verão de 1990, voltei à carga, desta vez, sozinho. Viajei para o Faial, deixei uma nota no Peter’s e fui acampar numa nica de relva na beira da praia da Alagoa. Gosto da Horta, que me traz muitas recordações de infância, uma vez que a minha mãe era de lá e moraram precisamente atrás da praia da Alagoa, numa pequena casa que ruiu e foi levada pelo mar numa noite de temporal, em que a minha avó e a minha mãe se salvaram por milagre, tendo saltado da cama e fugido poucos minutos antes. O meu avô trabalhava na empresa inglesa de cabos submarinos e estava de turno nessa noite. Perderam tudo quanto tinham nesse desastre.
Acampando na praia, todos os dias ia ver se havia resposta ao meu pedido de embarque. O destino era-me indiferente, desde que fosse para Leste. A viagem era a minha motivação, não o turismo. Lembro-me que uma noite já estava a dormir na minha minúscula tenda e acordei com grande barulheira à minha volta. Tentei ignorar, talvez se fossem embora. Mas não foram e a certa altura, abriram-me o fecho da tenda e entrou-me por lá dentro uma bela moça. Por esta, não me importo de ser assaltado, pensei eu. Mas acabou tudo bem, afinal era só uma troupe da televisão alcoolicamente descontraída, o pessoal do Zeca Medeiros, que estava no Faial a filmar uma novela qualquer. Uns dias depois, finalmente, embarquei para a minha primeira viagem oceânica num pequeno veleiro. (continua)
*PS: Antes da publicação desta crónica e muito depois dela ter sido escrita, recebi a triste notícia do falecimento do meu amigo, Zim Garoupa, em S. Miguel, a 8 de julho de 2025, após doença prolongada.