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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (3)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem: 1990, Atlântico Norte, a bordo do Antares, com o skipper, Roland Girard

(continuação) Tânger é uma cidade grande, mas não prestámos atenção às zonas novas. Passámos uns 3 dias a deambular pela marginal e pela zona antiga, cheia de lojas, cafés, restaurantes e mesquitas. Como turistas, fomos sempre seguidos por enxames de “guias” que ofereciam um pouco de tudo. Tentávamos também não entrar nas lojas porque não havia muito dinheiro para gastar nem tínhamos onde guardar objetos. Mas, num certo dia, foi impossível escapar à sedução de um jovem marroquino muito simpático que, à entrada da sua loja oferecia copinhos de chá. Quase à força, acabámos por entrar. Era uma loja de tapetes. Fomos logo servidos de vários copinhos de saboroso chá de hortelã-pimenta, a escaldar e fortemente adoçado. Em seguida, inevitavelmente, tentou vender-nos tapetes, começando por peças enormes.  Debalde explicámos que estávamos num pequeno veleiro, que não tínhamos onde guardar aquilo. Ele nunca desarmou, limitou-se a ir reduzindo o tamanho dos tapetes. Ao cabo duns extenuantes 45 minutos, lá nos apresentou, o menor tapete da loja, quase um lenço de assoar e uma pechincha imperdível, segundo ele. Eu era a vítima perfeita, sem jeito para estas coisas e depois do incontornável regateio cultural, lá levei o tapetinho para bordo.

Retive mais 2 episódios de Tânger: Logo no segundo dia, fomos seguidos por um tipo execrável, um “guia” que queria oferecer à força tudo e mais alguma coisa, incluindo prostitutas. Tentámos sacudi-lo, mas o tipo era persistente e durante umas 2 horas colou-se-nos aos calcanhares, falando sem parar em todas as línguas que conhecia, incluindo um português arrevesado. Já estávamos a ferver de raiva e a considerar seriamente o homicídio, quando passámos fora de uma loja de eletrodomésticos em que os donos estavam à porta; apercebendo-se da situação, convidaram-nos a entrar e escorraçaram a melga; esta ainda ficou um bocado na rua a barafustar, mas acabou por desistir; simpaticamente, os donos da loja ofereceram-nos o inevitável chá; ficámos a conversar e explicámos que estávamos de passagem num pequeno veleiro… pois não tardou muito para que aquelas 2 almas tentassem vender-nos frigoríficos e máquinas de lavar! Pedimos desculpa e raspámo-nos dali para fora. É o que se chama sair da frigideira para cair no lume. Noutra ocasião, estava eu sozinho com o Charlie e sendo ele fotógrafo profissional, estava sempre de máquina na mão, a registar tudo. Passámos numa rua e no outro lado estava uma espécie de homem santo, a vender exemplares do Corão numa banquinha; juntaram-se por lá uns quantos fiéis e o homem arengava à assembleia de forma expressiva; o Charlie começou a fotografar a cena e eu desaconselhei, achava que se reparassem, não iam gostar; e assim foi, a certa altura, o homem dá por nós, começa aos pulos e aos berros e a apontar na nossa direção; a turba desatou a vociferar contra nós em árabe vernáculo, provavelmente a chamar-nos infiéis e começaram a atravessar a rua; disse ao Charlie para arrumar a máquina, puxei por ele e, literalmente, fugimos dali quase a correr. Nem quis olhar para trás, já estava a ver um filme estilo Indiana Jones, com uma multidão enraivecida a perseguir-nos pelas ruelas estreitas da Casbá de Tânger, a pedir as nossas cabeças infiéis.

Bom, escapámos desta e o resto não tem muita história. Depois de alguns dias, partimos para a costa espanhola, onde fomos parando em diferentes portos. O Charlie saiu logo na primeira escala, em Málaga e fiquei sozinho com o Roland. Escalámos então diversos portos, como Almeria e Cartagena, onde ficávamos 2 ou 3 dias e fazíamos algum turismo.  Era a bela vida do cruzeiro mediterrânico. O barco ia para Alicante, onde nos esperava um irmão do Roland. Este ainda me convidou para passar uns dias na sua casa, em Grenoble, nos Alpes, mas eu já estava com saudades de casa e da minha bebé, Bárbara, então com 2 anos. Depois de umas voltas por Alicante, despedimo-nos e apanhei o comboio, para Madrid e depois Lisboa. No comboio fiz amizade com um jovem casal canadiano, de Montreal, que ia para Lisboa. Na nossa capital, ainda os levei a passear e ofereci-lhes uma garrafa de ginginha das Portas de Santo Antão, já que eles tinham adorado a prova. Depois, foi apanhar a TAP e voltar para casa.

O Roland tinha o meu endereço e poucos anos mais tarde, escreveu-me, convidando-me para uma grande aventura marítima, da França à Tailândia, via canal do Suez. Fiquei uns dias a sonhar com aquilo, mas trabalhava e já tinha nascido o meu filho, Rodrigo (1992). Com muita pena minha, tive de declinar o convite. Haveria de fazer outras viagens de veleiro, mais tarde, talvez menos exóticas, mas suficientemente aventurosas. FIM

 

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (2)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem: 1990, foto privada, algures no Atlântico Norte, eu à proa do ANTARES

 

(continuação) Um skipper respondera à minha mensagem; tratava-se de Roland Girard, skipper do ANTARES, um veleiro de casco em aço, armado em ketch, com 15 m. de comprimento. Roland, então com 55 anos, era um antigo executivo francês, de Grenoble, que se reformara cedo e partira para as Caraíbas, para usufruir da dolce vita dos trópicos. Depois de 15 anos no paraíso, a gozar o sol e a companhia de jovens caribenhas, voltava para França, a contragosto, para cuidar da mãe, idosa e doente. Trazia dois jovens franceses a bordo, mas, insatisfeito com a tripulação, despedira-os na Horta. Alistou-me no rol da tripulação, a mim e ao Charlie, um fotógrafo freelancer americano.

E assim, no dia 4 de agosto de 1990, o Antares largou amarras da Horta, rumo ao Mediterrâneo, com destino à cidade espanhola de Alicante. O veleiro era robusto e confortável e aprendi muito de vela oceânica nessa viagem. Nessa época, ainda não havia enroladores de genoa e era preciso ir à proa, a qualquer hora do dia ou da noite, para mudar a vela da vante, consoante o vento que fazia, uma tarefa desagradável, molhada e perigosa, que acontecia com regularidade.

Nesta passagem, conversava bastante com o Roland, em francês. O Roland não atinava muito com o Charlie, achava-o um americano típico, que só falava inglês, era pouco comunicativo e parecia não saber muito sobre coisa nenhuma, para além de fotografia. Uma ocasião, já a uns 2 dias de viagem da costa europeia, o Roland perguntou-me casualmente se eu conhecia Marrocos e se queria passar por lá. Claro que eu queria, os meus olhos até brilharam. O Charlie não teve direito a opinião e, assim, ficou combinado rumar a Tânger. Aproximando-nos do estreito de Gibraltar, apanhámos um dia de forte ondulação e cerrado nevoeiro, causados por mau tempo da noite anterior. É uma zona de tráfego intenso e nós não tínhamos radar. De vez em quando ouvíamos o barulho do motor de um grande navio a aproximar-se, mas não víamos nadinha, o que era um pouco assustador. Então, o Roland mandava-me para a proa com a buzina de ar comprimido, para fazer os sinais sonoros convencionais em situação de má visibilidade. Navegámos assim um dia inteiro e no dia seguinte, já com terra no horizonte, ainda prestámos assistência a outro iate francês, no mesmo rumo, a quem se tinha esgotado o combustível e que nos pedira ajuda pelo rádio VHF. A forte ondulação não permitia aproximações; assim, através de um sistema de cabos, passámos-lhe um jerrican com 25 litros de gasóleo, o que foi uma operação interessante, após a qual cada um foi à sua vida.

Sem mais história, numa bela manhã solarenga aproximámo-nos de Tânger, na costa marroquina. Não havia marina na época e amarrámos simplesmente ao cais. Vieram logo a bordo dois agentes fardados que, para além de quererem ver a documentação toda, começaram a pedinchar “presentinhos”…eu não tinha nada que prestasse e, um pouco a medo, apresentei uma latinha de creme Nívea, felizmente por abrir, o que agradou ao agente, tendo-a enfiado imediatamente na algibeira. Informaram-nos ainda que só mais tarde poderíamos sair do porto e entrar na cidade, uma vez que dali a bocado chegaria por mar o rei de Marrocos (na época, Hassan II, pai do atual rei), que se tinha deslocado à Argélia para uma conferência e os acessos estavam todos fechados. Com efeito, conseguíamos avistar logo à saída do porto o belíssimo comboio privado do rei, todo em verde resplandecente e com frisos dourados, que aguardava o monarca. Foi-nos dito também que devíamos arranjar uma bandeirinha de Marrocos (que não tínhamos, pois esta escala não tinha sido planeada), quer para içar no barco, quer para acenar à passagem do rei (exatamente assim, nestes termos). Era complicado, se não podíamos sair do porto, como arranjar uma bandeirinha? Felizmente, à tarde, perto da hora prevista de chegada do rei, começou a reunir-se uma multidão de marroquinos no porto e toda a gente tinha na mão bandeirinhas nacionais; abordámos um grupo grande, que parecia ter assaltado uma loja de bandeiras e, gentilmente, lá nos ofereceram algumas. E foi assim que, ao final da tarde, assistimos à chegada do iate real e o rei passou perto de nós, distribuindo saudações e sorrisos aos seus súbditos. Claro que a tripulação do Antares, sentindo-se quase distinguida com uma audiência real, agitava freneticamente as bandeirinhas, não fôssemos incorrer nalgum crime de lesa-majestade. Mais tarde, pudemos então sair do porto e fomos conhecer Tânger. (continua)

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (1)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

Cópia de 20250309_155941.jpg

imagem: foto privada, 1989, Zim Garoupa à proa da Bicha de Alcácer, ilha Graciosa ao fundo

Creio que o ano era 1990, por aí. Na época, era professor nas Velas, em S. Jorge, deambulava então pelas ilhas, de escola em escola, em grande parte por opção, com pouca vontade de cumprir o destino habitual dos universitários açorianos, de voltar a correr para a ilha de origem, terminado o curso, casar, ter filhos e morrer devagar. Queria movimento e aventura, embora já fosse pai da minha filha mais velha, Bárbara, nascida em 1988. Com o mar salgado a correr-me nas veias, sonhava com viagens marítimas enquanto lia a Cruising World, revista americana de vela de cruzeiro, que comprava regularmente. Sabia que mais tarde ou mais cedo, haveria de ter um veleiro. Sabia também que, antes, convinha adquirir experiência de vela oceânica.

No ano anterior, acompanhado pela esposa, C., já havia feito uma primeira tentativa nesse sentido. Nas férias de Verão, fomos para a Horta, deixámos uma mensagem no Peter’s e ficámos à espera. Não tardou que surgisse uma proposta para embarcar na Bicha de Alcácer, uma velha barcaça de transporte de sal no rio Sado, convertida em veleiro e levada para as Caraíbas, onde andara no charter, mantendo o nome original. Voltava agora para França, para Bordéus. No entanto, a tripulação alemã contratada, desistira nos Açores e fora-se embora, deixando a Bicha amarrada na marina da Horta. Lá teriam as suas razões. Com efeito, a antiga barcaça salina era agora um veleiro lindíssimo, de linhas clássicas, estilo pirataria, fiquei apaixonadíssimo quando o vi. Mas parecia em mau estado e muito mal equipado, mesmo para a época. O dono contratara então um skipper francês, o Pierre Garoche, que estava acompanhado por um amigo, o competente velejador de S. Miguel, José Francisco Garoupa, mais conhecido por Zim Garoupa.* Responderam ao nosso anúncio, conhecemo-nos (no Peter’s claro, à volta de um gin) e fomos aceites como tripulantes. Preparámos o barco o melhor que pudemos. Nem sequer balsa salva-vidas havia, apenas um pequeno bote pneumático, cheio de furos. Como skipper, preparo o meu barco com toda a segurança. Mas naquela época era jovem e inexperiente. Comprámos provisões e no início de agosto de 1989, abalámos rumo a Bordéus, passando pela ponta dos Rosais, em S. Jorge e navegando entre a Terceira e a Graciosa. Navegámos por uns 3 dias, essencialmente com bom tempo. Por isso mesmo, tivemos períodos de calmaria e usámos bastante o motor. Certa noite, navegando a motor, de repente este fez uns barulhos estranhos, deu uns estampidos e…calou-se, todo fumegante. Uma rápida inspeção concluiu por avaria irreparável no mar. Com apenas 3 dias de viagem, o skipper optou por reunir a tripulação e pedir opiniões, embora a decisão final fosse sempre dele, já que um barco no meio do oceano não é um sistema democrático. Sem pressão de ninguém, o Pierre acabou por decidir voltar. Navegámos então para Oeste, rumo a S. Miguel, onde aportámos ao cabo de uns 2 dias. Lembro-me que foi a primeira vez que senti enjoo de terra, ao passarmos no cubículo escuro e estreito da autoridade marítima. A Bicha ficou em S. Miguel, mais tarde foi para terra e uns meses depois foi para França em navio cargueiro. Quanto a nós, inventámos um plano B, apanhámos a TAP e fomos passear para a serra do Gerês.

Assim, não conta com esta aventura como primeira viagem oceânica. Essa haveria de ser no ano seguinte.

No Verão de 1990, voltei à carga, desta vez, sozinho. Viajei para o Faial, deixei uma nota no Peter’s e fui acampar numa nica de relva na beira da praia da Alagoa. Gosto da Horta, que me traz muitas recordações de infância, uma vez que a minha mãe era de lá e moraram precisamente atrás da praia da Alagoa, numa pequena casa que ruiu e foi levada pelo mar numa noite de temporal, em que a minha avó e a minha mãe se salvaram por milagre, tendo saltado da cama e fugido poucos minutos antes. O meu avô trabalhava na empresa inglesa de cabos submarinos e estava de turno nessa noite. Perderam tudo quanto tinham nesse desastre.

Acampando na praia, todos os dias ia ver se havia resposta ao meu pedido de embarque. O destino era-me indiferente, desde que fosse para Leste. A viagem era a minha motivação, não o turismo. Lembro-me que uma noite já estava a dormir na minha minúscula tenda e acordei com grande barulheira à minha volta. Tentei ignorar, talvez se fossem embora. Mas não foram e a certa altura, abriram-me o fecho da tenda e entrou-me por lá dentro uma bela moça. Por esta, não me importo de ser assaltado, pensei eu. Mas acabou tudo bem, afinal era só uma troupe da televisão alcoolicamente descontraída, o pessoal do Zeca Medeiros, que estava no Faial a filmar uma novela qualquer.  Uns dias depois, finalmente, embarquei para a minha primeira viagem oceânica num pequeno veleiro. (continua)

 

*PS: Antes da publicação desta crónica e muito depois dela ter sido escrita, recebi a triste notícia do falecimento do meu amigo, Zim Garoupa, em S. Miguel, a 8 de julho de 2025, após doença prolongada.

 

 

BON VOYAGE (1) DOS AÇORES A CABO VERDE (1)

Abril 04, 2025

Tarcísio Pacheco

ARION 2.jpg

(publicado no semanário ILHA MAIOR, da ilha do Pico, Açores, a 5 de abril de 2025

BON VOYAGE (1)

Cabo Verde (1)

Heliodoro Tarcísio

Sempre adorei viajar, em qualquer altura, por quaisquer motivos exceto de saúde e mesmo assim, é possível usufruir de bons momentos em qualquer circunstância. Quando a minha filha mais velha, Bárbara, entrou para a faculdade e estava hesitante entre os cursos de Serviço Social e Turismo, aconselhei-lhe o Turismo, “tens alma de viajante, filha” disse-lhe eu. E, atualmente, ela trabalha em Turismo, adora e viaja imenso. Quanto ao meu caso, quatro filhos, o trabalho, a falta de tempo e alguma ansiedade de voar, não fizeram de mim o viajante que queria ter sido. Mesmo assim, vivi algumas aventuras, especialmente em viagens marítimas.

Quando o meu amigo, Florêncio Moniz, me convidou para escrever umas crónicas de viagem para o Ilha Maior, não foi difícil aceder, motivado pela amizade com o Florêncio, velho amigo e colega de faculdade, o apreço pelo Dr. Manuel Tomás, meu antigo colega na escola C+S de S. Roque e o amor pela ilha do Pico, onde, há séculos atrás, vivi um ano maravilhoso, que recordo com saudade. Sendo Sagitariano, logo curioso e aventureiro, tenho no meu mapa astral, uma certa energia de Virgem, que me leva a ser, por vezes, todo organizadinho. Tinha, por isso, pensado em escrever cronologicamente. Mas acabei inspirado pelas belíssimas crónicas de Cabo Verde do Florêncio. E então, aí vai a minha experiência única de “morabeza”, em 2 partes.

O ano era 2001. Desde criança, apaixonado pelo mar, nesse ano, ainda tinha o meu primeiro veleiro de cruzeiro, o Zeilen, um pequeno Waarschip 20 holandês, famoso na Holanda, que adquiri no Faial em 1998. A marina de Angra estava então em início de construção e os nossos barcos costumavam ser içados para terra em setembro e lá ficavam pelo Porto Pipas todo o Inverno. No ano de 2000 fiz amizade com o Pascal, francês, proprietário e skipper do ARION, um ketch em ferrocimento, com 9.60 metros de comprimento, de construção caseira, em que o Pascal, um médico homeopata de Uzeste, perto de Bordéus, navegara desde França até aos Açores. O plano dele era, mais tarde, prosseguir para sul. Fiquei a tomar conta do ARION durante o Inverno e pouco a pouco foi-se cimentando a ideia de abalar com o Pascal no Verão seguinte. Na época era casado e já tinha 3 filhos, por isso, era mesmo só um mês de férias. E assim foi, em maio de 2001 o Pascal voltou, com o seu amigo, Phillipe, um notário francês e abalámos os três rumo a Cabo Verde, num dia chuvoso e sombrio do início de junho.

Esta foi a minha viagem oceânica mais longa, como tripulante e sempre em alto-mar. Demorámos 15 dias, de Angra do Heroísmo à cidade do Mindelo, em rota direta. Partimos com mau tempo, o que nunca é bom. Havia muita ondulação e depois de colocarmos o barco a navegar à vela, o Pascal e o Phillipe atiraram-se literalmente para o chão, a vomitar e ficaram doentes durante 3 dias. Eu já estava mais calejado pelas aventuras com o Zeilen; mas, mesmo assim, também não tinha muito apetite e durante 3 dias, foi só sopinha e fruta. Só fiquei doente um dia, depois de ter abusado de uns deliciosos pudins franceses em lata, que só eu comia. Depois, as coisas normalizaram-se e instalou-se a rotina duma viagem oceânica em veleiro. Foi antes do GPS, o Pascal fazia a navegação com o seu sextante, determinando diariamente a nossa posição e o rumo e eu e o Phillipe fazíamos tudo o resto, mareação de velas, cozinhar, arrumar e limpar. Essa viagem teve de tudo um pouco. Não nos deparámos com nenhuma tempestade séria, mas houve dias de larga e alta ondulação oceânica, com ondas de 5 a 6 metros, de nordeste. Houve dias de chuva e dias de sol, em que aproveitávamos para nos despirmos no convés e nos lavarmos com baldes de água salgada. Lembro-me que o Pascal era um francês típico, muito poupadinho, não nos deixou nunca ligar o motor, para não gastar gasóleo e não nos deixava ligar as luzes de navegação à noite, para não gastar baterias. Dizia para ligarmos uma lanterna de mão se nos cruzássemos com navegação à noite. Tínhamos uma windvane (piloto automático mecânico, de vento), mas à noite, fazíamos quartos de leme de 3 horas (das 21h às 09h). Num desses quartos, estava eu sozinho no cockpit e lembro-me que estava uma noite horrível, sinistramente sombria, havia total calmaria, o barco boiava numa espécie de charco pantanoso, o céu, o mar e o próprio barco, tudo era cinzento e sem forma; fiquei a contar os minutos para terminar o meu quarto e ir dormir. Antes o mar bravo. (continua)

 

 

BAGA EPISÓDIO DE HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA (BB138)

Setembro 07, 2022

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (138)

HELIODORO TARCÍSIO          

BAGA EPISÓDIO DE HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA – Na madrugada do dia 31 de agosto do corrente, pouco antes do nascer do sol, a minha embarcação de recreio atual, o Alexandra, um veleiro de cruzeiro de 39 pés, em viagem de S. Miguel para a Terceira, chocou contra os ilhéus dos Fradinhos, navegando a motor, com a vela grande içada, em piloto automático, a cerca de 4 nós de velocidade. Podia, facilmente, ter sido o fim do barco, mas não foi. Podia, facilmente, ter havido vítimas, mas não houve. Fatores negativos e causadores do acidente: por manifesto azar, o rumo real (não o planeado) levava direitinho às malditas rochas, estas são do mais rijo que há na natureza, não passando, no entanto, de um pontinho no imenso mar, a noite estava muito escura (lua em quarto-crescente inicial e já abaixo do horizonte), o barco estava em piloto automático, o skipper não tomou os devidos cuidados,  pensava estar acordado mas adormeceu na hora errada, sem se dar conta, sentado no cockpit e o outro tripulante, a minha companheira, estava a dormir no interior.  Fatores positivos, que evitaram o pior: ia a motor e a baixa velocidade, o mar estava muito calmo e o primeiro embate foi de lado e acima da linha de água. Claro que os primeiros segundos foram de horror e incredulidade, mas, felizmente, depois do pânico inicial, foi possível reagir, meter marcha à ré e tirar o barco das pedras. Uma rápida avaliação aos estragos revelou um rombo no casco, acima da linha de água, na vante de estibordo e diversas escoriações menores dos dois lados. O motor continuou a funcionar bem, o leme e a hélice não foram afetados, aparentemente não havia entrada de água, por isso, foi acalmar os nervos, rumar rapidamente para a marina de Angra e colocar o barco em seco. Segue-se agora um longo período de inatividade e uma despesa considerável. Mas safámo-nos do pior. Muito azar e depois muita sorte, no fim das contas.

Porque é que eu publico isto? Porque não quero fazer segredo, devemos assumir os nossos erros, aprender com eles e aprender também com os erros dos outros. Sou um navegador experiente, habitualmente cauteloso e instrutor de navegação, com várias passagens oceânicas no currículo como skipper, navego frequentemente entre a Terceira e S. Miguel, fiz aquela rota muitas vezes, a maior parte delas em solitário e uma vez apenas com a minha filha Júlia, na época com 5 anos. Tinha ao meu dispor diversos meios, instrumentos e técnicas para evitar aquele tipo de acidente, incluindo radar. Não podia ter acontecido. Mas aconteceu. Como é frequente em acidentes com barcos e aviões, este foi provocado por uma mistura de algum azar com descuido e erros cometidos e envolveu uma pessoa experiente. No mar, a culpa é sempre do capitão ou skipper e eu assumo-a por completo e com toda a humildade.

Posto isto, aquelas malditas rochas, duras como o demónio, estão ali há milhares de anos e constituem um evidente perigo para a navegação marítima. Na verdade, já causaram muitos acidentes e diversos naufrágios. São constituídas por basalto muito escuro, são baixas (4 metros de altitude máxima) e estão longe da costa. É verdade que estão nas cartas náuticas e roteiros e são abrangidas pelo setor vermelho do farol das Contendas, mas isso não é, nem de longe, suficiente. O grande perigo que representam exige um equipamento local. Um farolim, uma boia de sinalização marítima ou, no mínimo, placas refletoras incrustadas na rocha, uma técnica moderna e resistente.

O nosso país orgulha-se da sua geografia atlântica e da sua história marítima. Mas a verdade é que, relativamente ao mar, como a tantas outras coisas, abundam a incompetência, o desleixo, a incúria, a corrupção, a falta de organização e o mau planeamento, muitas vezes desculpados com a eterna falta de fundos e meios. Basta ver como deixámos morrer a nossa marinha mercante, como não fiscalizamos as nossas áreas marítimas exclusivas, como andámos a construir fragatas e submarinos para brincar às guerras em vez de construir patrulheiros, que tão necessários eram, como aceitamos um governo nos Açores que diz não precisarmos de ferries porque temos aviões. E a Marinha Portuguesa, sempre tão pronta para fazer exigências absurdas (naturalmente, com fundamento legal), que nos levam a procurar outras bandeiras e a passar coimas de 250 euros por falta de revisão num extintor, não tem nada a dizer sobre a falta de sinalização adequada num perigo tão evidente para a navegação marítima, tão antigo e tão conhecido? POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA NO CAIS DA CALHETA

Junho 18, 2019

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (78)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA NO CAIS DA CALHETA – No fim de semana do feriado da Autonomia, abalámos até S. Jorge, no meu Nantucket Clipper 30, o Popeye, um veleiro de cruzeiro construído na Inglaterra em 1978 e que é, obviamente, o veleiro mais bonito da marina de Angra.

O nosso plano era simples, amarrar o barco, alugar uma scooter e ir fazer uns trilhos numas fajãs. Sabendo que a minúscula marina de Velas estava repleta, decidimos ficar pela Calheta, um porto sem marina, mas praticável, desde que o mar esteja calmo e não haja muita corrente. Depois de uma noite de sexta agitada (partimos à meia noite logo após um evento de Zumba na Biofeira, na Praia da Vitória), a navegar a boa velocidade apenas com a vela grande, sob um vento norte frescalhote e acima da previsão meteorológica, de manhã ainda tivemos de navegar a motor e a custo contra um vento furioso que rondara, entretanto para oeste, mesmo contrário ao nosso rumo. Entrámos na baía da Calheta por volta das 13h00 de sábado. Inicialmente, pensara em ancorar, mas como vi a maior parte do cais antigo livre e o mar estava calmo, decidi atracar ali. Reparei logo numa enorme tenda montada mesmo no meio do cais e cheia de movimento. Pouco depois aproximou-se um segurança que me informou estar ali a preparar-se, para o dia 10, as cerimónias oficiais dos dias de Portugal e da Autonomia, com a presença dos principais figurões da política regional. E que, na opinião dele, embora não tivesse ainda ordens expressas nesse sentido, o Popeye “não ia poder ficar atracado ali”.  Não dei muita importância ao assunto, amarrámos bem o barquito e fomos à nossa vida, só voltámos noite cerrada, para dormir. No domingo, a mesma coisa, saímos cedo para ir fazer o trilho da fajã da Caldeira de Santo Cristo pela serra do Topo, ida e volta. Estava um maravilhoso dia de Primavera e aproveitámo-lo bem.

Na verdade, nada de especial se passou. Nenhuma autoridade me interpelou. Ninguém falou comigo. Não tenho razões de queixa.  Mas durante o dia de domingo, via telemóvel, recebi vários recados indiretos, veiculados por velejadores da Terceira que estavam atracados nas Velas. Segundo estes, o responsável pela marina de Velas (pessoa muito simpática e correta, que conheço pessoalmente) havia-lhes dito, primeiro que eu tinha de sair cedo na manhã de segunda-feira, dia 10 e num recado posterior, que “tinha de sair de imediato”. Na ausência de contatos formais, continuei a não ligar nenhuma ao assunto e a conviver pacificamente com a luxuosa tenda na vizinhança, agora já cheia de cadeiras, microfones e equipamento de comunicação. Mantive o meu plano original que era largar na 2.ª feira bem cedo para a Terceira, pois trabalhava na terça. Larguei às 6 da manhã. Até hoje, não sei qual era a ideia. Mas não gostei das pressões indiretas para sair mais cedo do cais da Calheta. Um barco não é um automóvel que, se não estacionar aqui, estaciona acolá. Os barcos precisam de atracar em segurança nas marinas, num cais ou, na pior das hipóteses, de ancorar, desde que seja em fundos de boa tença e não haja demasiado vento ou corrente. Pago os meus impostos para poder usufruir das estruturas e serviços públicos. Também contribuo para os ordenados dos políticos. E não entendo como que é que o meu humilde veleiro poderia incomodar suas excelências ou colocar em risco a sua segurança. Querem fazer política à beira-mar pois que façam. Devem achar giro. Mas deixem os barcos em paz. Já basta o que um desportista náutico português tem de suportar, de custos, impostos, taxas, burocracia e problemas de toda a ordem, num país que é hipocritamente designado como “de marinheiros”. POPEYE9700@YAHOO.COM

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