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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA A RESPEITO DE ERAS (BB 119)

Fevereiro 15, 2021

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://democrats.org/news/new-dnc-ad-trumps-america/

 

  • BAGAS DE BELADONA (119)
     
    HELIODORO TARCÍSIO
     
    BAGA A RESPEITO DE ERAS – Não é que me tenha, propriamente,
    surpreendido, o artigo recentemente publicado no DI, com o título “A Era
    de Biden”. E, se o seu autor publicou antes algum texto intitulado “A Era
    de Trump”, não dei conta dele, mas, se for esse o caso, apresento as minhas
    desculpas. É que, assim, dependendo do que lá se dissesse, pelo menos,
    haveria um fator de equilíbrio.
    Por outro lado, não é que eu morra de amores por Biden e me vá armar em
    seu cavaleiro andante. Com Biden, os EUA vão voltar ao que eram antes,
    ao que sempre foram, com Obama, com Clinton, com o clã Bush, o que, do
    meu ponto de vista, não é grande coisa. Um imenso e riquíssimo país, com
    traços e características bem marcados, nalguns pontos a um nível quase
    repulsivo: território, população e recursos naturais imensos; uma tendência
    imperialista evidente, quer através do poder militar, quer através da
    constante ingerência na política interna de outros países, da espionagem
    permanente e da exportação maciça de produtos, tecnologia e hábitos de
    consumo de matriz capitalista; partindo daqui, um evidente complexo de
    donos do mundo, de modelo e exemplo; um sistema eleitoral arcaico e cada
    vez mais duvidoso, que permite legalmente eleger líderes que são apoiados
    por uma minoria da população; um sistema capitalista em que tudo,
    absolutamente tudo, seja o que for, se define pelo seu valor em dólares; um
    sistema social pobríssimo, absolutamente injusto, nada solidário, que deixa
    na miséria e traz grandes dificuldades à população mais desfavorecida; um
    sistema de saúde atroz, assente no princípio “quem pode paga, quem não
  • pode, o problema é dele”; uma classe política pavorosa, absolutamente
    inflexível, bipolar, limitadíssima em termos de horizontes mentais, que
    refinou ao máximo a ligação entre política e dinheiro, ao ponto de todo e
    qualquer político norte-americano, considerar natural, comprar a carreira e
    os votos de que necessita; um sistema cultural/ético/religioso que causa
    asco, assente numa matriz judaico-cristã, muito conservador, extremamente
    hipócrita e de um convencionalismo que roça a boçalidade, com números
    expressivos ao nível do fundamentalismo cristão, da literalidade bíblica e
    de praga tenebrosa do evangelismo cristão; uma profunda desconfiança
    pela diferença e um “anti esquerdismo” primário mas ainda assim pleno de
    malícia; um nível intelectual que se carateriza por franjas extremamente
    cultas e inteligentes (cientistas, escritores, investigadores, académicos,
    gente da música, das artes, do show business) a par de uma massa popular
    incrivelmente inculta e ignorante, o que, como sabemos, está na base da
    maioria das desgraças de um povo; um racismo latente, explosivo e sempre
    presente, sendo que a multiculturalidade da nação se manifesta cada vez
    mais contra si própria (dantes era brancos contra negros, isso não mudou
    assim tanto mas agora é mais todos contra todos). Ver negros e latinos a
    apoiar Trump (um claríssimo racista) só pode significar ignorância.
    Podia continuar a escrever mais duas horas sobre isto, mas trata-se apenas
    de umas ligeiras pinceladas sobre a América de Biden, tal como eu a vejo,
    enfim “A América”.
    Disto isto, até parece que eu concordo com o autor de “A Era de Biden”.
    Não é isso, não concordo nada! Acontece apenas que acho intolerável
    escrever-se contra Biden quando nada se disse contra Trump ou a sua era.
    É que Trump é um bom norte-americano, com todos os tiques implícitos
    (materialismo, ambição, competição, supremacia, arrogância,
    agressividade, ignorância, hipocrisia, convencionalismo, banalidade,
    egocentrismo e amoralidade), por isso, tem todos estes defeitos que referi,
    mas tem ainda muitos outros, que, enquanto simples magnata, me
    causavam apenas enfado, troça e escárnio, mas mo tornaram odioso,
    enquanto “projeto de político” e POTUS. Basicamente, Trump, tal como eu
    o vejo, é um idiota endinheirado, primário e grosseiro (conheço aqui na ilha
  • Terceira, para não ir mais longe, gente que não tem dinheiro, mas que é
    muito mais inteligente do que ele) mas é um idiota perigoso. Então, só
    porque Biden não é um fundamentalista cristão que condena mulheres que
    abortam à prisão, escreve-se sobre “a sua Era” e sobre “A Era de Trump”,
    talvez o período mais confuso, caótico, perigoso, radical, estúpido e
    abananado de toda a história política norte-americana, nem uma palavra?
    Tudo porque Trump há de ser contra o aborto, como era contra ou a favor
    do que quer que fosse que lhe trouxesse votos?
    Já escrevi muito sobre o aborto. Não sou favorável. Isso não quer dizer que
    concorde com a condenação das mulheres que o praticam. E há outra coisa,
    não temos como o prever, mas aqui e ali, o aborto pode ser uma coisa
    ótima. Se a mãe de Trump o tivesse abortado, os EUA teriam evitado estes
    vergonhosos últimos 4 anos. E a Melânia tinha casado na mesma com um
    ricaço, claro, mas podia ter sido alguém menos asqueroso, coitada.
    POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA DO DESCONFINAMENTO (BB 109)

Maio 21, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.correiodamadeira.com/2020/04/covid-19-plano-de-desconfinamento.html

BAGAS DE BELADONA (109)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA DO DESCONFINAMENTO - Respondendo a uma dúvida que tem surgido no seio do povo de Deus, o confinamento católico é obrigatório porque provém da autoridade, que nos ama a todos paternalmente, mas, do ponto de vista teológico, não é sagrado, indissolúvel e, muito menos, eterno. Por isso, ide e desconfinai. Porém, tomai cautela e procedei com os devidos cuidados ou sentireis na carne o custo da prevaricação. Bom, isto foi apenas um recado, que o senhor Bispo me pediu para passar na minha crónica porque o povo não se pode ajuntar nas igrejas nem fazer procissões. Está feito.

Tenho-me deliciado a percorrer a ilha, assistindo ao espetáculo do povo a desconfinar. Especialmente, hoje, domingo, um dia bonito, em que a pessoa acorda, olha para a janela e pensa que o que está mesmo a apetecer é sair de casa e desconfinar por aí. A Primavera é mesmo a estação ideal para atividades desconfinatórias. Pessoalmente, eu, que nunca havia sido confinado antes, sinto que estou a viver uma experiência única num período histórico. É que ficamos sem saber exatamente como desconfinar. É certo que há regras, mas não há propriamente um manual de desconfinamento e somos assaltados por muitas dúvidas. Afinal, desconfinar é um processo complexo que envolve estratégia, planeamento e uma fita métrica. Que será, muito provavelmente, chinesa. O que faz algum sentido, completa o círculo e prenuncia os próximos anos da Humanidade. Prosseguindo, em termos de desconfinamento, por vezes é preciso improvisar. E depois, cada um tem o seu jeito de desconfinar. E, como sempre, há uns que têm mais jeito que outros. Por outro lado, fazem-se descobertas sociologicamente interessantíssimas. Por exemplo, apercebi-me que os grupos de bêbados já desconfinavam antes. Eles é que não sabiam. Tenho-os vistos sentados em frente aos cafés favoritos deles, enfim reabertos, em pequenos grupos, cumprindo civicamente as normas de distanciamento social (é mais ou menos uma caixa de cerveja entre conversantes e duas entre grupos) com uma cerveja aberta a amornar na mão; vi um grupo desses em S. Mateus, todos a desconfinar ativamente, em frente ao café, sentados junto de um recipiente para lixo e a enviar garrafas vazias de cerveja para baixo, para o relvado do lindo passeio marítimo da freguesia. Ora, isso era o que eles já faziam dantes. Chamava-se ajavardar, mas agora sei que afinal já era desconfinar. A conclusão é que cada um desconfina de acordo com a sua índole. No entanto, verdade se diga, os bêbados têm bebido sempre de máscara. Podem usá-la ao pescoço, como se fosse um adereço de moda, em estado de prontidão operacional. Ou apenas sobre a boca porque o nariz faz muita falta na respiração. Mas está lá. E, espelhando a criatividade que o desconfinamento suscita, começam a aparecer máscaras de todas as cores, com bonecos Disney para os putos, cinzentas para usar com fato de político, vermelhas para adeptos do Benfica e comunistas, rosinhas para o Manel Goucha. Pequenos negócios florescem no Facebook e as costureirinhas da ilha, à míngua de encomendas para as marchas de S. João, dedicam-se por inteiro à produção de máscaras. Já apareceram também tutoriais de “faça você mesmo a sua máscara”. Muito provavelmente, neste Verão, a Coca-Cola oferecerá uma máscara com cada latinha.

No Continente, com as zonas balneares ainda fechadas oficialmente, o tempo quente a apelar ao desconfinamento e os cavalos da GNR a patrulharem as praias, os Portugueses recorreram a estratégias muito próprias do espertismo nacional. É só aparecer por lá, com ar de quem vai fazer outra coisa qualquer que não seja fazer praia. Porque, pelo que vi, aparentemente, é possível fazer imensas coisas nas praias, exceto fazer praia. Por isso, o povo vai ficando por ali, com um ar falsamente distraído e quando a bófia está a olhar para o outro lado, pimba, o povo faz praia. Por cá, vi um amigo voltar de uma caçada submarina com uma bela abrótea que, para azar dela e por andar provavelmente mal-informada, estava ainda confinada à sua toca.

Entretanto, a Oeste, contrariando Erich Maria Remarque, há sempre algo de novo, no mau sentido da ideia, claro. Agora, o sapo cor de laranja, enquanto vagueia no seu ambiente natural, o pântano da economia eleiçoeira,  para apanhar os bichinhos rastejantes de que se alimenta, salpica o mundo com a sua baba tóxica; antes era a China, como se alguém tivesse culpado a Espanha pela Gripe Espanhola, muito mais mortífera; agora, como o argumento enfraqueceu e os Chineses até já aprenderam a fazer humor, inventou o Obama Crime; segundo o sapo, o crime político mais grave da história dos EUA; inquirido publicamente sobre tão grande crime, respondeu que um crime é um crime, toda a gente sabe o que é. O meu conselho ao povo americano é que confinem Trump na penthouse da Torre Trump, com uma televisão gigante com dois canais apenas, a Fox News e o Playboy e uma provisão para vários anos de hot-dogs e Coca-cola light. Vão ver que as coisas melhoram. O desconfinamento não é adequado para toda a gente. Mais a sul, o aprendiz de ditador que não sabe sambar, embora não seja coveiro, enterra-se mais e mais, dia a dia. Para esse e para o povo brasileiro, o mais adequado seria o confinamento em estrutura especial, de forma trapezoidal, em madeira exótica, com uns 2 metros de comprimento por 80 cm de largura. Não, não é essa coisa macabra em que estão a pensar. Trata-se apenas de uma “unidade especial de confinamento não reversível”. Para casos difíceis.

Se pareço demasiado radical, saibam que não é comunismo nem nenhuma patologia psiquiátrica. É apenas esta atmosfera geral de desconfinamento, esta energia que anda no ar e nos torna mais ativos, criativos, dinâmicos e sensíveis. É uma espécie de febre dos fenos, quase como um vírus, embora, provavelmente, eu devesse usar outro termo de comparação. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA O ESQUERDINHA, JOGADOR DO FCP (BB107)

Maio 05, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://racismoambiental.net.br/2017/12/25/parabens-baderneiro-comunista-defensor-de-bandido-e-prostituta-por-gregorio-duvivier/

BAGAS DE BELADONA (107)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA O ESQUERDINHA, JOGADOR DO FCP - Acredito que para combater o Covid-19 onde ele está a ser mais mortífero, nos EUA e no Brasil, o primeiro e decisivo passo é destituir os respetivos chefes de estado. Digo destituir porque sou uma pessoa pacífica. Se não o fosse, ocorrer-me-ia uma série prolífica de verbos transitivos práticos e apropriados. Há verbos transitivos lindíssimos e carregados de potencial, só precisam de um complemento direto apropriado para serem felizes:  empurrar, cortar, esquartejar, suspender, fritar, encolher, triturar, queimar, obliterar, atomizar, para dar apenas alguns exemplos.  Mas, fosse qual fosse o verbo, a partir daí, as coisas haviam de entrar nos eixos. Entretanto, lá no velho Oeste, o bucha cor de cenoura patina freneticamente sobre um escorregadio pavimento, malevolamente polido pelos Chineses, segundo ele. Adivinha-se um trambolhão memorável. Mais a sul, um falso Messias, julga-se um Fulgêncio Batista qualquer só porque o Brasil produz muita banana e ameaça a República Federativa, piscando o olho aos seus amigos coronéis para virem bater no Moro que é um mauzão ingrato e traiçoeiro e pôr o país na ordem.

Mas não devo ingerir-me na política interna de países soberanos, por isso, mudando de assunto, a nossa Santa Madre Igreja fica com os azeites sempre que lhe cheira a esquerdismo, venha ele de onde vier, da geringonça, do sindicalismo, do meio artístico, dos media ou de eventos simbólicos e carregados de significado como as comemorações do 1.º de maio, o Dia do Trabalhador. Para disfarçar, dizem que é ciúme, porque não podem receber a populaça crente em Fátima. Logo agora que o tempo está melhor e que a Virgem só aguarda uma procissãozinha de velas de desagravo ao Filho para abençoar uma vacina na Cova da Iria. E que se vê o fundo aos cofres católicos. A Igreja é de direita, profundamente e com pouquíssimas exceções. A Igreja gosta de discursos autoritários, de doutrinas inquestionáveis, de líderes infalíveis, de rituais que nunca mudam, de poderes paternalistas, mas firmes, de livros sagrados das coisas que se fazem assim porque sempre se fizeram. Na verdade, a razão principal para estas atitudes da Igreja é o seu ódio cego ao comunismo e, por associação primária, à esquerda. Nunca valeu a pena tentar sequer explicar à Igreja, as profundas diferenças entre comunismo como doutrina, regimes comunistas históricos e as diversas formas de socialismo democrático. Para a Igreja, sempre foi uma clara e intransigente dicotomia: a gente de bem e piedosa de um lado, o direito, o resto, do outro lado, à esquerda. Politicamente, no nosso país, a Igreja foi sempre CDS-PP e não faltará agora quem ache piada aos discursos do Ventura. Ora, isto sempre me fez espécie porque, para lá das complicações teológicas inabordáveis da Santíssima Trindade, a Igreja Católica assenta toda na figura, vida e mensagem de Jesus de Nazaré. Que sempre me pareceu um grandessíssimo comuna, com muitos dos tiques clássicos: nasceu no seio de uma família do povo; embora pouco se saiba sobre a sua vida antes dos 30 anos, crê-se que era carpinteiro como o marido da mãe ou seja, um trabalhador; tinha um lado claramente anárquico e não se dava bem com o poder instituído que neste caso era o Romano; não era propriamente tolerante e ecuménico, tentava converter toda a gente à “religião certa” que parecia ser a do Pai dele; era avesso à autoridade e discutia com os rabis à porta das sinagogas; não tinha grande respeito pela propriedade privada, era mais de entrar onde lhe apetecesse; era claramente anti capitalista, não gostava dos ricos, a menos que estivessem dispostos a tornar-se pobres e até inventou qualquer coisa a esse respeito que envolvia camelos; não apreciava o livre comércio, centrado no lucro; era um bocado vagabundo, andava de lado para lado e ia recrutando adeptos por onde passava, com especial preferência por pescadores; se tivesse nascido português, seria claramente alentejano; tinha o hábito desagradável de entrar pela casa dentro das pessoas e exigir cama, comida e lava-pés, para ele e para os amigos, arruinando assim o negócio do Alojamento Local na Galileia. Jesus de Nazaré, revoltado, rebelde, agitador de massas, crítico, amigo dos pobres, idealista. Enfim, comunista. Pedro e os da organização dele perceberam tudo ao contrário. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA O COVEIRO E O DR. HOUSE (BB 106)

Abril 28, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.cartoonstock.com/newscartoons/directory/p/president_bolsonaro.asp

 

BAGAS DE BELADONA (106)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA O COVEIRO E O DR. HOUSE - A passada semana registou importantes comunicações ao mundo no contexto da crise pandémica; uma delas, no Brasil, no decurso da corriqueira demissão semanal de ministros e a propósito de número de mortos nas 24 horas anteriores, foi a informação, prestada pelo próprio, de que Jair Bolsonaro não é coveiro. Afirmação surpreendente já que, nitidamente, anda a cavar a sua própria sepultura. Todavia, poderia ser importante para ele aprender os rudimentos de uma profissão que está em alta no mercado brasileiro do trabalho, com uma elevada procura. Afinal, a economia não pode parar (Pô!). Digo isto por estar convicto de que em pouco tempo Bolsonaro irá para o desemprego. No exército, não atingiu mais que a modesta patente de capitão. Não sabendo fazer mais nada para além da intriga política, não seria de abraçar uma honesta profissão com futuro, segura e estável e chegar rapidamente a coveiro de primeira? Além de que, na prática, Bolsonaro já é o coveiro de centenas de brasileiros. Só falta mesmo formalizar a função.

A outra comunicação relevante foi a do senhor Trump, eminente cientista, guru da comunidade científica, especialista em praticamente quase tudo e com um QI tão alto que é impossível de avistar cá de baixo, que teve a generosidade de partilhar com o mundo atónito e embevecido alguns conselhos sobre técnicas de extermínio do vírus. Ficámos assim a saber que é possível matar o vírus pelo calor, submetendo-o a elevadas doses de radiação ultravioleta. Na verdade, também graças ao senhor Trump, já conhecíamos as incríveis possibilidades deste tipo de radiação que, entre muitos outros benefícios, proporciona uma lindíssima cor de cenoura às pessoas. E, bem na senda de Einstein, provando que as ideias geniais são as mais simples, Trump percebeu que se o vírus é morto nas mãos por desinfetante, é só uma questão de borrifar os pulmões. O resto são detalhes. Genial. E disse-o, segundo ele próprio, com o tipo de sarcasmo mais inteligente, aquele de que ninguém se apercebe. Admirável. A intervenção de Trump já tinha sido preciosa há algumas semanas quando publicou no Twitter uns comentários sobre a importância da hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus. Reforçando a convicção já generalizada de que os apoiantes de Trump são pessoas atentas e inteligentes, um casal do Arizona, esse grande estado onde correm rios de inteligência por canhões pedregosos, embora não estivesse doente, resolveu tomar o remédio de Trump a título preventivo, porque lhe parecia ter algo semelhante em casa e porque o senhor presidente foi muito convincente, segundo afirmaram. Ao que parece, o casal era demasiado parecido com Trump, avesso a leituras, por isso não leram as instruções de uso e tomaram fosfato de cloroquina, um produto geralmente usado na limpeza de aquários. Ou então pensaram, bem na linha intelectual do seu presidente, se não faz mal aos peixinhos pagãos, porque é que há de fazer mal a nós, que somos cristãos e tudo? A verdade é que o homem se livrou de boa, escapou de uma morte lenta e cruel, ligado a ventiladores e morreu comodamente dali a pouco, sem ter sentido muito mais que calor e umas tonturas, conforme descrito pela mulher. Já esta não teve tanta sorte e continua viva e à mercê do vírus. Mas não vale a pena entrar em desespero, basta continuar atenta aos conselhos e sugestões do seu líder. E pensar que eu, há uns anos, admirava o Dr. House. Afinal não passava de um curioso. Quem percebe disto mesmo a sério é o Dr. Trump. E quem disser o contrário, só pode ser comunista. God save the USA. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA CONFINADA (BB105)

Abril 21, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.hospitaldaluz.pt/funchal/en/the-hospital/media/news/15067/covid-19-new-orientations-recommendations

 

BAGAS DE BELADONA (105)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA CONFINADA - Gostava de escrever sobre outra coisa que não fosse o estupor do vírus. Mas está difícil. Pois se o bicho virou as nossas vidas de avesso…

Bom, por estes dias, a Internet e os media pululam de especialistas em medicina, em epidemias e em gestão de crises. Vou, por isso, abster-me de grandes tiradas. Farei apenas alguns comentários avulsos. Ao jeito dos oitavos de marmelada embrulhados em papel vegetal que a minha mãe me mandava comprar, ali na mercearia da esquina e do Sr. António, na rua dos Canos Verdes. Isto não tem nada a ver, mas pareceu-me que ficava bem, está bastante na moda rebuscar no baú das nossas memórias. E eu começo a ter uma bela coleção.

Uma coisa que se tornou chocantemente óbvia nesta pandemia, foi a nossa vulnerabilidade. Quer dizer, neste nosso modelo civilizacional antropocêntrico, em que o desenvolvimento económico contínuo e o primado da tecnologia pareciam ser a resposta para todas as necessidades, anseios e limitações do ser humano, eis que um simples vírus, que nem sequer é dos piores ou mais mortíferos, paralisa a economia mundial, confina em casa mais de metade da população do globo e mata quantidades inacreditáveis de cidadãos séniores, deixando uma série de interrogações pungentes quanto ao futuro. Conclusão, temos de deixar de nos armarmos aos cucos. Valemos pouco na ordem geral do universo. Temos aspirações a criaturas superiores, mas um bando de criaturas microscópicas hostis que nem sequer conseguem fazer sexo entre elas, põe-nos em sentido.

Outra coisa que me tem parecido evidente é a fragilidade do aparente controle social. Quer dizer, tenho-nos sentido próximos da barbárie. Não tenhamos ilusões. Parece-nos que vivemos num ambiente muito organizado, mas se as coisas se descontrolarem, um exército imenso de baratas e ratazanas que aparentam pertencer à espécie humana, sairá dos esgotos onde se acoitam para semear o caos. Senti um leve vislumbre disso quando soube que camiões portugueses carregados de equipamentos sanitários para a luta contra o Covid-19, estavam a ser atacados por grupos criminosos nas autoestradas, com o intuito de roubar o material para revenda no mercado negro. E não foi no México ou na África do Sul. Foi no coração da Europa comunitária, em estradas belgas e francesas. Olha-se para a situação e consegue-se perceber que não é preciso muito para as autoridades perderem o controle: um vírus mais pernicioso, mais mortal e mais generalista, mais mortes entre os líderes e as forças de segurança, mais problemas financeiros, miséria, carências essenciais, fome, falta de medicamentos básicos, por exemplo, bastariam para trazer às ruas gente normal desvairada e encorajar as bestas que vivem entre nós.

Todas as catástrofes, quer queiramos, quer não, têm aspetos positivos. Isso, por si só, tem conteúdo para encher uma futura crónica. Por hoje, vou apenas sublinhar o evidente, que a presente crise traz protagonismo aos líderes. Pelos bons e maus motivos. Pelo lado dos maus, Trump e Bolsonaro são os mais sérios candidatos aos Óscares. Ambos são péssimos líderes, manifestamente impreparados e sem qualquer perfil para liderança de topo. Criaturas patéticas, caricaturais, quase cómicas, não fosse a perigosidade da sua gritante incompetência, guindadas ao poder por interesses privados, manobras políticas, corrupção material e pela ignorância das massas. Como já era previsível, ambos têm estado em foco. Com perfis algo diferentes, partilham, no entanto, uma profunda e perigosa ignorância. Que Trump tenta disfarçar com a habitual arrogância truculenta e o estafadíssimo número do bode expiatório. Já com Bolsonaro, a sua imbecilidade pacóvia está para além de qualquer disfarce (e de qualquer redenção). Basta atentar nas suas recentes afirmações: “Para quê fechar escolas se o perigo de morte é para pessoas acima dos 60 anos?!”. Então, uma consequência muito positiva da crise pode ser a provável perda de popularidade e fim de carreira política, para ambos. Pode ser por impeachment, perda de eleições ou morte em atentado. É-me rigorosamente indiferente. Da forma que for mais rápida e prática. Se bem que ao impeachment, que pode ser demorado, confuso e incerto, confesso que prefiro o clássico pichamento, com alcatrão e penas, tão popular precisamente no velho Oeste. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA LAMENTO, AC ACABOU, AGORA É AC-19 E DC-19 (BB 103)

Abril 02, 2020

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: https://nacoesunidas.org/tema/coronavirus/

BAGAS DE BELADONA (103)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA LAMENTO, AC ACABOU, AGORA É AC-19 E DC-19 - Como a maior parte de nós, estou mais ou menos fechado em casa. Não vou à tabacaria nem leio o jornal nos lugares onde o costumava ler. Nunca fui assinante e nunca tive acesso à edição eletrónica. Nunca sei se sou publicado no dia do amigo António Bulcão (já fizemos as pazes, há bastante tempo) ou no dia do Osvaldo Cabral. Ou no dia de outra pessoa qualquer. Ou quando há espaço disponível. Escrevo às cegas. Entretanto, as minhas sagradas rotinas desvaneceram-se. A instituição pública onde trabalho encerrou. Não sendo um trabalhador de uma área considerada essencial para a sobrevivência, faço alguma coisa em termos de trabalho, o que é possível fazer à distância. Cuido da minha família. Continuo a cumprir os meus deveres familiares de companheiro, filho e pai de quatro, um deles uma menina com apenas 9 anos. Providencio aquilo que nunca pode faltar, amor, suporte material, conforto e segurança. Mantenho-me informado, sem exagero e vou criando perspetiva e opinião sobre o que se está a passar no nosso país e no mundo.

Tenho assistido a um certo frenesim social, no sentido das pessoas que não estão a trabalhar se manterem ocupadas. Ele é jogos, adivinhas, músicas, piadas, sugestões de ocupações diversas, de leituras e brincadeiras, tudo no universo digital, bem entendido. E uma ou outra pessoa a tentar impor uma ideia que teve e que achou genial. Nota-se bem o que já antes era claro: as pessoas que vivem para trabalhar entram em stress e ficam à toa se as suas ocupações profissionais e o seu ambiente de trabalho lhes faltam. Não é o meu caso. Tenho respeito e interesse pelo trabalho que me dá o pão de cada dia e cumpro o meu dever. Mas sempre considerei que a melhor parte da minha vida é a que começa, por norma, às 17h30 e prossegue nos fins de semana. O tempo em que faço aquilo que realmente tenho vontade de fazer e em que estou com as pessoas que amo. Curiosamente, embora me preocupe, esteja bem atento ao que se passa e emocionalmente solidário com quem está a sofrer por esse mundo fora, não me sinto aborrecido nem entro em stress. Faço muito do que sempre fiz:  teletrabalho de segunda a sexta; interagir com a família que partilha a quarentena comigo; a atividade física possível, pequenas caminhadas  e as minhas próprias aulas de Zumba; um pouco de bilhar; leitura diária; escrever; cozinhar e outras tarefas domésticas; fazer puzzles; reparações e pinturas domésticas; alguma Netflix; tocar violão; formação em regime de e-learning que, por coincidência, já estava prevista antes. Tenho até, confesso, falta de tempo. Em resumo, para quem já tinha antes uma vida fora do trabalho, talvez a vida não fique assim tão pesada. Quanto aos workaholics, realmente, a vida pode ficar chata e difícil. Acho que esta crise será uma oportunidade para todos aprendermos alguma coisa.

Bom, todos não.  Há quem não tenha nascido para aprender. Líderes medíocres como Trump e Bolsonaro mostram mais do que nunca o pouco que são, como é normal em tempos de crise. Os bons mostram-se, os estúpidos também. Estes irão ser responsabilizados pelas hecatombes que podem ocorrer nos seus países e, a esse respeito, infelizmente, como qualquer asno pode ver, ainda a procissão vai no adro.

Outra coisa que tenho observado: dantes, o nosso país estava ainda atrasadíssimo no que respeita a modernices laborais. Teletrabalho ou a sua precursora, a flexibilidade de horário, não despertavam qualquer interesse na maioria dos nossos líderes, muito menos na Função Pública. Abundavam as chefias do tipo “galinha”, que adoram ter os seus funcionários sempre debaixo da asa ou à vista, dentro do galinheiro, o que diz bem da incapacidade para conceber e gerir diferentes mecanismos de prestação de trabalho e implementar uma avaliação correta, justa e eficaz. A flexibilidade de horário era e é patética e anedótica, com o sistema a permitir apenas às pessoas chegarem ou partirem 15 ou 30 minutos mais cedo ou mais tarde, aqui e ali.

Agora, forçados pela situação, vemos por todo o lado gente a mostrar-se como crentes devotos do teletrabalho. Agora já vale.  Por isso, falando em crenças, acredito piamente que a vida vai mudar bastante, quer se queira quer não. De formas que muitos de nós nem imaginam. Para os que sobreviverem.  Pelo meu lado, vou continuar atento e a cumprir a minha quarentena o melhor que posso. E a escrevinhar uma vez por semana, em princípio. A crise pode prejudicar-me bastante, como cronista. O meu público não é jovem. E eu também não. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA CORONA VÍRUS (BB102)

Março 26, 2020

Tarcísio Pacheco

 

 

 

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imagem em: https://www.cartoonmovement.com/cartoon/65030

 

BAGAS DE BELADONA (102)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA CORONA VÍRUS - Estou a trabalhar normalmente e não me sinto doente, nem sequer em risco, mas apercebo-me de uma certa estranheza no ar. Que me lembra a situação pós-sismo de 1980, quando eu tinha 19 anos e a vida parou à minha volta. Há algumas semelhanças. É aquele tipo de coisa que só acontece nos filmes. Até que a Netflix nos bate à porta e ficamos de boca aberta. O que é extremamente inconveniente, no momento.

Como toda a gente, tenho seguido a atualização informativa, sobretudo na TV, evitando outra perigosa pandemia, a de parvo virose nas redes sociais. De longe, a mensagem mais relevante foi a de Miguel Sousa Tavares, num noticiário: “Tenham vergonha na cara, o Covid-19 não provoca diarreia!”. Tenho esperança que esta mensagem tenha chegado aos intestinos de muitos portugueses cagões. Até porque não vi este comportamento noutros países. Isto não cheira nada bem.

Um dos momentos mais marcantes foi o anúncio de que suas Excelências, Donald Trump e Jair Bolsonaro, o irmão de Marcelo Rebelo de Sousa, estavam sob suspeita de contaminação. Tal como muitas pessoas, em todo o planeta, vivi então aflitivos momentos de expetativa e ansiedade. Cheguei a acender velas e a fazer promessas ao Divino Espírito Santo. Até que foram revelados os resultados das análises e a terrível verdade nos foi servida no cálice amargo da desilusão: ambos estavam de perfeita saúde. Pelo menos aprendemos alguma coisa sobre este novo vírus: parece que não é especialmente atraído pela estupidez.

Uma instituição particularmente afetada tem sido a Igreja Católica. Primeiro, os fiéis, na santa missa, tiveram de pegar na hóstia com as mãos. Para mim, uma hóstia é um pedaço insosso e dessaboroso de farinha de trigo amassada com água. Que talvez eu ingerisse com marmelada ou outro conduto, se estivesse a morrer de fome. Mas para os crentes, é o corpo de Cristo. Já é suficientemente mau e algo canibalesco engolir Cristo aos pedaços, não me parece nada bem tocar-Lhe com as mãos. Há quem diga que Maria Madalena usou e abusou dessa prerrogativa, mas ela foi promovida a santa e agora é intocável.  Tudo é possível, por isso, a Ciocciolina, que até é italiana e boa pessoa, lá no fundo,  não deve perder a esperança de ascender a beata, no mínimo. Provavelmente, só terá de purificar uma das suas maiores fontes de pecado, bochechando bastante com água benta, engarrafada, claro.

Mas é natural que outros problemas mais sérios estejam a caminho do Vaticano. Um problema de contaminação, sobretudo. Os cardeais costumam andar juntinhos, lá nos conclaves deles. Como são todos velhíssimos, há um sério risco de hecatombe. E depois, como iria sobreviver o mundo sem a sábia orientação daquelas santas criaturas? Não haveria de imediato uma nova bolha com a entrada repentina no mercado imobiliário de tantos apartamentos enormes e luxuosos em Roma e arredores? Não iriam à falência alguns restaurantes de Roma com várias estrelas Michelin? Tremo só de imaginar tal desastre.

Medidas drásticas estão a ser tomadas um pouco por todo o lado. Por isso, é previsível que tenha surgido um comunicado oficial do Vaticano, confidencial e sigiloso. Algo deste género: “Gabinete de Informação Interna do Vaticano – Comunicado – Avisa-se todos os prezados cardeais e prelados em geral que, devido à ameaça do Corona Vírus (todavia enviado por Deus, cujos desígnios são insondáveis) e às restrições aplicáveis a quaisquer contatos íntimos, estão suspensas até nova ordem todas as festas e convívios com seminaristas, meninos de coro e internados de instituições de apoio à infância desvalida, assim como as noitadas de copos com jovens membros da guarda suíça. Vamos todos rezar e pedir a Deus para as coisas voltarem ao normal”.popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA MILHÕES IRANIANOS (BB93)

Janeiro 15, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://webneel.com/daily/2-donald-trump-caricature-drawing-maeve-bokser

 

BAGAS DE BELADONA (93)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA MILHÕES IRANIANOS – Diz que os iranianos ofereceram 80 milhões de US dólares (um dólar por cada iraniano) pela cabeça de Trump, na sequência do recente assassinato de Soleimani, o seu general de estimação. Isto parece-me grave e deixa-me preocupado. Por um lado, sendo o Irão um país rico em petróleo e gás natural, parece-me uma oferta algo somítica, um dólar por cabeça e que poderá desagradar a Alá que, como bem sabemos, frequentemente mal assessorado por Maomé, é dado a maus humores e terríveis ataques de divina fúria, enviando então terramotos, tempestades de areia e surtos de gripe camelídea.  Tanto para Alá como para o Deus bíblico, nos dias de hoje, seria bastante provável um diagnóstico de bipolaridade. Que par de divinas e irascíveis jarras! Por um lado, compreendo, a cabeça de Trump é bastante feia e eu não queria aquela pantesma pendurada na minha sala das visitas por dinheiro nenhum deste mundo. Mas há quem pendure cabeças de javali, não propriamente mais feias, mas com dentes maiores e mais amarelados, por cima das suas lareiras. Se fosse a cabeça da Ivanka ou até mesmo alguma outra parte do corpinho dela, já era outra coisa…voltando aos milhões, parece-me que, apesar de feia, a cabeça de Trump havia de valer ao menos uns 5 dólares por iraniano. Assim, já estaríamos a falar de um número na casa dos 400 milhões, bem mais tentador. Afinal, trata-se de vingar o assassinato à falsa fé de um general popular e bonitão, que causava palpitações em muita iraniana devota e que deve ter instaurado o caos lá no Paraíso com as virgens todas de serviço a fazer fila para o entreter e a desprezar os outros mártires, menos bem-apessoados, que vão chegando diariamente. Por falar nisso, noutro dia, esta questão suscitou-me reflexões teológicas profundas…eu tenho este lado também, da inquietação metafísica. Preciso de ir à essência das coisas. Terá Alá uma fábrica de virgens no Paraíso, com a procura intensiva que há hoje em dia? Ou, não querendo blasfemar, terá Ele optado por métodos capitalistas de otimização de ativos, com modernas preocupações ecológicas de reutilização, mandando recauchutar cada Virgem depois de cumprida a sua única função? Parece-me, sem ironia, um negócio das Arábias.

Seja como for, para mim, que sou pobre, 80 milhões é uma oferta interessante. Na verdade, já me contentava com um milhão, mas isso não me convém que ninguém saiba.  Enfraqueceria sobremaneira a minha estratégia negocial. A questão principal é se essa gente é de confiança para pagar. É que se não são, não estou a ver ninguém a servir de fiança ao Irão. Quer dizer, eles até têm amigos, mas ou são amigos falidos, como a Venezuela ou são amigos interesseiros, como a Rússia. Só dizer que se é rico não garante nada. Vejam lá o Ricardo Salgado, que fazia de rico à nossa custa e o próprio Trump que é rico porque, segundo dizem, não paga nada a ninguém. São os piores.

Sou um funcionário público português, já a ficar madurinho, começo a pensar na pré-reforma porque me parece mais inteligente do que pensar na reforma. Mas não quero baixar para menos de metade o meu vencimento. Então, sim, confesso, fiquei tentado. Não diretamente porque sou pacífico e, acima de tudo, esquisito no que respeita a vítimas. Mas passou-me pela cabeça fazer umas sugestões aos iranianos, através das minhas duas ex-namoradas muçulmanas, moças modernaças, porreirinhas e pouco dadas a cenas de mesquita. Depois, se alguma fosse aproveitada, talvez algum dinheirinho me viesse parar à conta. Modéstia à parte, tive algumas ideias excelentes: uma bola de golfe armadilhada, quando ele lhe desse com o taco, pum! Um hotdog com uma dose letal de Ghost Pepper, a malagueta mais picante do mundo; uma putéfia loura, mamalhuda, muito apalpável e, literalmente, explosiva; uma encomenda postal  contaminada (o Antrax é difícil de arranjar mas bonita terra colorida do Tank Farm da Praia da Vitória é fácil); convencê-lo a fazer voos frequentes em Boeings 737 MAX, para provar ao mundo que é um modelo seguro e tornar  a Boeing great again; ou simplesmente (as melhores ideias por vezes estão mesmo à frente do nariz) deixar a natureza seguir o seu curso, afinal o estupor tem mais de 70 anos, é gordo, adora fast-food e Coca-Cola, tem uma doentia cor de cenoura, é dado a stresses e raivinhas e passa a vida sentado a ver TV, a debitar bitaites no Twitter ou a falar ao telemóvel. Estatisticamente, não pode durar muito.

Pois é, tenho sonhado com a minha pré-reforma. Mas se eles não pagam, não vale a pena… alguém aqui já fez negócio com essa gente? Rodrigo Rodrigues, que me dizes?  popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGAS DE BELADONA (83)

Outubro 23, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.theyucatantimes.com/2018/01/cartoons-around-the-world-about-trumps-tantrum-of-a-bigger-nuclear-button/

BAGAS DE BELADONA (83)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA EDUARDO BORBA DA SILVA – A minha Baga 80 era claramente dirigida a Eduardo Borba da Silva, distinto colaborador do Diário Insular, terceirense residente na Noruega, segundo creio, embora não lhe citasse o nome, a propósito da sua crónica “Menina Apocalíptica”. O articulista a isso se referiu, pouco tempo depois. Não estou habituado a tanta amabilidade e confesso que reli o escrito, não fosse haver por ali alguma subtil ironia ou sarcasmo oculto. Mas não, a menos que o meu entendimento esteja embotado, tudo ali é claro, são e escorreito. Resta-me agradecer a gentileza e relevar as raras qualidades demonstradas, de humildade e nobreza de caráter. Da minha parte, garanto que vou continuar a ler a sua escrita superior e prometo nunca mais lhe chamar “correspondente na Escandinávia”, que era uma simples laracha da minha parte.

BAGA, MAS PORQUE É QUE VOCÊS NÃO GOSTAM DOS IMIGRANTES? – Por razões pessoais, aderi sempre à celebração do Dia do Imigrante na nossa cidade, tendo até participado ativamente, como modestíssimo músico amador. Sempre achei que estava bem situada na Praça Velha, coração da cidade, onde, mesmo quem não sabe do evento, vai passando e vai parando. E desgostou-me sobremaneira que a edição deste ano tenha sido remetida para um pavilhão no parque das bestas, na Vinha Brava. Expliquemo-nos, aquele é atualmente um recinto magnífico, apropriado para a feira agrícola semanal, para a feira anual que lá se realiza, para qualquer tipo de exposição e, eventualmente, para qualquer tipo de evento, incluindo eventos inúteis como comícios de partidos políticos. Mas para a feira do Dia do Imigrante, decididamente, não serve (a acústica também é horrível). Neste ano deu-se o azar daquele sábado (12/10) estar bem servido de eventos apelativos; para além da feira da AIPA, havia o Salvador Sobral no CCPV, o fenómeno Ivo “Zé Cabra” Silva na Praça Velha e a última noite das Lajes, com diversas festas rijas a toque de DJ. Foi confrangedor ver aquela boa gente a esforçar-se tanto para receber meia dúzia de gatos pingados naquele enorme pavilhão. Sem dúvida que mostrámos bem o apreço que nutrimos pelos nossos imigrantes. Deslocalizámo-los do coração da cidade, da Praça Velha, remetemo-los para a periferia e trocámos aquela animação de cores, sons, rostos diferentes e barraquinhas com saborosos petiscos pelo teatrinho burlesco do Ivo Silva e suas duvidosas bailarinas. Bom gosto, sem dúvida. Pessoalmente, preferi o ano em que o Dia do Imigrante se festejou no CCAH, à abrigada, na sala grande, com as barraquinhas montadas lá dentro e público numeroso sendo o prato forte uma excelente banda de samba de músicos brasileiros residentes em Lisboa. Foi uma festa de arromba. Por favor, para 2020, devolvam os nossos imigrantes ao centro da cidade.

BAGA TRUMP (MAIS UMA) – Hoje em dia, entre as minhas obras preferidas, estão aquelas que criticam Donald Trump e lhe deixam a nu a careca mal oculta debaixo daquela feia trunfa loira. Vou até sentir a falta disso quando ele cair, mais tarde ou mais cedo. Já aqui dei conta da polémica obra de Michael Wolff, Fogo e Fúria, sobre o 1.º ano da presidência da criatura. Recentemente, terminei de ler o livro de Bob Woodward, Medo – Trump na Casa Branca. É uma obra que recomendo, embora de leitura menos fácil porque é muito factual. Woodward é um conceituado e premiado jornalista norte-americano, autor de vários livros que são sucesso de vendas. Segundo a sua editora, nesta obra, Woodward, com base em centenas de horas de entrevistas com fontes de informação privilegiadas, revela em primeira mão a anedótica vida na Casa Branca de Trump. Ficam completamente expostos os inúmeros defeitos e incapacidades de Trump, o seu atroz e injustificado amor próprio, a sua profunda ignorância e o seu estilo caótico de “governação”. Ao ponto dos seus colaboradores mais próximos lhe surripiarem de cima da secretária minutas de projetos e decisões insensatas e perigosas sabendo que se Trump não os visse rapidamente se esqueceria de questões que ele próprio rotulara de cruciais. Desde o uso do Twitter para comentários públicos muitas vezes desastrosos e até para comunicar decisões de Estado, passando pelo desconhecimento de dossiers fundamentais por ser incapaz de  ler mais que 5 linhas, pela gritante incapacidade de concentração, pela estratégia de despedir sistematicamente quem não lhe faz as vontades, pela prática de trazer a família para a governação, pela constante tomada de decisões ao arrepio dos seus conselheiros, pelo vício da intoxicação televisiva, pelo racismo, misoginia e homofobia mal disfarçados, pelo populismo óbvio e até pelo pobre regime alimentar, à base de fast-food, entre muitas outras desgraças, fica bem claro que, com toda a evidência, Trump é o pior presidente que os EUA alguma vez elegeram. O livro termina no mesmo tom em que começou. Ficamos a saber o que John Dowd, prestigiado causídico e ex-advogado de Trump pensa dele sem jamais lho ter dito: “É um cabrão de um mentiroso”. Toca a ler. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA MENINA APOCALÍPTICA???

Outubro 04, 2019

Tarcísio Pacheco

 

 

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imagem em: https://zap.aeiou.pt/greta-thunberg-trump-ouvir-mais-ciencia-276738

 

BAGAS DE BELADONA (80)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA MENINA APOCALÍPTICA??? – Os artigos regulares do correspondente permanente do DI na Escandinávia são dos poucos que leio sempre. O homem é cronista talentoso, investigador diligente e dono de uma cultura superior. É também um interessante divulgador da história e cultura nórdicas. E não deixa de ter a sua pitada de humor, o que é, quase sempre (há exceções, lembrei-me agora do “cómico” Fernando Mendes…) sinal de inteligência. Fiquei agradecido por ter trazido ao meu conhecimento um certo arquipélago finlandês que fiquei com vontade de visitar, já que, nascido ilhéu, em cima de umas sacas de sarapilheira, a 25 metros do mar, numa fajã jorgense, adoro ilhas.

Porém, nem sempre estamos de acordo, o que é salutar e, o mais das vezes, absolutamente irrelevante. O certo é que, recentemente, o prezado articulista chamou “menina apocalíptica” a uma certa menina sueca a quem eu prefiro chamar Grethe, o nome dela, ou, na pior das hipóteses, “musa do clima”.

Sempre num registo de escrevinhação superior, o articulista foi deselegante e deixou transparecer um tom desdenhoso. Se queria falar das alterações climáticas, tinha bem à mão as intervenções desbocadas e trauliteiras de Trump, o assassino do clima ou as tiradas imbecis e agressivas de Bolsonaro, o incendiário da Amazónia. E se queria encontrar culpados, talvez pudesse ter falado de nós todos, eu e ele incluídos e do nosso apetite por consumismo, viagens aéreas, energia elétrica, petróleo e eletrónica. Mas não, tinha que falar de Grethe, chamar a família dela ao terreiro, insinuar que ela é um poucochinho deficiente, que se arma em profetisa e dar relevância ao facto de ter interrompido o seu percurso escolar para encetar uma cruzada messiânica. Até com o apelido dela, Tintin, o articulista entendeu gozar. Isto caiu-me mal.

Considerações irrelevantes à parte, tenho total admiração por esta menina de 16 anos que, em vez de se empenhar na escola para “obter sucesso num mundo cada vez mais competitivo”, tralala, tralala, um dos mais caros mantras da sociedade capitalista e consumista, supera os seus constrangimentos naturais e parte, mundo afora, numa corajosa, mas espinhosa missão de nível superior, para alertar o mundo sobre o que pode estar para vir em breve.

Não sei se estamos à beira de um cenário de apocalipse até porque nunca assisti a nenhum ainda. Mas quer-me parecer que uma boa definição de apocalipse é a de um somatório de catástrofes interligadas, já ocorridas, em curso ou anunciadas, com efeito final, irreversível, de avalanche. E disso já há indícios bastantes. Não sou eu, um desconhecido sem importância, quem o diz. É 97% da comunidade científica mundial, de uma forma ou de outra. Em 1988 foi criado o IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas) sob a chancela da Organização Meteorológica Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que passou a publicar grandes relatórios periódicos. O IPCC estabeleceu-se como o principal porta-voz do consenso científico e como a maior autoridade mundial sobre o aquecimento global. A súmula das suas conclusões é de estarrecer e bastante “apocalíptica”. No topo da lista pode ler-se que “o aquecimento global da Terra é inequívoco” e que “a influência humana sobre o clima é clara”.

Mas o nosso gracioso articulista entendeu que Grethe Tintin faz mal em andar por aí a alertar o mundo e que deve ser gozada,  que, se calhar, os pais, meio extravagantes, é que estão por detrás disto tudo e que a jovem Grethe faria melhor em andar agarrada ao seu iphone topo de gama como os outros todos, a ver cenas maradas e assim, a beber uns copos à noite (despautérios de juventude, quem os não teve), a aproveitar as excelentes oportunidades que o programa Erasmus oferece (é possível, por exemplo, escolher o país de destino mediante o preço local da cerveja) e a tratar dos seus desequilíbrios emocionais, a ver se chega a casar um dia. Até já se está a fazer ao piso ao Nobel da Paz e assim ainda atrapalha a candidatura autoproposta de gente adulta e séria, como o Sr. Donaldo.

Felizmente, para o mundo, Grethe Tintin é de outro calibre. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos enquanto nos preparamos para lidar com o caprichoso Lorenzo, o maior ciclone atlântico, até agora, a escolher uma rota Norte. Não deixem roupa no varal. Popeye9700@yahoo.com

 

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