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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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BAGA CHEGANICES (RIMA COM CIGANICES) BB154

Março 15, 2024

Tarcísio Pacheco

 

 

 

chega.jpg

imagem em: Mocidade Portuguesa, cartoon de Vasco Gargalo d’prés João Abel Manta, Salazar e André Ventura, 2020, Portugal. – Arquipélagos (arquipelagos.pt)

BAGAS DE BELADONA (154)

HELIODORO TARCÍSIO          

 BAGA CHEGANICES (RIMA COM CIGANICES…) -  Não escondo que o Chega me dá azia (como, aliás, a política em geral), mas vou resolvendo isso com sais de frutas ENO (a referência comercial é para ver se arranca de vez a minha carreira de influencer e começo a receber uns cobres…). Simplesmente, não vale a pena preocuparmo-nos com o que não podemos mudar. Diz o sistema que o voto é a arma do povo, mas o que se pode fazer, na verdade, se, por cada inteligente que vota, votam também dez idiotas, ignorantes, neofascistas, velhos fascistas, antigos pides, simples oportunistas, ressabiados ou jovens empreendedores imbuídos de espírito competitivo e à espreita de boas oportunidades para usar gravata e subir na vida. Ouço dizer que muitos votam Chega porque estão fartos dos partidos tradicionais, cansados de promessas jamais cumpridas e de problemas locais que nunca mais se resolvem. Não duvido que assim seja e até entendo. Sou terceirense e de promessas por cumprir, entendo eu. Porém, o fenómeno do Chega vai muito para além disso. Se fosse só por cansaço e protesto, as pessoas votariam num qualquer dos pequenos partidos que infestam a nossa cena política e há-os para todos os gostos.  Acredito que a maior parte dos cheganos vota no líder, André Ventura. Este é um claríssimo exemplo de líder populista, que está na moda nos tristes dias de hoje. O significado do termo populismo é variável no tempo e no espaço e não é sequer recente, os líderes populistas sempre existiram na História, só não lhes chamávamos isso. Contudo, é geralmente aceite que eles partilham uma série de caraterísticas: boa comunicação, perfil de liderança, capacidade para convencer o cidadão comum e influenciar pessoas, criticismo, inteligência ou esperteza (conceitos diferentes), oportunismo, conservadorismo, militarismo, nacionalismo, moralismo, racismo, na atualidade, descrença no desastre climático que se avizinha, messianismo próprio e uma aura mística ou religiosa, que ajuda bastante se estiver presente e frequentemente está, mesmo que de forma hipócrita. Dois dos líderes populistas mais conhecidos na atualidade, são Trump e Bolsonaro, que nada têm de religioso, mas que vimos frequentemente a serem “abençoados” por sacripantas evangélicas ou radicais bíblicos que, inclusivamente, levaram para os seus governos. Ora, Ventura é um pouco de tudo isto, até andou no seminário e tem um “confessor” privado, algo que era reservado antigamente aos membros da nobreza. E se o compararmos com os dois referidos populistas, Ventura até leva larga vantagem. Trump não passa de um burro gordo e endinheirado, um pateta palavroso e vazio, duma ignorância, truculência e grosseria inacreditáveis.  Bolsonaro, pior ainda, é um simples capitão do exército com pouco préstimo, que se meteu na política, é igualmente ignorante, deve pouco à inteligência e nem sequer falar sabe, era um exercício penoso e cansativo ouvir aquela criatura, o tal que “não era coveiro”. E ambos atraíram milhões nos seus países, de todas as classes sociais.  Óbvios racistas, tiveram inúmeros votantes nas comunidades negras e latinas.  Ora, Ventura é claramente mais inteligente, mais bonito, melhor comunicador que qualquer um deles e, é ambicioso, religioso e ainda por cima, é do Benfica e percebe de futebol. É o genro que qualquer pai portuga e básico quer. Ele é o abençoado, o eleito, o queridinho da catequese, o mais inteligente de todos, o que não tem papas na língua, o que diz as verdades todas, o ungido do Senhor e, claro, o único que pode levar Portugal para a frente, o D. Sebastião do séc. XXI.

Havia a mania parva de que Portugal era imune ao crescimento da extrema-direita, mas é claro que era só uma questão de tempo. Ventura pode ser bonitinho, mas não é exatamente original. A dolorosa verdade é esta, vivemos um pavoroso tempo histórico em que a extrema-direita ganha força e se consolida, um pouco por todo o lado. Isto é como uma epidemia de peste, alastra depressa. Um velho fascista local anda deliciado, a babar-se todo publicamente por Ventura, porque, claro, jamais imaginou que antes de morrer ia ver isto voltar ao tempo em que servia de cão de fila de Salazar. Eles estão por todo o lado e estão a chegar ao poder ou já lá estão, na vizinha Espanha, na insuspeita e revolucionária França, na bela Holanda, na Hungria, na Eslováquia, na Itália. E porque é que isto acontece? Porque as pessoas votam neles.

E assim chegamos aos eleitores de Ventura. Temo-los visto e ouvido, por todo o lado, dantes constituíam o principal manancial para as piadas de Ricardo Araújo Pereira no seu “Isto é Gozar Com Quem Trabalha”, uma pessoa que, obviamente, Ventura deve odiar. Dantes, eram sobretudo uns patuscos que, se fosse na Terceira, dizíamos que tinham vindo de S. Rafael, abusado das bujecas  ou fumado papoilas secas. Ou eram como aquele miúdo tontinho, que foi todo engravatado para o último congresso do Chega e se atreveu a falar ao microfone, para dizer que pensava como Ventura, mas não sabia o que Ventura pensava porque, obviamente, não andava dentro da cabeça das pessoas. Antes era destes ignorantes ou simples estúpidos que aplaudem freneticamente o líder, mesmo quando não entenderam nada e papagueiam o que dele vão ouvindo. Mas à medida que o partido vai crescendo, outra fauna vai chegando e começam a aparecer alguns predadores com outras posições na cadeia alimentar. São os bem-falantes, os imitadores do líder, os dissidentes de outros partidos, os vira-casacas, os antigos comunistas de Setúbal, do Alentejo, do Algarve, os ambiciosos, os caciques locais, os betinhos sem lugar nas juventudes partidárias e, sobretudo, gente que nunca sonhou chegar a deputado e que vê agora abertas as portas de S. Bento e, quiçá, um dia, um lugarinho no Governo, um chefe de gabinete, um porta-voz, um adido de imprensa, por algum lado se chega à gamela do poder. Permanecem aqueles que sempre partilharam o ideário de Ventura, os cheganos ou melhor dizendo, venturinos legítimos.

É evidente que Ventura é uma criatura abominável. Não pelo esposo, filho, amigo, irmão ou pai que possa ser. Nada sabemos disso nem nos deve interessar. Ventura é um candidato a líder político de um país e tudo o que nos deve interessar é o que ele pensa sobre a vida e as coisas da vida. E, ao contrário do que disse aquele tontinho engravatado que o RAP impiedosamente crucificou, qualquer pessoa minimamente atenta sabe bem o que pensa Ventura pois ele já o revelou muitas vezes. Mesmo que, como qualquer líder inteligente que ainda não chegou ao poleiro grande, ele já tenha revisto e maquilhado o seu discurso, para não assustar os direitas mais tímidos. Mas, se ele um dia chegar ao poleiro grande, vai fugir-lhe a boca para a verdade, foge sempre. Hitler não começou logo por revelar que queria exterminar todos os judeus do mundo. Começou por dizer que os outros políticos eram todos corruptos, que ele era o único são e que as culpas do estado da nação alemã eram de grupos específicos de cidadãos, os “inimigos do Estado” … soa a dejá vu? É natural. Começou assim, o resto veio depois.

Também é evidente que nem todos os cheganos são neofascistas, ultranacionalistas, radicais religiosos, militaristas e outras alpistas, como o seu dono. Cada vez mais veremos gente dita “normal” entre eles, vizinhos, amigos, colegas de trabalho e até familiares, como aconteceu com o Bolsonarismo no Brasil.  Serão, na sua maioria, os seduzidos pela carinha laroca, o verbo fácil de Ventura e o seu pacote de geniais soluções para qualquer problema, prontas a usar (é só juntar água). Mas, infelizmente, é o tempo desta gente. Todos os que não são como eles, devem combatê-los (pacificamente, claro), tentar derrotá-los, mas temos de aceitar que o processo siga o seu caminho, que Ventura, o Chega e os cheganos todos cheguem lá acima, vejam a mesma vista que todos os que estiveram lá já viram antes e depois desçam, ordeiramente ou aos trambolhões e até empurrados, se assim tiver de ser. O Chega passará, como tudo passa nesta vida, mesmo que até o mundo e a própria vida passem.  POPEYE9700@YAHOO.COM

 

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