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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA ORCAS SÃO OS ORCS DO MAR (BB166)

Setembro 29, 2025

Tarcísio Pacheco

20250929_113832.jpg

 

BAGAS DE BELADONA (166)

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA ORCAS SÃO OS ORCS DO MAR – Quando em junho de 2021, largava da marina de Lagos, no comando do meu veleiro de cruzeiro, La Bohème (ex-Alexandra), rumo aos Açores, na última etapa de uma viagem que começara em Port Saint Louis, no sul de França e passara já por Ciutadella, na ilha de Menorca e por La Linea de la Conception, a norte de Gibraltar, sentia-me bastante feliz, na companhia do meu irmão, Tomás, do meu filho, Rodrigo e do meu bom amigo, Marco.  Vinha duma agradável estadia de três dias na aprazível cidade algarvia de Lagos, que incluira um emocionante encontro com o meu querido amigo do tempo da faculdade, Carlos Canas, que não via há mais de 40 anos. Na época, não podia adivinhar que o Carlos, então saudável, iria adoecer gravemente e falecer em janeiro de 2025. Todavia, naquele dia, havia uma nuvem negra no horizonte, mas o que me assombrava a alma não era o receio habitual dos muitos imprevistos que podem ocorrer numa viagem oceânica a bordo de um pequeno veleiro de cruzeiro, com destaque para as tempestades e fúrias do mar. Se deixarmos o medo corroer-nos a alma e tolher-nos os passos, a vida passa-nos ao lado. A vida é um risco constante. No caso das viagens oceânicas, o essencial é estarmos bem preparados, skipper, tripulação e barco e sentirmo-nos confiantes. Era esse o caso e uma preparação cuidadosa da passagem no temível estreito de Gibraltar, com corrente e vento favoráveis permitiu-nos sair para o grande Atlântico em segurança e passar ao largo de Tarifa (que regista ventos de 30 nós mais de 300 dias por ano) com vento Leste, atingindo quase 10 nós de velocidade, apenas com a vela grande içada. Façanha que, passados 4 anos, nos mares dos Açores da Madeira, não consegui repetir. Depois, em oito dias, chegámos em segurança a S. Miguel.

 Voltando aquele dia de junho de 2021, havia um perigo novo para quem anda no mar, imprevisível e assustador. Naquela altura já era bem conhecido o grupo de orcas que se dedicava a atacar pequenos veleiros de recreio, tendo-se registado já alguns afundamentos, com perda total da embarcação e elevados prejuízos materiais, para além do stress e do pânico provocado em tripulações que muitas vezes são constituídas por famílias, tipicamente, um casal e crianças. Esse bando agressivo de animais selvagens desloca-se numa vasta zona marítima que vai desde a Galiza até Gibraltar, abrangendo toda a costa continental portuguesa. Na época, era um pequeno grupo familiar, com meia-dúzia de animais, responsável por ataques esporádicos. Entretanto, passados poucos anos, o grupo cresceu, poderá contar agora com cerca de 30 animais e os ataques têm-se multiplicado, sendo agora muito frequentes, com eventos todas as semanas, bem documentados, inclusive através de vídeo e noticiados nos media. O perfil dos ataques é sempre o mesmo. Os alvos são sempre pequenos e inofensivos veleiros de recreio, sendo os ataques concentrados sobre os habitualmente longos lemes destas embarcações, com cabeçadas, encontrões, dentadas e pancadas de cauda, partindo e rachando superfícies, encaixes e suportes, o que facilmente causa inundações maciças, que levam ao rápido afundamento e perda total. Os ataques têm acontecido geralmente perto da costa, o que tem permitido o socorro de outras embarcações, havendo também casos em que os tripulantes se salvaram porque tiveram tempo de abrir as balsas salva-vidas. Mas será apenas uma questão de tempo até haver vítimas mortais, por afogamento ou hipotermia. Nós, velejadores de recreio, estamos de mãos atadas, não nos podemos defender. Legalmente, não podemos ter nenhum tipo de arma a bordo, mesmo defensiva. Já houve algum tempo para os cientistas entenderem o que se passa e sugerirem soluções. Tem aparecido algumas sugestões, produtos químicos, dispositivos de ultrassons, etc., mas nada de realmente funcional e disponível no mercado. As autoridades também se têm mantido impávidas e serenas, com conselhos básicos que de nada servem. Hipocritamente, a autoridade marítima tem falado de “interações” entre orcas e veleiros. Não há qualquer interação. São puros ataques gratuitos, muito agressivos e perigosos, de animais selvagens a seres humanos. O cinema popularizou a figura do Willy, uma orca muito fofinha e amistosa, que interagia com um miúdo. Também assisti a esse filme e também choraminguei. Mas é apenas uma coisa do mundo Disney. Na verdade, a orca é um cetáceo da família dos golfinhos, talvez o mais inteligente de todos. Embora inofensiva para os seres humanos até agora (os únicos ataques conhecidos aconteceram em cativeiro e lá teriam as suas razões), trata-se de um animal muito agressivo e altamente voraz, que ataca e devora tudo o que vive no mar, desde outros golfinhos até baleias, passando por focas e tubarões. De fofinho, não tem nada. Há vários fóruns na Internet dedicados à discussão deste problema e eu subscrevi o maior deles. Há testemunhos em primeira mão, sugestões inteligentes e opiniões muito válidas. Mas também se veem coisas de bradar aos céus. Desde animalistas fanáticos para quem as orcas são sagradas e cuja posição é que, simplesmente, os veleiros de recreio devem deixar de navegar no mar até aos Rambos embarcados (tipicamente norte-americanos, como não podia deixar de ser), que querem arrebentar as orcas à granada. Claro que se as orcas atacassem e afundassem os preciosos barcos de pesca ou os navios que transportam o precioso petróleo, o problema já estaria resolvido, nem que se extinguisse a espécie. Mas como as vítimas são “apenas” pessoas que andam no mar “apenas” pela paixão de velejar e amor ao mar, o sistema reage com indiferença e sem pressas. O problema é que nós não vamos prescindir do nosso direito de navegar inofensivamente  no mar que é de todos e que cobre 4/5 do planeta. E se ninguém fizer nada, mais tarde ou mais cedo, vamos ter de arranjar nós próprios, maneiras de defendermos as nossas vidas e propriedades. Pode não ser com pólvora, mas decerto que não vai ser com nada agradável para as orcas. Elas vão ter de entender a mensagem, já que são tão inteligentes. Se é a sério, então estamos em guerra e vale tudo. Se é a brincar, então que vão brincar com criaturas do tamanho delas. Ou com “a pombinha prá areia” como cantam os da banda terceirense UZhomes.

Na sua obra monumental, “O Senhor dos Anéis”, Tolkien imaginou os orcs, criaturas horríveis e maléficas, criadas pelo Mal através de magia negra. Este grupo ibérico assassino é mais de orcs do que de orcas. Eu, que sempre adorei golfinhos, que os defendi já publicamente no DI, que jamais fiz mal a um cetáceo, se for atacado pelas ovelhas negras da espécie, irei defender-me com unhas e dentes e tudo o que estiver à mão. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA FICÁMOS A VER NAVIOS (BB108)

Maio 13, 2020

Tarcísio Pacheco

ferry.jpg

imagem em: https://www.clipart.email/clipart/clipart-ferry-boat-cartoon-336991.html

BAGAS DE BELADONA (108)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA FICÁMOS A VER NAVIOS - Não duvido que a decisão do Governo Regional de cancelar a habitual operação de fretamento dos ferryboats que no Verão ligariam as nossas ilhas foi acertada, no contexto atual. Com os entraves colocados ao turismo externo e à nossa própria circulação entre as ilhas, com o magro e triste Verão que se prevê, não se perceberia que fosse de outro modo. Contudo, o mesmo já não posso dizer de outra decisão, divulgada na mesma altura, a de cancelar o último concurso internacional para construção de um navio de passageiros ou misto destinado a servir os Açores. Este projeto foi sempre uma novela mexicana e com muitos críticos internos, desde o início, desde a história rocambolesca e mal contada do ferry Atlântida, combinada com a novela venezuelana dos estaleiros de Viana do Castelo. Agora, parece-me que o Governo aproveitou a oportunidade para se livrar de um projeto controverso e dispendioso, que não lhe estava a calhar nada bem. E assim, com a desculpa do vírus e da crise económica que, inevitavelmente virá depois, não teremos ferry açoriano por muitos anos. Mas como a vida continua e a epidemia há de passar e enquanto não vier a próxima, voltaremos a viver a sério, provavelmente já em 2021, com Verão, sol, mar, turistas, festas, música, touradas e muita vontade de viajar nem que seja só ali ao lado a S. Jorge para comer umas lapas com o sotaque deles. E, sem ferry, mas cheios de vontade, nem tanto de dinheiro, vamos clamar por barcos que nos levem comodamente e aos nossos belos popós. Porque entre um barco e um avião haverá sempre enormes diferenças. Nem que seja porque, se a maioria das pessoas sabe nadar, nunca conheci ninguém capaz de voar, se excetuarmos o Super Homem, que era emigrante ou, melhor dizendo, refugiado.. Assim, para satisfazer o povo, lá terá o Governo de continuar a fretar ferries com elevados custos. Que seriam muito mais elevados, clamam os críticos internos, se tivéssemos o tal ferry açoriano, devido à manutenção e aos custos fixos. Tenho grande dificuldade em entender esses críticos. Que não querem ferries fretados, mas também não querem um ferry açoriano. Que querem eles afinal? Ah, dizem eles, que não podemos pagar, que somos pequeninos, que temos pouca gente, etc, etc. Mas a SATA e os seus desvarios, prejuízos e dívidas parece que já podemos pagar. Não podemos comprar barcos, mas podemos comprar aviões. E se as desculpas passam pela nossa localização geográfica, pelo isolamento, pela dimensão das ilhas, pela reduzida população, pela incerteza do clima, pela fúria do mar, lugares como as ilhas Faroé desmentem isso tudo. Eles têm ferry, todo o ano.

No ano passado estive nas ilhas Faroé. Que têm apenas 50.000 habitantes e problemas semelhantes aos nossos, mas bem piores. As ilhas deles são menos habitáveis, mais montanhosas, mais inóspitas, mais frias e ficam cheias de neve no Inverno. Os estudos dizem-nos que a situação deles tem melhorado nos últimos anos (nos anos 50, havia muita falta de mulheres, por exemplo e por isso mesmo, uma baixa taxa de natalidade). Atualmente, os Faroeses vivem sobretudo de atividades do setor primário, com destaque para a pesca e a pecuária (ovelhas por todo o lado), do comércio e serviços e de… claro, turismo, muito. Evidentemente, as ilhas têm um aeroporto internacional, com voos diários. Têm pequenos ferries entre as diversas ilhas (18, apenas uma desabitada). Mas têm ligações regulares por via marítima com a Dinamarca e a Islândia, com um moderno ferry, o NORRÖNA, construído em 2003 na Alemanha, por 100 milhões de euros. E sim, o governo das Faroé ajudou bastante a empresa nessa altura, era do interesse público, como clama o Governo Regional quando ajuda a SATA todos os dias e desde sempre. O Norröna tem bandeira Faroesa e o porto de registo é Tórshavn, a capital das ilhas; é grande, seguro, bonito, tem 3 restaurantes e naveguei nele no percurso Dinamarca/Faroé, Islândia, ida e volta. O Norröna navega todo o ano, com neve, frio e tempestades, embora, por vezes, a empresa, a Smyril Line, seja forçada a cancelar viagens no Inverno. Adorei o Norröna. E quando chega a um porto, os passageiros aguardam um bom bocado enquanto o navio descarrega rapidamente todo o tipo de carga em contentores que são operados por rápidos camiõezinhos que se atrelam em 3 minutos. Portanto, é possível operar com navios mistos, de carga e passageiros e operar todo o ano. Espanha tem carreiras regulares de ferry entre as Canárias e Cádis, por exemplo. É uma questão de “modelo” de transportes, como agora está na moda dizer-se. E sobre o nosso “modelo” eu teria muito a dizer, se tivesse espaço para isso. É uma porcaria de modelo, que serve sobretudo os interesses de grupos empresariais e da ilha de S. Miguel.

E é assim um pouco por todos os arquipélagos e países com largas extensões de costa deste planeta. As pessoas usam barcos, há milhares de anos e continuam a usar. Há quem pense que somos modernos porque temos aviõezinhos em S. Miguel e aeroportos em todas as ilhas. Mas, na verdade, recuámos 200 anos no tempo. Porque, há 200 anos, havia navios à vela a ligar todas as ilhas, com carga e passageiros. Os aviões jamais poderão competir com os ferries, exceto no que diz respeito à velocidade. Agora, eu gostava de entender porque é que as nossas 9 ilhotas no meio do Atlântico Norte não precisam de ter ferryboat próprio. Ou, se precisam, porque é que andamos há anos a alugá-los a outros. Ou por que cargas de água é que temos de ser condenados a viajar apenas em aviõezinhos e nos da SATA, ainda por cima? É maldição? Imposição da CE?  Sina, má sorte? “Tem de ser”? “Não há alternativa”? Alguém que me explique. Obrigado. popeye9700@yahoo.com

 

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