BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (3)
Setembro 05, 2025
Tarcísio Pacheco

imagem: 1990, Atlântico Norte, a bordo do Antares, com o skipper, Roland Girard
(continuação) Tânger é uma cidade grande, mas não prestámos atenção às zonas novas. Passámos uns 3 dias a deambular pela marginal e pela zona antiga, cheia de lojas, cafés, restaurantes e mesquitas. Como turistas, fomos sempre seguidos por enxames de “guias” que ofereciam um pouco de tudo. Tentávamos também não entrar nas lojas porque não havia muito dinheiro para gastar nem tínhamos onde guardar objetos. Mas, num certo dia, foi impossível escapar à sedução de um jovem marroquino muito simpático que, à entrada da sua loja oferecia copinhos de chá. Quase à força, acabámos por entrar. Era uma loja de tapetes. Fomos logo servidos de vários copinhos de saboroso chá de hortelã-pimenta, a escaldar e fortemente adoçado. Em seguida, inevitavelmente, tentou vender-nos tapetes, começando por peças enormes. Debalde explicámos que estávamos num pequeno veleiro, que não tínhamos onde guardar aquilo. Ele nunca desarmou, limitou-se a ir reduzindo o tamanho dos tapetes. Ao cabo duns extenuantes 45 minutos, lá nos apresentou, o menor tapete da loja, quase um lenço de assoar e uma pechincha imperdível, segundo ele. Eu era a vítima perfeita, sem jeito para estas coisas e depois do incontornável regateio cultural, lá levei o tapetinho para bordo.
Retive mais 2 episódios de Tânger: Logo no segundo dia, fomos seguidos por um tipo execrável, um “guia” que queria oferecer à força tudo e mais alguma coisa, incluindo prostitutas. Tentámos sacudi-lo, mas o tipo era persistente e durante umas 2 horas colou-se-nos aos calcanhares, falando sem parar em todas as línguas que conhecia, incluindo um português arrevesado. Já estávamos a ferver de raiva e a considerar seriamente o homicídio, quando passámos fora de uma loja de eletrodomésticos em que os donos estavam à porta; apercebendo-se da situação, convidaram-nos a entrar e escorraçaram a melga; esta ainda ficou um bocado na rua a barafustar, mas acabou por desistir; simpaticamente, os donos da loja ofereceram-nos o inevitável chá; ficámos a conversar e explicámos que estávamos de passagem num pequeno veleiro… pois não tardou muito para que aquelas 2 almas tentassem vender-nos frigoríficos e máquinas de lavar! Pedimos desculpa e raspámo-nos dali para fora. É o que se chama sair da frigideira para cair no lume. Noutra ocasião, estava eu sozinho com o Charlie e sendo ele fotógrafo profissional, estava sempre de máquina na mão, a registar tudo. Passámos numa rua e no outro lado estava uma espécie de homem santo, a vender exemplares do Corão numa banquinha; juntaram-se por lá uns quantos fiéis e o homem arengava à assembleia de forma expressiva; o Charlie começou a fotografar a cena e eu desaconselhei, achava que se reparassem, não iam gostar; e assim foi, a certa altura, o homem dá por nós, começa aos pulos e aos berros e a apontar na nossa direção; a turba desatou a vociferar contra nós em árabe vernáculo, provavelmente a chamar-nos infiéis e começaram a atravessar a rua; disse ao Charlie para arrumar a máquina, puxei por ele e, literalmente, fugimos dali quase a correr. Nem quis olhar para trás, já estava a ver um filme estilo Indiana Jones, com uma multidão enraivecida a perseguir-nos pelas ruelas estreitas da Casbá de Tânger, a pedir as nossas cabeças infiéis.
Bom, escapámos desta e o resto não tem muita história. Depois de alguns dias, partimos para a costa espanhola, onde fomos parando em diferentes portos. O Charlie saiu logo na primeira escala, em Málaga e fiquei sozinho com o Roland. Escalámos então diversos portos, como Almeria e Cartagena, onde ficávamos 2 ou 3 dias e fazíamos algum turismo. Era a bela vida do cruzeiro mediterrânico. O barco ia para Alicante, onde nos esperava um irmão do Roland. Este ainda me convidou para passar uns dias na sua casa, em Grenoble, nos Alpes, mas eu já estava com saudades de casa e da minha bebé, Bárbara, então com 2 anos. Depois de umas voltas por Alicante, despedimo-nos e apanhei o comboio, para Madrid e depois Lisboa. No comboio fiz amizade com um jovem casal canadiano, de Montreal, que ia para Lisboa. Na nossa capital, ainda os levei a passear e ofereci-lhes uma garrafa de ginginha das Portas de Santo Antão, já que eles tinham adorado a prova. Depois, foi apanhar a TAP e voltar para casa.
O Roland tinha o meu endereço e poucos anos mais tarde, escreveu-me, convidando-me para uma grande aventura marítima, da França à Tailândia, via canal do Suez. Fiquei uns dias a sonhar com aquilo, mas trabalhava e já tinha nascido o meu filho, Rodrigo (1992). Com muita pena minha, tive de declinar o convite. Haveria de fazer outras viagens de veleiro, mais tarde, talvez menos exóticas, mas suficientemente aventurosas. FIM
