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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA AMOR DE PAI TEM PODER BB155

Março 22, 2024

Tarcísio Pacheco

 

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BAGAS DE BELADONA (155)

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA AMOR DE PAI TEM PODER - Na passada semana, ao contrário do que é costume, escrevi sobre política e sobre o Chega e Ventura. Eles não são nada importantes, mesmo que no conflito nuclear que pode estar a avizinhar-se, Ventura, a esposa e a substituta da coelha Acácia (RIP) venham a fazer parte do grupo VIP com direito a mudança para um dos bunkers NBQ (Nuclear, Biológico,Químico) que existem por esse mundo fora, para albergar os donos das nossas vidas, quando fugirem da hecatombe que eles próprios criaram.

Por isso, esta semana, no Dia do Pai, decidi escrever sobre algo completamente diferente, um cruzamento das minhas memórias de infância com eventos recentes.

No passado dia 9 de março, a minha filha mais nova, Júlia, fez treze aninhos. Tenho quatro filhos, amo-os a todos por igual, mas esta é a caçula, sou louco por ela, amo-a perdidamente. Adiante, isto é pessoal, façam de conta que não leram, já explico o resto.

Um dos cenários da minha infância foi a rua dos Canos Verdes; morei lá em duas casas diferentes, nos anos 60, que já não existem, foram substituídas por outros edifícios. E só isto já mexe com a gente, saber que algo que nos foi tão familiar e tão querido já só existe na nossa mente e em meia dúzia de fotografias. Fechando os olhos, vejo com os olhos da alma, mas com todo o detalhe, o interior da minha antiga casa da esquina da rua dos Canos Verdes com a rua da Rosa. Nessa época, fazia parte de uma tribo de miúdos dos Quatro Cantos (espaço territorial que, numa perspetiva alargada, ia do Alto das Covas à rua de Jesus e à Rocha, incluindo o Relvão, o cais da Figueirinha e o próprio Monte Brasil). Como é sabido, nesse tempo, não havendo as parafernálias tecnológicas do presente e nem sequer televisão (pelo menos até 1975 e aos meus 14 anos), brincávamos imenso na rua. Ao envelhecer, é inevitável sermos invadidos de vez em quando pelas saudades da nossa meninice. É um processo dolorosamente sublime. Uma das minhas recordações mais pungentes é a das longas, doces e cálidas noites de Verão, em que as famílias daquela zona se juntavam no miradouro da Rocha (junto ao atual pub “O Pirata”) e ficavam numa amena cavaqueira entre amigos e vizinhos, enquanto as crianças brincavam por ali, algo que se tornou tristemente incomum nos dias de hoje, em que as pessoas ficam em casa, agarradas ao Facebook ou à estupidificação da TV das novelas, Big Brother e concursos.

Dessa tribo dos Quatro Cantos, entre outros, sem ser nada exaustivo, faziam parte o meu irmão, Tomás (a viver em Paris), os irmãos Medeiros (Rui, Alberto, João), meus amigos de infância, o Quim, antigo jogador e treinador de futebol, pessoal da rua de Jesus como o João Luís da Zenite (que não larga a rua de Jesus), o Félix e o irmão António, o Peres carteiro (RIP), o João Paulo e outros, uns já desaparecidos, outros vivos e pela Terceira, outros emigrados ou ausentes em parte incerta.  Circulávamos muito pelo Relvão e adjacências. Nessa época, o Relvão era apenas um monte de relva brava, uns atalhos e um campinho de terra batida (no atual campo de basquete) onde jogávamos à bola. Éramos muito criativos, tínhamos muitas brincadeiras diferentes. Uma delas era arranjar bons caixotes de papelão, desmontá-los e depois usá-los como uma espécie de trenó para descer vertiginosamente a encosta de relva do castelo, em frente à entrada principal do Relvão, sendo detidos apenas por uns arbustos que havia à beira da estrada. Havia trenós individuais e de duas ou mais pessoas.

Ora, há alguns anos, falei disto à Júlia. Ela nunca mais se esqueceu e dali para a frente, chagava-me frequentemente o juízo, para irmos escorregar na encosta. Nunca lhe disse que não, mas tinha sempre uma desculpa: não temos papelão adequado, a relva está muito húmida, tem de estar bem seca, a relva está muito alta, a relva está demasiado curta, dói-me a cabeça, choveu, está a chover ou vai chover. E nunca chegámos a ir escorregar na encosta. Agora, que Júlia já tem treze anos, é uma menina doce, que ainda pede ao papá para lhe ler uma historinha antes de dormir. Mas não voltou a falar dos papelões. Acho que é tarde demais. Frequentemente, adiamos as coisas boas que queremos fazer. E chega sempre um dia em que o tempo certo já passou. Então, é esta mensagem que vos deixo. Não adiem nada que queiram mesmo fazer (desde que seja pacífico e legal, claro). O tempo certo é hoje, é agora. Amanhã pode ser tarde demais.  POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGAS E BAGUINHAS DE SÃO JOÃO (BB147)

Julho 05, 2023

Tarcísio Pacheco

 

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BAGAS DE BELADONA (147)

HELIODORO TARCÍSIO          

 BAGAS E BAGUINHAS DE S. JOÃO

 BAGA SANJOANINAS 2023 – Estas Sanjoaninas 2023 foram de arromba e deixo aqui os meus parabéns à organização. Foram umas festas muito concorridas e com momentos de muito brilho, com imensa gente nas ruas e um programa muito diversificado e equilibrado. Obrigado.

BAGA NOITE DAS MARCHAS – Eu próprio marchante, esperei para ver, mas, continuo a pensar do mesmo modo. Este é um dos pontos mais altos das festas, com uma adesão fantástica, quer da parte dos marchantes, quer da parte do público. Todos os anos, com tendência para agravamento, tem surgido o mesmo problema: um excesso de marchas que coloca problemas práticos e logísticos. Do meu ponto de vista, urge tomar medidas, sempre no sentido de beneficiar a festa. A atitude da CMAH foi a se anunciava e que eu esperava. Resume-se a não fazer nada “para não interferir numa iniciativa popular”, esperando que os problemas se resolvam por si. Esta é uma atitude eminentemente política, mas, na verdade, não fazer nada é também uma atitude e bastante cínica, por sinal. Porque a jogada da CMAH era bastante clara. É praticamente impossível gerir as 42 marchas que se apresentavam à partida. Então, a opção da CMAH foi ficar quieta e calada, esperando que algumas marchas desistissem, sobretudo por o sorteio as ter colocado nas últimas posições, mas também por outros motivos diversos. Foi a decisão da nossa marcha, a da TerDança, colocada na 37.ª posição. Acabámos por desfilar na mesma, com muito gosto, na marcha de S. Bento, que nos recebeu com muita gentileza e simpatia. O sucesso das duas marchas que desfilaram forçosamente no dia seguinte, após as marchas infantis, a de Santa Bárbara e uma de S. Miguel, pode apontar numa direção desejável.

Já elenquei aqui nestas páginas as opções que podem estar em cima da mesa. Mas continuo a pensar, firmemente, que deve haver um regulamento das marchas, que eu próprio classifico como de muito difícil produção, mas que deve ser tão consensual quanto possível. Caso contrário, a tendência será termos todos os anos este regabofe, esta confusão e a CMAH a empurrar o problema para a frente com a barriga. Que coisa!

BAGUINHA MUSICAL – Como melómano (a música é alimento para a alma), a oferta musical das festas tem sempre a minha melhor atenção. Certas noites, optei por ficar pelo palco da marina e aproveitar as excelentes bandas locais que por lá passaram, com grande animação e adesão do público. Deixo aqui um conselho ao vocalista da belíssima banda do Antero Ferreira & Filhos, um rapaz com uma voz fantástica, que já sigo há muito tempo: rapaz, bebe menos whisky antes dos concertos, fala menos (é verdade, és bastante chato, pelo menos tens noção disso) e não é preciso tanto palavrão. Noutras noites, fui até ao Bailão, já que compro sempre a pulseira. Tento sobretudo ver o que não conheço. Foi assim que comecei logo com a Bárbara Bandeira. Não tenho muito a dizer. A produção intensiva de música para telenovelas, a que até Paulo Gonzo sucumbiu, é uma fonte segura de receita. É bom para quem gosta de novelas. É o filão melopop (neologismo meu para música enjoativa e repetitiva). Por suspeitar que o Nuno Qualquer Coisa era mais do mesmo, já lá não fui. A noite das bandas tributo dos Nirvana e Linkin Park foi excelente e muito concorrida. O Nininho Vaz Maia foi uma ótima surpresa, um cantautor muito genuíno e orgulhoso das suas raízes, o que só lhe fica bem. Apresentou-se com ritmos latinos e quentes, a lembrar os sempiternos Gipsy Kings e com uma dupla de apoio vocal extremamente agradável à vista. Porém, as letras são bastante apimbalhadas e ao Nininho falta potência vocal, o que é pena. Fui também ver o Jovem Dionísio, do Brasil. Não sabia bem o que é indie pop e menos ainda bedtime pop. Agora já sei, é música agradável e simpática, para adormecer. Ouvi 5 temas, quase iguais e fui-me embora, para o cais da Alfândega, curtir música do mundo variada, com o Antero Ávila e companhia.

Tenho muitas saudades do tempo em que o cartaz musical das Sanjoaninas era selecionado por uma comissão de gente com bom gosto, como o meu amigo Duarte Dores. Agora, quem escolhe é gente profissional que, gerindo o orçamento de que dispõe, contrata as “tendências do mercado”, sobretudo do mercado jovem, sobretudo da faixa das pitas.

BAGA TOY – Baga quem? O Toy não era aquele cachorro dos livros dos Sete, da Enyd Blyton? Eu gostava desse bichinho…POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA MARCHAS DE S. JOÃO (BB146)

Abril 18, 2023

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (146)

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA MARCHAS DE S. JOÃO – O texto que se segue é importante, mas apenas no contexto da cultura e da vida local, nomeadamente na ilha Terceira.

Vai sendo tempo da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (câmara) se organizar e tomar decisões de fundo no que respeita à organização das marchas de S. João das Sanjoaninas.

As marchas de S. João foram uma novidade do pós-sismo de 80 e tiveram tal aceitação e crescimento nos anos seguintes que, hoje em dia, ninguém imagina as nossas festas sem a noite de S. João e as suas marchas. Tornou-se uma das atrações fundamentais das festas, a par da música, dos cortejos, das tascas ou das touradas. No entanto, no que respeita às marchas, há anos que se vinha registando problemas, devido ao elevado número de marchas inscritas, com tendência crescente, ano após ano. No interregno da pandemia, o problema não se colocou. No ano passado, o regresso das marchas foi algo tímido. Mas, em 2023, as marchas voltaram em força, com um total de 42 marchas inscritas, sendo que 13 delas são “de fora”.

É óbvio que um tão grande número de marchas coloca sérios problemas de organização, especialmente à câmara, “mãe” das nossas maiores festas concelhias. São problemas de difícil solução. Levantam questões complicadas como fazer desfilar 42 marchas num período de tempo minimamente aceitável, para os marchantes e para o público e, por exemplo, como conciliar o término do desfile com a usual festa popular de sardinhada, fogueiras e folia na rua de S. João.

Como há, naturalmente, muita dissonância nas opiniões, que vão desde a mais tolerante e topa tudo (vamos marchar e há de ser o que Deus quiser) até às mais radicais, como não aceitar marchas “de fora” ou remetê-las todas para uma noite de S. João B no dia seguinte, este ano,  instalou-se uma grande balbúrdia, com muita discussão, críticas e queixas. Dizem-me também que até há um regulamento das marchas mas que a câmara não o está a aplicar.

Ora bem, reconheço as dificuldades para resolver os problemas e não tenho nenhuma solução milagrosa, que me dera, mas, não a tenho. Sinto até mesmo dificuldade em emitir uma opinião firme porque há diversas soluções, umas mais inteligentes e criativas do que outras, sendo que algumas me desagradam e até mesmo me repugnam, especialmente as que estão eivadas de radicalismo regionalista, como excluir as  marchas “de fora” ou tratá-las de forma discriminatória.

Aquilo que venho dizer, sobretudo, é que é preciso que a câmara tome decisões a este respeito. Em minha opinião, é necessário criar um Regulamento das Marchas de S. João, definitivo e impositivo. Para que não seja uma coisa à russa ou chinesa, convém que seja minimamente consensual. Como não é possível que todo o concelho o discuta, acho mais correto que a discussão ocorra no âmbito da Assembleia Municipal, onde todas as freguesias do concelho estão representadas. Até porque, depois de haver uma proposta de regulamento, as juntas de freguesia podem auscultar a opinião dos seus fregueses sobre este assunto. Embora possa parecer lógico e desejável que representantes das marchas participem da discussão, não considero isso viável, uma vez que, embora haja marchas que participam regularmente e há muito tempos, outras há que são efémeras e transitórias. Quem vem “de fora” é bem-vindo (na minha ótica) mas quem tem de decidir as regras é a câmara e o povo do concelho.

Duma coisa estou certo, um regulamento cem por cento consensual será impossível. Haverá sempre muita discordância e crítica. Mas, depois de redigido, fechado e aprovado, com o tempo, as pessoas habituar-se-ão às normas instituídas. Aqui temos mesmo de ser rigorosos. Quem não concordar com o regulamento, pois tem a opção de não participar das marchas.

Esse regulamento terá, forçosamente de escolher entre diversas opções, sendo possível até optar por soluções mistas. Segue-se uma lista de opções possíveis, tal como as vejo. Não defendo nenhuma em particular, no momento, limito-me a elencá-las: manter tudo como está, como sempre foi, o percurso de sempre, uma única noite de S. João, a 23 de junho, um único desfile de marchas, independentemente do número de marchas e da hora de término do desfile; fazer dois dias de desfile, um a 23, outro a 24, depois das marchas infantis, que poderiam começar mais cedo; fazer um segundo desfile de marchas noutra noite que não a de 24; mudar o percurso, reduzindo-o, excluindo a rua de S. João e a dos Minhas Terras (o ponto fraco e mais polémico do percurso); iniciar o desfile muito mais cedo, ao final da tarde, em vez de ser ao início da noite; reservar o desfile de 23 para as marchas da ilha; estabelecer um número máximo de  marchas; excluir as marchas de fora da ilha.

Fazer este regulamento não será uma tarefa fácil. Mas é algo que tem mesmo de ocorrer. Para se acabar definitivamente com a confusão e regabofe atuais, com provável reedição todos os anos.POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGAS DE BELADONA (BB145)

Abril 12, 2023

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: Beladona é tóxica, mas muito útil para a farmacologia (coisasdaroca.com)

BAGAS DE BELADONA (145)

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA CANSADA – As pessoas têm-me perguntado porque não tenho escrito. Não há uma resposta simples para isso. Quando não tenho nada de inteligente, interessante, crítico ou humorístico para falar, prefiro ficar calado. Mas, fazendo uma reflexão autocrítica sobre o assunto, no fundo, creio que sei a resposta. Aqui, no nosso cantinho açoriano, sentimo-nos protegidos dos males maiores do mundo. Compreendo isso e até partilho desse sentimento ou não tivesse escolhido permanecer nestas ilhas pela maior parte da minha vida. Mas a verdade é que, olhando à nossa volta, o mundo está tão feio, porco, mau, selvagem, cruel e decadente, que o meu impulso mais forte é para me concentrar naquilo que aprendi que é realmente importante na vida: as pessoas que amamos, acima de tudo e, depois,   as coisas que dão prazer e sentido à nossa vida, no meu caso, o mar, o meu veleiro, a natureza, as viagens, a música, a leitura, o cinema e o desporto, o saudável, não competitivo e que não dá dinheiro, as aulas de Zumba que ministro, os passeios de bicicleta, os trilhos e as caminhadas A verdade é que estou cansado. Mais do que nunca, sinto que é urgente que vivamos o melhor possível o tempo que restar a cada um de nós, sem tomar nada como garantido. Nem sequer a luz e o calor do sol ou um simples amanhã. Nem sequer isso.

BAGA TRÂNSITO EM ANGRA – Há algum tempo, esteve entre nós um senhor, cujo nome não retive, que veio apresentar um estudo sobre algumas cidades europeias com problemas de trânsito e sobre as diferentes soluções adotadas. Inevitavelmente, colocaram-lhe a questão do trânsito automóvel em Angra. O cerne da sua resposta foi que Angra não foi feita para os carros e que as pessoas e os comerciantes em particular, precisam de entender que os carros não compram, as pessoas é que o fazem. Os carros só ocupam espaço, fazem barulho, atropelam e poluem, pelo menos os que ainda têm motores de combustão, que é ainda a maioria. Creio que este senhor deve ter sido ouvido com respeito, mas também ceticismo e alguma displicência. É preciso vir alguém de fora dizer aquilo que, mesmo sem ter mestrado em urbanismo e ambiente, ando a dizer há anos. Percebemos que tem sido feito um esforço em Angra, nomeadamente pela Câmara Municipal, para melhorar, ordenar e disciplinar o trânsito automóvel e o estacionamento na cidade. Creio que todos entendem e louvam isso, menos a oposição, claro, que jamais estará satisfeita. Mas isso é o ADN de que qualquer oposição. Contudo, estamos ainda muito longe da solução ideal, que sei já não ser para o meu tempo. E isso, seria fechar por completo o centro histórico de Angra ao trânsito particular e apostar numa rede de transportes públicos não poluentes, de preferência gratuitos, já que pagamos elevadíssimos impostos ou, no mínimo, muito baratos. Já não estarei aqui para ver, mas, o futuro dar-me-á razão. Se houver, um futuro, evidentemente (remeto para a primeira baga).

BAGA TRANSPORTE MARÍTIMO DE PASSAGEIROS – Este é outro assunto que já referi diversas vezes. Jamais perdoarei ao atual governo regional ter acabado com o transporte marítimo de passageiros entre todas as ilhas dos Açores e obrigar-nos a viajar todos nos aviõezinhos da SATA. Por isso (mas também pela coligação com a extrema-direita, entre outras coisas), jamais terão o meu precioso voto. Como se não fossemos ilhas no meio do mar e como se não tivéssemos gastado milhões nos últimos anos a construir e melhorar os portos das ilhas. Que afinal, não são ilhas, são aeroportos rodeados por água. Mais uma vez, sem ter mestrado em transportes, ou em qualquer outra área, sou apenas mestre do meu veleiro, sugeri por diversas vezes nestas páginas que o governo se informasse sobre as soluções de transporte misto de carga e passageiros que adotaram outros países, regiões e ilhas onde há gente mais inteligente. Isso caiu em saco roto, como é evidente. Mas, há algum tempo, foi publicado algo no DI sobre o assunto, no âmbito de um programa de intenções do governo regional. Pela primeira vez, desde há muito, falou-se em “estudos” sobre o transporte misto de carga e passageiros, que é perfeitamente viável, como é óbvio e tem muitas vantagens.  Tratando-se de “estudos” é provável que o assunto se arraste durante uns quantos anos, de “estudos”. A menos que o governo mude…as notícias muito recentes sobre a aquisição pela Atlânticoline de dois ferries elétricos não mudam em nada o panorama, embora envolvam dois fatores positivos: a aposta em embarcações menos poluentes e mais modernas e a abertura de uma rota entre S. Miguel e Santa Maria, que já deveria existir há muito.

BAGA TRAMPALHICES – O início do processo de acusação de Donald Trump nos EUA decorreu exatamente como se esperava. A criatura declarou-se inocente dos 32 crimes de que é acusada. Trump fez extensas declarações, na comunicação social, na sua rede social própria e perante os seus apoiantes. Uma das que retive foi “nunca pensei que isto acontecesse na América”. Estava a referir-se à criminosa invasão do Capitólio, que ele próprio orquestrou e apoiou? Era bom, era, mas, claro que não. Referia-se às acusações que sobre ele pendem. Como se esperava, a defesa de Trump assenta quase exclusivamente na politização do caso, tentando fazer-se passar por vítima e mártir. Um Martin Luther King da extrema-direita. Inteligentemente, Biden e o partido democrata em geral não caem nessa esparrela e mantêm silêncio sobre o assunto. Deixam o poder judicial cumprir a sua obrigação e fazer o seu trabalho. Veremos o que acontece. Mas tremo só de pensar que esta criatura possa voltar a ganhar as eleições do próximo ano nos EUA. A Humanidade está à beira do abismo (e não é só com a guerra da Ucrânia) e ter um tosco, bronco, ignorante, de extrema-direita à frente dos EUA numa altura destas é arrepiante e pode muito bem ser o passo que nos vai precipitar. Declarações recentes da criatura (“se for eleito, no dia seguinte acabo com a guerra na Ucrânia; dava-me bem com Putin; comigo no poder, jamais teria acontecido a invasão da Ucrânia e acredito que a Rússia vai tomar toda a Ucrânia”), levam-me a crer que a receita da criatura para acabar com a guerra é simplesmente deixar de apoiar a Ucrânia. O que, evidentemente, acabaria com a guerra, mas também com a Ucrânia e entregaria a vitória a Putin e à sua sangrenta ditadura neoimperialista.

Sou bastante pessimista quanto ao futuro próximo. Mas, no mínimo, o mundo precisa de inteligência, ética, coragem e bom-senso. Tudo o que Trump não tem. Trump é só dinheiro, mentiras, incompetência, ignorância, fanfarronice e bazófia.

Se acreditam nalgum deus, então rezem, rezem muito. Ou então, gozem férias, viagem, vão à praia. Aproveitem ao máximo. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA MISTER SIMPATIA 2022 E POR AÍ FORA (BB143)

Janeiro 24, 2023

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: Royalty-Free (RF) Clipart Illustration of a Grumpy Toon Guy Walking With An Umbrella by gnurf #227149 (clipartof.com)

 

BAGAS DE BELADONA (143)

HELIODORO TARCÍSIO          

BAGA MISTER SIMPATIA 2022 E POR AÍ FORA – Não costumo alinhar nas habituais nomeações brejeiras de final de ano para quem se distinguiu nas diversas áreas. Sobretudo porque isso se tornou banal e quantas vezes, politiquento e sem graça alguma. Mas, relativamente a 2022, não consigo resistir e vou abrir uma exceção. A coisa é tão óbvia, tão merecida e tão indiscutível que a distinção podia ser qualquer uma, acerca de Gentileza, Boa Educação, Delicadeza, Sedução, Bonomia ou Fino Trato. Mas como tenho de escolher uma faixa para mandar imprimir, então, aqui vai, para Mister Simpatia 2022… (pausa para o rufo dos tambores), escolho o tesoureiro da repartição de Finanças de Angra, o incrível Sr.Ribeiro, aquele senhor fofinho, gentil e brutalmente simpático, que nos aguarda dentro da sua pequena jaula de cobrador de impostos.

O Sr.Ribeiro é do meu tempo de Liceu e, tanto quanto me lembro, a simpatia dele é um caso genético, já nasceu mais feliz e contente do que o Breyner e o Herman, só não nasceu de dentes arreganhados porque nasceu sem eles, como os frangos. Sempre o conheci assim. Quer dizer, na verdade, já o conheci com dentes,  mas tenho a certeza que há de ter sido um bebé adorável, que deixava a mamã dormir toda a noite. E, com a idade, obviamente, só melhorou, como o vinho do Porto. Assumiu-se e amadureceu em casco de carvalho, por assim dizer. Ficou quietinho e deixou assentar no fundo quaisquer borras alternativas com diferente composição química. Todos temos livre-arbítrio e o Sr.Ribeiro escolheu o Bem, a Bondade a Luz. Louvado seja Alá.

Aproveitando o Alá, só temos de ser agradecidos e bendizer Jeová, Alá, Buda, Brahma, enfim, toda a troupe celestial, assessorada pelos nossos anjos da guarda. Temos sido muito beneficiados. Nós, que já adoramos pagar impostos porque temos consciência que é para o bem de todos e que temos de compensar os crimin…, peço desculpa, os políticos que usam contas offshore e manter guarnecido o saco azul para pagar indemnizações a gestores públicos meio desempregados, não precisamos para nada de simpatia e gentileza na repartição de finanças. Seria como uma camada de chantilly industrial sobre um belo bolo caseiro de chocolate. Fica bem e é agradável à vista, mas não é realmente necessário e pode até ser prejudicial à saúde.

Então, é isso. Que sorte a nossa! Já entramos felizes e contentes na repartição de Finanças, a saltitar de alegria como a Heidi num prado alpino, já com o dinheiro ou o cartão na mão, doidos para pagar, cheios de entusiasmo e a pensar, que se lixe, isto é tão agradável, que até, se quiserem, podem pôr uma aventesma malcriada e mal-encarada a atender-nos, nada vai estragar esta alegria imensa de contribuir para o bem comum. Mas é então, ó bem-aventurança, que percebemos quantas graças a vida pode ter ainda para nos oferecer, como somos por vezes injustos com expetativas injustificadamente pessimistas e percebemos que vamos ser atendidos por um ser angelical, uma inefável criatura, com uma aura de simpatia inexcedível e um halo de luz (luz led, que estamos em tempos de crise). Percebemos que vamos passar momentos inolvidáveis, que vamos conversar sobre tudo e sobre nada enquanto pagamos, desde o futebol até à saúde dos nossos respetivos parentes, que uma hora vai parecer um instantinho, que vamos sair dali com um amigo para vida e já a querer combinar um jogo de marralhinha ou um piquenique no Monte Brasil, quando o tempo aquecer um bocadinho. Como a História pode ser injusta, como a realidade pode estar nos antípodas do cobrador de impostos clássico, de cara feia, montado numa mula velha, com o chicote na mão e acompanhado por alguns soldados armados até aos dentes…

Saímos dali ligeiramente ébrios (deve ser o toque do vinho do Porto) e mais leves (até porque deixámos atrás um bocado de dinheiro, que também tem o seu peso e, como todos sabemos, em nada contribui para a felicidade). Na verdade, vou partilhar isto com os leitores, mal podemos esperar para pagar mais impostos e tornar a interagir (expressão paupérrima para aplicar a circunstâncias tão enriquecedoras, embora não literalmente) com o querido Sr.Ribeiro. Na verdade, basta passar na rua da Sé, junto às Finanças e a nossa disposição melhora logo. Lembrando o título de um antigo filme chinês, dedicado a Mao Tse Tung, “O Ribeiro é como um sol vermelho, que aquece os nossos corações”.

Sr. Ribeiro, Mister Simpatia 2022, a sua faixa ser-lhe-á entregue em breve. E use-a com orgulho, meu excelso e inestimável amigo, pois se alguém a merece, é o senhor. E, sinceramente, se a impressora me fizer um desconto, talvez mande imprimir já a sua faixa de 2023, pois não estou a ver ninguém com qualidade para lhe disputar o trono. O senhor é único. É como um grande asteroide chocar com a Terra. Não é impossível, já aconteceu, mas é altamente improvável. Nota de rodapé: é de esperar mais prémios, a paciência é a primeira coisa que se esgota com a idade e isto está pelas pontas… POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA DOCE / BAGA AMARGA (115)

Janeiro 08, 2021

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.facebook.com/103638837758667/posts/176305360492014/

BAGAS DE BELADONA (115)

BAGA DOCE - Há muito tempo que pensava fazê-lo, um público elogio à belíssima obra do passeio marginal de Angra, que liga o Porto das Pipas às Areias Brancas, unindo o Nascente com o Poente, recuperando a antiga zona de banhos do Fanal e dotando a cidade com um lindíssimo percurso pedonal. Estão assim, portanto, de parabéns o presidente da CMAH, toda a sua equipa e sobretudo quem esteve diretamente ligado ao projeto. Uma palavra de repúdio para as bestas que destruíram as primeiras fontes de iluminação do percurso e vandalizaram alguns dos dragoeiros. Que vontade de os apanhar em flagrante e de lhes aquecer as orelhas...
BAGA AMARGA - Referi aqui no passado o estado calamitoso da via de saída de Angra para Oeste, até ao largo da Silveira. Congratulo-me pela obra de reparação ter, finalmente, avançado, embora tarde e a passo de caracol (ainda decorrem os trabalhos de pintura no pavimento). Porém fiquei extremamente desapontado com a solução final para o estrangulamento na chegada à Silveira. Pensei que seria a oportunidade para disciplinar de vez o trânsito e o estacionamento naquela zona. No entanto, conseguiram que ficasse pior do que dantes. Chega a ser ridículo. O sinal de paragem proibida (que mal se vê, meio coberto por canas) não dissuade ninguém de parar. Ir lá a PSP de vez em quando passar umas multas, não resolve nada. Os condutores deixaram de parar fora do João da Silveira, mas continuam a parar fora do Aki Perto, para ir às comprinhas. Quem circula no sentido Leste-Oeste vê a sua mão interrompida e para continuar, se não vier trânsito em sentido contrário, agora tem de pisar um traço contínuo, algo que é visto como um pecado capital pelo atual Código de Estrada e que deixa, com certeza, aquele nosso bem conhecido polícia chico a espumar pelos bigodes. A minha opinião vale o que vale mas sintetiza-se no seguinte: o separador da estrada deve prolongar-se ainda mais, até ao início da curva, junto à entrada da Twin's Pub, deixando apenas o espaço essencial para a circulação das viaturas; o estacionamento/paragem junto ao Aki Perto e ao João da Silveira deve ser totalmente impossibilitado, à força, claro; o passeio do lado Norte, a seguir ao João da Silveira é um passeio pedonal e não deve servir para estacionamento, devendo ser ali colocados dissuasores de estacionamento, algo tão fácil de fazer; o estacionamento naquela zona deve ser feito apenas num dos três parques de estacionamento daquela área, dois deles grandes e um deles acabado de inaugurar; os serviços de carga e descarga para os estabelecimentos comerciais têm de ser feitos de outra forma, um pouco mais demorada e trabalhosa, é certo, usando carrinhos de mão próprios, a partir do estacionamento à direita no início da circular, podendo-se, eventualmente, criar ali um espaço reservado a cargas e descargas (afinal trata-se de servir apenas dois pequenos cafés e um minimercado). As pessoas estão cada vez mais comodistas e se pudessem nem saíam dos automóveis, a vida seria um imenso drive-through. A verdade é que, assim como a coisa se apresenta, está uma porcaria e a obra feita serviu de pouco.
POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA CHINESA (BB 112)

Julho 15, 2020

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (112)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA CHINESA – Ná, não tem nada a ver com o corona vírus nem com comida chinesa. As longas e quentes noites de Verão são propensas à introspeção. Tem a ver com isso. E com acordar um dia e perceber que já temos memórias a partilhar, desconhecidas de muitos e esquecidas por outros.

Na atualidade, os chineses pululam pelas nossas ilhas e um pouco por todo o lado. Servem-nos comida feita em wok ou abrem aquelas lojinhas armadilhadas, onde é impossível entrar e sair sem levar alguma coisinha. Preenchem-nos necessidades que nem suspeitávamos que tínhamos.

Mas na Terceira da minha infância e adolescência, tínhamos uma única família chinesa, a “nossa” e eu era amigo deles. Eram uma mãe e dois irmãos que passaram a Portugal, fugidos de uma guerra qualquer. Essa parte da história, se algum dia a soube, já a esqueci. E, mais tarde, vieram encalhar nos Açores.  Cada um abriu a sua loja. Um em Angra e outro na Praia. Eram as nossas “Casa Chinesa”. A de Angra ficava ali na rua Direita, já quase no Pátio da Alfândega, um pouco mais acima da antiga pastelaria “Verónica”. As de agora têm nomes diversos, “Super Euro”, “Chinaçor”, “Macau”, etc., mas naquela época, isso não era preciso porque não havia outras.

O pai era o senhor Noé Chu Peng Fung ou Big Huan, como lhe chamava a esposa, a doce e simpática D. Francisca, uma senhora continental, de apelido Nobre. E tinham cinco filhos, quatro rapazes e uma moça, a saber, por ordem de idades: o Jaime, a Gina, o Rui, o Jorge e Zé. Todos eram Nobre Chu, de apelido. Viviam a meio da rua do Rego, junto à antiga sede do PCP. O Rui é da minha idade e fomos amigos próximos durante anos, até a vida nos levar em diferentes direções. O Jorge é da idade do meu irmão, Tomás e davam-se bem também. Estas amizades começaram no Liceu e porque o meu pai era amigo do Sr. Noé e tinham outros amigos em comum, por exemplo, o Sr. Peixoto, dono da antiga “Larissol”, na rua da Sé e o Sr. Aragão, que vendia peixes de aquário num 3.º andar da rua de Santo Espírito. Lembro-me de ir lá ver piranhas, numa época em que nem televisão havia ainda por cá.

As crianças Nobre Chu eram bonitas e exóticas, na Angra dos anos 70. Tinham uma boa mistura genética e eram um belo símbolo da nossa presença no mundo. De porte atlético e com aqueles cabelos escuros, lisos, brilhantes e fortes, próprios de muitos povos orientais, com os olhinhos levemente oblíquos, davam nas vistas no Liceu e despertavam paixões. A Gina era mais velha do que eu, mas lembro-me bem de ter uma quedazinha por ela (nem de longe correspondida) e de um dia em que aguardávamos os nossos pais no colégio de S. Gonçalo, onde todos andávamos e em que ela chorava com medo da trovoada e eu procurava confortá-la.

O Sr. Noé, de Big nada tinha. Fisicamente, era um cliché. Pequenino, amarelinho, era só pele e osso e fumava como uma chaminé. A mãe dele morava sozinha, perto da loja, na rua dos Minhas Terras e era outra figurinha, com a sua indumentária à Mao Tsé-Tung as suas refeições de arroz comido com pauzinhos numa tigelinha e um português quase incompreensível, cheio de “L” em vez de “R”, que nos fazia rir. Nas longas noites dos acampamentos da família, na velha Salga do campismo selvagem, o meu pai adorava contar histórias do Sr. Noé, de quem gostava muito. Lembro-me de uma que era recorrente e que fazia o meu pai rir até às lágrimas.  Uma vez, o Sr. Noé foi a Lisboa, na TAP, tratar de negócios. Acontece que, no regresso, após a aterragem, nas Lajes, chovia copiosamente e não havia maneira de parar. Naquela época, não havia cá autocarros de pista. Os passageiros foram saindo até que o pessoal de bordo reparou que restava um único passageiro e que não parecia fazer tenções de abandonar o aparelho. Era o Sr. Noé. Instado a sair, respondeu algo como: “Está a chovel muito, não qué molhá”. Ofereceram-lhe um guarda-chuva, mas ele disse que não também, que não “quelia molá pé”. Tiveram lugar, então, negociações complicadas, mas a história teve um final feliz, com um comissário de bordo a atravessar a pista com o Sr. Noé ao colo, segurando um guarda-chuva.

Em janeiro de 1981, saí da ilha, para cursar a faculdade e fui perdendo de vista as personagens da minha infância e adolescência. Mas sei o que é feito de todos. O chinês da Praia tinha um único filho, que andava connosco no Liceu e cujo nome nunca vi escrito, mas me soava como Ta Pu. Parece que se formou em Medicina e foi viver para Macau. Quanto aos “nossos” chineses, a maior parte da família mudou-se para o Continente, para a área de Sines. Estão por lá, o Jorge, o Zé e a Gina, que foi enfermeira em Lisboa, até se aposentar. O Sr. Noé e a D. Francisca, infelizmente, já faleceram. O Jaime casou com uma picoense e vive nas Lajes do Pico, há largos anos, onde foi, até se aposentar, funcionário do antigo BCA. O meu amigo de infância, o Rui, curiosamente, foi o único que permaneceu na Terceira. Casou pela Agualva, com uma moça emigrante e é funcionário da Equipraia, na Praia da Vitória, há largos anos.  Continuamos amigos, mas raramente nos vemos. Já está  de cabelo bem grisalho. Se ele, por acaso, vier a ler isto, espero que se lembre do amigo de infância, das histórias que vivemos e partilhámos, do nosso interesse mútuo por motos, caça submarina, bailaricos e “gajas”. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

BAGAS ESTRANGULAMENTO DA SILVEIRA / EUTANÁSIA (BB 99)

Fevereiro 27, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://almayasabdam.com/right-to-die-could-be-an-option-catholic-hospitals/

BAGAS DE BELADONA (99)

HELIODORO TARCÍSIO

Entrei em modo de Carnaval. Se vivesse no Brasil estava numa escola de samba de certezinha absoluta, de tanga e penas de pavão e com um pandeiro na mão. Por cá, demorei, mas acabei por tomar o gosto de tocar num bailinho. Bom, então vou adiantar duas singelas Bagas porque de hoje até quarta de Cinzas é para curtir e dormir. Há de se reservar algo mais estruturado para a Baga centenária.

BAGA ESTRANGULAMENTO DA SILVEIRA – Não sou muito de gastar papel e tinta com questiúnculas locais. Mas como cidadão e utente diário, não posso deixar de lastimar o horroroso estado do troço de estrada entre os portões de S. Pedro e a Silveira. Nisso, acredito que a Terceira esteja à frente, no prémio da pior via urbana dos Açores. O estado daquela via, quiçá a mais usada da ilha, é inacreditável. No fim desse troço, saindo da cidade, está o que também deve ser o pior estrangulamento de trânsito da ilha. Ao pouco espaço de circulação junta-se o estacionamento ilegal, mas constante, devido aos cafés e minimercados da zona. Agora que se está a finalizar um novo parque de estacionamento ali bem perto, espero que as autoridades tenham, para aquele local, um plano de reparação, organização e disciplina de estacionamento e circulação. Na minha humilde opinião, eis o que deveria ser feito: reparação (urgente mas com qualidade, por favor) do pavimento; interdição absoluta de estacionamento na zona do João da Silveira; obrigação de utilizar um dos 3 parques de estacionamento vizinhos; não bastando interditar com sinais de trânsito, já que o povo evacua para eles e a PSP não chega para as encomendas, o que há a fazer é alargar significativamente o minúsculo passeio do lado norte e colocar os imprescindíveis dissuasores de estacionamento, deixando apenas dois canais para circulação do trânsito em ambos os sentidos. O mesmo se aplica ao passeio para peões a partir do João da Silveira, sempre ocupado por estacionamento selvagem. Quando não há parques, ainda se entende. Havendo parques nas proximidades, é forçoso que as pessoas se comportem civilizadamente. A bem ou a mal.

 

BAGA EUTANÁSIA – Escrevi no Diário Insular sobre a eutanásia em 2010, 2017 e em maio e junho de 2018. Argumentei o suficiente. Não pretendo repetir-me. No momento em que a Assembleia da República aprovou a despenalização da morte assistida na generalidade, facto que me satisfaz muito, pretendo apenas reafirmar que a minha escolha pessoal continua a ser a da concordância com a eutanásia. Esta é uma questão cultural, filosófica, científica, ética, religiosa e profundamente humana. Parece-me terrível sermos forçados a uma decisão dessas ou ver alguém que nos é querido ser forçado a tomá-la. O ideal seria que isso não acontecesse a ninguém. O ideal seria não sofrermos. O ideal seria não termos que morrer. Mas isso não é uma escolha nossa, pois não? Todos adquirimos esse conhecimento, sobre a morte, desde muito cedo. E a maioria de nós vive para esquecer esse dia que inevitavelmente chegará. Poder, ao menos escolher quando e como partimos, em determinadas circunstâncias, muito específicas, pareceu-me sempre bastante justo e a questão mais pessoal das nossas vidas.

Parece-me assaz curioso que a religião católica, que acredita que um Deus criou o mundo e a raça humana como bem quis e entendeu, defenda que “não matar é um princípio básico da moral natural”. Se foi Deus quem criou tudo, então criou um tipo de vida em que o morticínio é diário, constante e natural. A moral natural é matar todos os dias, seja lá o que for, animal, vegetal, outros seres humanos, em nome da nossa própria sobrevivência. Estamos neste mundo para nos devorarmos uns aos outros, sendo que os mais fortes ficam para o fim. Além disso, Deus, se foi Ele o responsável, se é que há UM responsável, criou-nos com códigos genéticos que nos forçam a envelhecer, adoecer e morrer. Equipou-nos também com um cérebro de elevado potencial que logo tomou conhecimento da morte e especulou sobre ela. Nestas condições, parece-me inteiramente justo que, usando o nosso famoso livre arbítrio, pelo menos, adquiramos um mínimo de controle sobre o processo.

Quero salientar ainda duas hipocrisias: uma, não temos de debater muito mais porque, claramente, a sociedade anda a debater esta questão há vários anos; outra, os políticos que agora exigiam um referendo (figura jurídica muito do meu agrado) são os mesmos que ainda há bem poucos anos, quando a direita estava no poder amancebada com a extrema direita, achavam que não era preciso. Não há pachorra.

Finalmente, quero afirmar que acredito termos dado um passo importante na evolução da nossa sociedade. E que também acredito que os mais fundamentais valores humanos serão respeitados. Que o processo de requerimento do suicídio assistido decorrerá como deve, bem estruturado, com regras bem definidas, não necessariamente muito moroso (senão as pessoas em sofrimento morrem à espera) mas totalmente blindado contra os abusos, os crimes, a vileza de que tanta gente é capaz e a apropriação pelo sistema capitalista.

Podia ficar o dia inteiro a escrever sobre isto. Mas agora, vou para o Carnaval, aproveitar enquanto estou bem vivo e aos pulos. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA PRAÇA VELHA (BB94)

Janeiro 21, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.youtube.com/watch?v=1DxePXGZR7E

 

BAGAS DE BELADONA (94)

HELIODORO TARCÍSIO

 BAGA PRAÇA VELHA – Adoro janeiro. Gosto de frio, cinzento e humidade. Fico feliz quando me aparecem pontos pretos na roupa branca e desabrocham fungos nas virilhas. E é  tão lindo ver a Praça Velha de novo tão cheia de coisa nenhuma, devolvida aos seus utentes principais, os pombos angrenses e os velhinhos,  que se sentam nos bancos, de joelhos muito encostadinhos, ao estilo naião, a trocar memórias e a aguardar, em jubilosa esperança, a ver se escapam a mais uma gripe enquanto aguardam o regresso do Sol, esse sacaninha esperto, de férias no Brasil. Só não temos carros a passar em frente à Câmara, somos um atraso de vida mas não se pode ter tudo…A Praça Velha deixou de ser uma ilha, é certo mas, ânimo, ó progressistas liberais, ainda é uma península, rodeada de carros por todos os lados menos por um. O monóxido de carbono está garantido, os Chineses não hão de ficar com o desenvolvimento económico todo só para eles. Temos de ser inteligentes, como Trump e o nosso querido John d’América, que enfia as meias brancas nos chinelinhos para ir votar nele.

Passado o Natal, nascido o Menino Jesus, feitas as pazes entre Maria e o bom do José, que já se conformou com os enfeites na cabeça, faltando agora apenas resolver o problema de achar creche para o Neófito em Belém,  estando quase resolvido o famoso caso das claves de sol invertidas na fachada da Câmara (formalmente em segredo de justiça e todos os dias no noticiário da CMTV)  já recomeçaram a aparecer as resmas de turistas que vem cá só de propósito para fotografar, desenhar, pintar e até mesmo só contemplar, as famosas pedras de calçada na Praça Velha, ex-líbris da nossa cidade. Que antes estavam ocultas pelas inqualificáveis barraquinhas de madeira do Álamo, para sempre registado na História como o presidente barraqueiro. Os grandes homens deixam sempre a sua marca indelével, nem que seja nas cuecas. Um legou-nos as Sérginhas, o outro, as barraquinhas. As tais barracas cor de madeira feia, que tapavam a parte melhor da calçada, que desassossegavam a praça a horas pouco decentes, que tiravam as pessoas do recato dos seus lares e do legítimo usufruto dos seus Aipodes e que, em desleal concorrência, lançaram na miséria honestos comerciantes locais dedicados à produção de licores caseiros, queijadinhas variadas e filhoses da Ribeirinha. Foi uma dor de alma, uns emigraram, outros suicidaram-se e outros ainda puseram as mulheres e as filhas a fazer pela vida no Classic Bar, da rua de S. João.

Pela recuperação da centenária pasmaceira na nossa querida Praça Velha, muito temos a agradecer aos vereadores da oposição, essas almas sábias, benfazejas e desinteressadas que nem dormem a pensar na nossa felicidade. Contudo, acautelai-vos! Ganhámos a batalha do Natal essencialmente porque o Natal acabou. Mas a guerra continua. O presidente barraqueiro não vai desistir. É mais forte do que ele. Armar barraca está-lhe codificado no ADN. Um dia destes, quando uns técnicos lá de fora, muito ocupados, tiverem tempo para apanhar a Ryanair e vir a Angra trabalhar, mesmo que tenham de passar primeiro pelas Furnas e Sete Cidades, o famoso palco móvel vai honrar o seu nome e acabar, finalmente, por se mexer, pelo menos para cima e para baixo. Não faltarão pretextos para festança, as quintas de Amigos e Amigas, o Carnaval Sénior, a Feira dos Coscorões ou o Dia das Gajas. A Festa da Morcela ou o Dia do Caldo Verde. Até a Quaresma, esse tempo triste, de dor e luto, pode gerar barraquinhas, a vender terços, estampas piedosas, velas com fitas roxas, hóstias gourmet e copos de vinho benzido. Se as pessoas decentes desta cidade não se precatam, em breve teremos de novo a Praça Velha cheia de gente barulhenta, crianças irritantes nos insufláveis, barraquinhas com artesanato, petiscos e bebidas espirituosas, turistas ligeiramente ébrios, música para todos os gostos e até aulas de Zumba. Um horror. popeye9700@yahoo.com

 

 

 

 

BAGAS DE BELADONA (86) - ANGRA SOUND BAY

Novembro 12, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.viralagenda.com/pt/events/794772/2-audicao-angra-sound-bay-2019

 

BAGAS DE BELADONA (86)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA ANGRA SOUND BAY 2 – Concluída a 2.ª edição do Angra Sound Bay, ficámos a saber que há boa música original com epicentro na ilha Terceira e estão todos de parabéns, entidades organizadoras, participantes e público que este ano, ao contrário de outros, foi à Praça Velha, aproveitando também uma excelente noite de S. Martinho. Este texto comenta as audições do concurso, nomeadamente a 2.ª audição, no Havana, onde estive presente, referindo-se a oito dos dez projetos concorrentes, omitindo-se, com as minhas desculpas,  dois dos projetos que se apresentaram na 1.ª audição, por não ter elementos suficientes para análise.

JOÃO DAS ILHAS – Um músico talentoso e um valor seguro, em boa hora regressado ás origens, com uma belíssima voz e uma produção própria muito interessante e com identidade, mas capaz de alternar entre ritmos bastante diferentes, conforme nos mostrou com o seu tema de sabor “regional”. Terá ainda muito para nos dar, ao longo da sua carreira. Foi um dos quatro finalistas apurados, ganhou o prémio da Melhor Composição (com um tema excelente) e ainda arrecadou o prémio da Melhor Letra, com um texto que não é da sua autoria.

ROBERTO “CARRO DE PRAÇA” – Uma presença alternativa, de pendor humorístico, para enriquecer a noite no Havana, aproveitando o enorme talento  do Patrício Vieira nesta área. O púbico divertiu-se imenso, fartámo-nos de rir. Musicalmente, não era para levar a sério nem creio que fosse essa a intenção. Pessoalmente, penso que o Patrício podia apresentar este número em espetáculos do tipo stand-up comedy ou outro, pelas ilhas fora. Há muita música no Patrício, mas há mais humor ainda.

BRUNO ROSA – O moço do Pico, a minha ilha favorita depois da Terceira, apresentou-se em palco com uma energia simpática e muito picarota, oferecendo-nos temas bonitos, com toadas simples, bastante ligados à nossa condição de ilhéus e a uma certa nostalgia insular e norte-atlântica. Poderia ter brilhado mais, mas havia estrelas maiores na noite...

HENRIQUE BULCÃO TRIO – Acompanhado por excelentes músicos, o Henrique entregou-se a uma apresentação que tinha tanto de canto como de declamação. Com efeito, é impossível não reparar na qualidade dos poemas do Henrique, que saiu ao pai, neste campo. Assim como é de notar a entrega e a emoção dele no palco. Foi um dos bons momentos da noite. Gostei particularmente da música em inglês porque tinha um belíssimo poema e resultou muito bem na voz grave do Henrique.

JOÃO FÉLIX – Sempre achei a produção musical do João Félix de grande qualidade e tive oportunidade de lhe dizer isso pessoalmente, no final de um seu concerto na esplanada da Central, há alguns anos. Quanto aos temas que apresentou neste concurso, inscrevem-se todos dentro da mesma linha melódica, muito dolente e melancólica. A qualidade das composições e da execução é indiscutível e seria muito difícil não o selecionar para a final no contexto em que concorreu. Contudo, de um ponto de vista meramente pessoal, esta sonoridade específica não me seduz. Foi um dos 4 finalistas apurados.

JOEL MOURA & NÉLIA MARTINS – Sempre senti admiração pelo Joel Moura, uma presença habitual no antigo Angra Rock e que ainda anda por aqui. Admiro a sua perseverança e resiliência, ao continuar a produzir música original, a que ele gosta e é capaz de fazer, independentemente de quaisquer críticas ou tentativas de desmotivação. É sempre de louvar. Em relação à Nélia Martins, na ilha todos conhecemos a potência e qualidade da sua belíssima voz. Quanto a esta parceria em particular, teriam beneficiado se tivessem tomado outras opções. Quando o projeto foi anunciado, no imediato pensei que o Joel compunha e tocava e a Nélia cantava, uma vez que as vozes não se podem comparar. Seria isso a fazer mais sentido, uma vez que o Joel é sobretudo compositor e músico e a Nélia é uma cantora. Fiquei surpreendido, pela negativa, ao ver a intervenção vocal da Nélia quase reduzida a uma espécie de back vocal ou sublinhados sonoros. Deste modo, a voz da Nélia não brilhou.

UZHOMS – Em qualquer show coletivo, não duvido que esta banda tenha de se apresentar em último lugar pois é inegável o clima de alegria e boa disposição que inspiram. Garantem sempre um final em festa. À parte disso, são todos músicos com qualidade e apresentam um pop-rock com temas que já vão sendo bem conhecidos como o seu brilhante “John d’América”. As suas composições caraterizam-se por um rock alegre e bem ritmado, em que está sempre presente um humor irresistível que perpassa por todos, mas se centra sobretudo na veia cómica do vocalista. Lembram-me bastante bandas icónicas e raras, como os saudosos Fúria do Açúcar. Quanto à qualidade musical dos temas apresentados, considero-a variável, mas sempre interessante e nunca pobre. Foram um dos quatro finalistas selecionados e levaram o prémio do Melhor Projeto, o que me pareceu aceitável e justo.

SAMFADO – Trio formado por amigos e colegas universitários para este concurso, embora já tocassem ocasionalmente juntos. São eles, a Inês Bettencourt, terceirense, o Eduardo Abreu, madeirense e o Pedro Cotti, brasileiro de S. Paulo. Este último é o compositor e letrista do trio. Já conhecia dois dos temas compostos pelo Pedro e tinham-me ficado de imediato gravados na alma, pela grande qualidade de músicas e letras. A Inês, já conhecida na Terceira (musicais Mamma Mia e Gente em Branco, projeto Safira, etc), é dona de uma voz muito bonita e afinada e tem uma excelente presença de palco, temperada pela simpatia pessoal e pela frescura da juventude, embora não devesse cantar sentada, por vários motivos. Com uma execução musical competente e suficiente, numa versão nitidamente pensada para o contexto de pequenos espaços em que este grupo nasceu, os quatro temas apresentados são todos de grande qualidade, em minha opinião. É incrível pensar que pelo menos um destes temas foi composto em cima do joelho. O grupo pode vir a beneficiar no futuro do enriquecimento musical das composições e da inclusão de um percussionista (samba sem percussão é como um jardim sem flores…). Além disso, se quiserem sair do nível da apresentação intimista, terão, obrigatoriamente, de usar instrumentos com amplificação. O seu som era quase inaudível na Praça Velha, o que foi uma pena e os prejudicou. Foram apurados para a final. popeye9700@yahoo.com

 

 

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Fazer olhinhos

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