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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA DOCE / BAGA AMARGA (115)

Janeiro 08, 2021

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.facebook.com/103638837758667/posts/176305360492014/

BAGAS DE BELADONA (115)

BAGA DOCE - Há muito tempo que pensava fazê-lo, um público elogio à belíssima obra do passeio marginal de Angra, que liga o Porto das Pipas às Areias Brancas, unindo o Nascente com o Poente, recuperando a antiga zona de banhos do Fanal e dotando a cidade com um lindíssimo percurso pedonal. Estão assim, portanto, de parabéns o presidente da CMAH, toda a sua equipa e sobretudo quem esteve diretamente ligado ao projeto. Uma palavra de repúdio para as bestas que destruíram as primeiras fontes de iluminação do percurso e vandalizaram alguns dos dragoeiros. Que vontade de os apanhar em flagrante e de lhes aquecer as orelhas...
BAGA AMARGA - Referi aqui no passado o estado calamitoso da via de saída de Angra para Oeste, até ao largo da Silveira. Congratulo-me pela obra de reparação ter, finalmente, avançado, embora tarde e a passo de caracol (ainda decorrem os trabalhos de pintura no pavimento). Porém fiquei extremamente desapontado com a solução final para o estrangulamento na chegada à Silveira. Pensei que seria a oportunidade para disciplinar de vez o trânsito e o estacionamento naquela zona. No entanto, conseguiram que ficasse pior do que dantes. Chega a ser ridículo. O sinal de paragem proibida (que mal se vê, meio coberto por canas) não dissuade ninguém de parar. Ir lá a PSP de vez em quando passar umas multas, não resolve nada. Os condutores deixaram de parar fora do João da Silveira, mas continuam a parar fora do Aki Perto, para ir às comprinhas. Quem circula no sentido Leste-Oeste vê a sua mão interrompida e para continuar, se não vier trânsito em sentido contrário, agora tem de pisar um traço contínuo, algo que é visto como um pecado capital pelo atual Código de Estrada e que deixa, com certeza, aquele nosso bem conhecido polícia chico a espumar pelos bigodes. A minha opinião vale o que vale mas sintetiza-se no seguinte: o separador da estrada deve prolongar-se ainda mais, até ao início da curva, junto à entrada da Twin's Pub, deixando apenas o espaço essencial para a circulação das viaturas; o estacionamento/paragem junto ao Aki Perto e ao João da Silveira deve ser totalmente impossibilitado, à força, claro; o passeio do lado Norte, a seguir ao João da Silveira é um passeio pedonal e não deve servir para estacionamento, devendo ser ali colocados dissuasores de estacionamento, algo tão fácil de fazer; o estacionamento naquela zona deve ser feito apenas num dos três parques de estacionamento daquela área, dois deles grandes e um deles acabado de inaugurar; os serviços de carga e descarga para os estabelecimentos comerciais têm de ser feitos de outra forma, um pouco mais demorada e trabalhosa, é certo, usando carrinhos de mão próprios, a partir do estacionamento à direita no início da circular, podendo-se, eventualmente, criar ali um espaço reservado a cargas e descargas (afinal trata-se de servir apenas dois pequenos cafés e um minimercado). As pessoas estão cada vez mais comodistas e se pudessem nem saíam dos automóveis, a vida seria um imenso drive-through. A verdade é que, assim como a coisa se apresenta, está uma porcaria e a obra feita serviu de pouco.
POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA CHINESA (BB 112)

Julho 15, 2020

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (112)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA CHINESA – Ná, não tem nada a ver com o corona vírus nem com comida chinesa. As longas e quentes noites de Verão são propensas à introspeção. Tem a ver com isso. E com acordar um dia e perceber que já temos memórias a partilhar, desconhecidas de muitos e esquecidas por outros.

Na atualidade, os chineses pululam pelas nossas ilhas e um pouco por todo o lado. Servem-nos comida feita em wok ou abrem aquelas lojinhas armadilhadas, onde é impossível entrar e sair sem levar alguma coisinha. Preenchem-nos necessidades que nem suspeitávamos que tínhamos.

Mas na Terceira da minha infância e adolescência, tínhamos uma única família chinesa, a “nossa” e eu era amigo deles. Eram uma mãe e dois irmãos que passaram a Portugal, fugidos de uma guerra qualquer. Essa parte da história, se algum dia a soube, já a esqueci. E, mais tarde, vieram encalhar nos Açores.  Cada um abriu a sua loja. Um em Angra e outro na Praia. Eram as nossas “Casa Chinesa”. A de Angra ficava ali na rua Direita, já quase no Pátio da Alfândega, um pouco mais acima da antiga pastelaria “Verónica”. As de agora têm nomes diversos, “Super Euro”, “Chinaçor”, “Macau”, etc., mas naquela época, isso não era preciso porque não havia outras.

O pai era o senhor Noé Chu Peng Fung ou Big Huan, como lhe chamava a esposa, a doce e simpática D. Francisca, uma senhora continental, de apelido Nobre. E tinham cinco filhos, quatro rapazes e uma moça, a saber, por ordem de idades: o Jaime, a Gina, o Rui, o Jorge e Zé. Todos eram Nobre Chu, de apelido. Viviam a meio da rua do Rego, junto à antiga sede do PCP. O Rui é da minha idade e fomos amigos próximos durante anos, até a vida nos levar em diferentes direções. O Jorge é da idade do meu irmão, Tomás e davam-se bem também. Estas amizades começaram no Liceu e porque o meu pai era amigo do Sr. Noé e tinham outros amigos em comum, por exemplo, o Sr. Peixoto, dono da antiga “Larissol”, na rua da Sé e o Sr. Aragão, que vendia peixes de aquário num 3.º andar da rua de Santo Espírito. Lembro-me de ir lá ver piranhas, numa época em que nem televisão havia ainda por cá.

As crianças Nobre Chu eram bonitas e exóticas, na Angra dos anos 70. Tinham uma boa mistura genética e eram um belo símbolo da nossa presença no mundo. De porte atlético e com aqueles cabelos escuros, lisos, brilhantes e fortes, próprios de muitos povos orientais, com os olhinhos levemente oblíquos, davam nas vistas no Liceu e despertavam paixões. A Gina era mais velha do que eu, mas lembro-me bem de ter uma quedazinha por ela (nem de longe correspondida) e de um dia em que aguardávamos os nossos pais no colégio de S. Gonçalo, onde todos andávamos e em que ela chorava com medo da trovoada e eu procurava confortá-la.

O Sr. Noé, de Big nada tinha. Fisicamente, era um cliché. Pequenino, amarelinho, era só pele e osso e fumava como uma chaminé. A mãe dele morava sozinha, perto da loja, na rua dos Minhas Terras e era outra figurinha, com a sua indumentária à Mao Tsé-Tung as suas refeições de arroz comido com pauzinhos numa tigelinha e um português quase incompreensível, cheio de “L” em vez de “R”, que nos fazia rir. Nas longas noites dos acampamentos da família, na velha Salga do campismo selvagem, o meu pai adorava contar histórias do Sr. Noé, de quem gostava muito. Lembro-me de uma que era recorrente e que fazia o meu pai rir até às lágrimas.  Uma vez, o Sr. Noé foi a Lisboa, na TAP, tratar de negócios. Acontece que, no regresso, após a aterragem, nas Lajes, chovia copiosamente e não havia maneira de parar. Naquela época, não havia cá autocarros de pista. Os passageiros foram saindo até que o pessoal de bordo reparou que restava um único passageiro e que não parecia fazer tenções de abandonar o aparelho. Era o Sr. Noé. Instado a sair, respondeu algo como: “Está a chovel muito, não qué molhá”. Ofereceram-lhe um guarda-chuva, mas ele disse que não também, que não “quelia molá pé”. Tiveram lugar, então, negociações complicadas, mas a história teve um final feliz, com um comissário de bordo a atravessar a pista com o Sr. Noé ao colo, segurando um guarda-chuva.

Em janeiro de 1981, saí da ilha, para cursar a faculdade e fui perdendo de vista as personagens da minha infância e adolescência. Mas sei o que é feito de todos. O chinês da Praia tinha um único filho, que andava connosco no Liceu e cujo nome nunca vi escrito, mas me soava como Ta Pu. Parece que se formou em Medicina e foi viver para Macau. Quanto aos “nossos” chineses, a maior parte da família mudou-se para o Continente, para a área de Sines. Estão por lá, o Jorge, o Zé e a Gina, que foi enfermeira em Lisboa, até se aposentar. O Sr. Noé e a D. Francisca, infelizmente, já faleceram. O Jaime casou com uma picoense e vive nas Lajes do Pico, há largos anos, onde foi, até se aposentar, funcionário do antigo BCA. O meu amigo de infância, o Rui, curiosamente, foi o único que permaneceu na Terceira. Casou pela Agualva, com uma moça emigrante e é funcionário da Equipraia, na Praia da Vitória, há largos anos.  Continuamos amigos, mas raramente nos vemos. Já está  de cabelo bem grisalho. Se ele, por acaso, vier a ler isto, espero que se lembre do amigo de infância, das histórias que vivemos e partilhámos, do nosso interesse mútuo por motos, caça submarina, bailaricos e “gajas”. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

BAGAS ESTRANGULAMENTO DA SILVEIRA / EUTANÁSIA (BB 99)

Fevereiro 27, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://almayasabdam.com/right-to-die-could-be-an-option-catholic-hospitals/

BAGAS DE BELADONA (99)

HELIODORO TARCÍSIO

Entrei em modo de Carnaval. Se vivesse no Brasil estava numa escola de samba de certezinha absoluta, de tanga e penas de pavão e com um pandeiro na mão. Por cá, demorei, mas acabei por tomar o gosto de tocar num bailinho. Bom, então vou adiantar duas singelas Bagas porque de hoje até quarta de Cinzas é para curtir e dormir. Há de se reservar algo mais estruturado para a Baga centenária.

BAGA ESTRANGULAMENTO DA SILVEIRA – Não sou muito de gastar papel e tinta com questiúnculas locais. Mas como cidadão e utente diário, não posso deixar de lastimar o horroroso estado do troço de estrada entre os portões de S. Pedro e a Silveira. Nisso, acredito que a Terceira esteja à frente, no prémio da pior via urbana dos Açores. O estado daquela via, quiçá a mais usada da ilha, é inacreditável. No fim desse troço, saindo da cidade, está o que também deve ser o pior estrangulamento de trânsito da ilha. Ao pouco espaço de circulação junta-se o estacionamento ilegal, mas constante, devido aos cafés e minimercados da zona. Agora que se está a finalizar um novo parque de estacionamento ali bem perto, espero que as autoridades tenham, para aquele local, um plano de reparação, organização e disciplina de estacionamento e circulação. Na minha humilde opinião, eis o que deveria ser feito: reparação (urgente mas com qualidade, por favor) do pavimento; interdição absoluta de estacionamento na zona do João da Silveira; obrigação de utilizar um dos 3 parques de estacionamento vizinhos; não bastando interditar com sinais de trânsito, já que o povo evacua para eles e a PSP não chega para as encomendas, o que há a fazer é alargar significativamente o minúsculo passeio do lado norte e colocar os imprescindíveis dissuasores de estacionamento, deixando apenas dois canais para circulação do trânsito em ambos os sentidos. O mesmo se aplica ao passeio para peões a partir do João da Silveira, sempre ocupado por estacionamento selvagem. Quando não há parques, ainda se entende. Havendo parques nas proximidades, é forçoso que as pessoas se comportem civilizadamente. A bem ou a mal.

 

BAGA EUTANÁSIA – Escrevi no Diário Insular sobre a eutanásia em 2010, 2017 e em maio e junho de 2018. Argumentei o suficiente. Não pretendo repetir-me. No momento em que a Assembleia da República aprovou a despenalização da morte assistida na generalidade, facto que me satisfaz muito, pretendo apenas reafirmar que a minha escolha pessoal continua a ser a da concordância com a eutanásia. Esta é uma questão cultural, filosófica, científica, ética, religiosa e profundamente humana. Parece-me terrível sermos forçados a uma decisão dessas ou ver alguém que nos é querido ser forçado a tomá-la. O ideal seria que isso não acontecesse a ninguém. O ideal seria não sofrermos. O ideal seria não termos que morrer. Mas isso não é uma escolha nossa, pois não? Todos adquirimos esse conhecimento, sobre a morte, desde muito cedo. E a maioria de nós vive para esquecer esse dia que inevitavelmente chegará. Poder, ao menos escolher quando e como partimos, em determinadas circunstâncias, muito específicas, pareceu-me sempre bastante justo e a questão mais pessoal das nossas vidas.

Parece-me assaz curioso que a religião católica, que acredita que um Deus criou o mundo e a raça humana como bem quis e entendeu, defenda que “não matar é um princípio básico da moral natural”. Se foi Deus quem criou tudo, então criou um tipo de vida em que o morticínio é diário, constante e natural. A moral natural é matar todos os dias, seja lá o que for, animal, vegetal, outros seres humanos, em nome da nossa própria sobrevivência. Estamos neste mundo para nos devorarmos uns aos outros, sendo que os mais fortes ficam para o fim. Além disso, Deus, se foi Ele o responsável, se é que há UM responsável, criou-nos com códigos genéticos que nos forçam a envelhecer, adoecer e morrer. Equipou-nos também com um cérebro de elevado potencial que logo tomou conhecimento da morte e especulou sobre ela. Nestas condições, parece-me inteiramente justo que, usando o nosso famoso livre arbítrio, pelo menos, adquiramos um mínimo de controle sobre o processo.

Quero salientar ainda duas hipocrisias: uma, não temos de debater muito mais porque, claramente, a sociedade anda a debater esta questão há vários anos; outra, os políticos que agora exigiam um referendo (figura jurídica muito do meu agrado) são os mesmos que ainda há bem poucos anos, quando a direita estava no poder amancebada com a extrema direita, achavam que não era preciso. Não há pachorra.

Finalmente, quero afirmar que acredito termos dado um passo importante na evolução da nossa sociedade. E que também acredito que os mais fundamentais valores humanos serão respeitados. Que o processo de requerimento do suicídio assistido decorrerá como deve, bem estruturado, com regras bem definidas, não necessariamente muito moroso (senão as pessoas em sofrimento morrem à espera) mas totalmente blindado contra os abusos, os crimes, a vileza de que tanta gente é capaz e a apropriação pelo sistema capitalista.

Podia ficar o dia inteiro a escrever sobre isto. Mas agora, vou para o Carnaval, aproveitar enquanto estou bem vivo e aos pulos. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA PRAÇA VELHA (BB94)

Janeiro 21, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.youtube.com/watch?v=1DxePXGZR7E

 

BAGAS DE BELADONA (94)

HELIODORO TARCÍSIO

 BAGA PRAÇA VELHA – Adoro janeiro. Gosto de frio, cinzento e humidade. Fico feliz quando me aparecem pontos pretos na roupa branca e desabrocham fungos nas virilhas. E é  tão lindo ver a Praça Velha de novo tão cheia de coisa nenhuma, devolvida aos seus utentes principais, os pombos angrenses e os velhinhos,  que se sentam nos bancos, de joelhos muito encostadinhos, ao estilo naião, a trocar memórias e a aguardar, em jubilosa esperança, a ver se escapam a mais uma gripe enquanto aguardam o regresso do Sol, esse sacaninha esperto, de férias no Brasil. Só não temos carros a passar em frente à Câmara, somos um atraso de vida mas não se pode ter tudo…A Praça Velha deixou de ser uma ilha, é certo mas, ânimo, ó progressistas liberais, ainda é uma península, rodeada de carros por todos os lados menos por um. O monóxido de carbono está garantido, os Chineses não hão de ficar com o desenvolvimento económico todo só para eles. Temos de ser inteligentes, como Trump e o nosso querido John d’América, que enfia as meias brancas nos chinelinhos para ir votar nele.

Passado o Natal, nascido o Menino Jesus, feitas as pazes entre Maria e o bom do José, que já se conformou com os enfeites na cabeça, faltando agora apenas resolver o problema de achar creche para o Neófito em Belém,  estando quase resolvido o famoso caso das claves de sol invertidas na fachada da Câmara (formalmente em segredo de justiça e todos os dias no noticiário da CMTV)  já recomeçaram a aparecer as resmas de turistas que vem cá só de propósito para fotografar, desenhar, pintar e até mesmo só contemplar, as famosas pedras de calçada na Praça Velha, ex-líbris da nossa cidade. Que antes estavam ocultas pelas inqualificáveis barraquinhas de madeira do Álamo, para sempre registado na História como o presidente barraqueiro. Os grandes homens deixam sempre a sua marca indelével, nem que seja nas cuecas. Um legou-nos as Sérginhas, o outro, as barraquinhas. As tais barracas cor de madeira feia, que tapavam a parte melhor da calçada, que desassossegavam a praça a horas pouco decentes, que tiravam as pessoas do recato dos seus lares e do legítimo usufruto dos seus Aipodes e que, em desleal concorrência, lançaram na miséria honestos comerciantes locais dedicados à produção de licores caseiros, queijadinhas variadas e filhoses da Ribeirinha. Foi uma dor de alma, uns emigraram, outros suicidaram-se e outros ainda puseram as mulheres e as filhas a fazer pela vida no Classic Bar, da rua de S. João.

Pela recuperação da centenária pasmaceira na nossa querida Praça Velha, muito temos a agradecer aos vereadores da oposição, essas almas sábias, benfazejas e desinteressadas que nem dormem a pensar na nossa felicidade. Contudo, acautelai-vos! Ganhámos a batalha do Natal essencialmente porque o Natal acabou. Mas a guerra continua. O presidente barraqueiro não vai desistir. É mais forte do que ele. Armar barraca está-lhe codificado no ADN. Um dia destes, quando uns técnicos lá de fora, muito ocupados, tiverem tempo para apanhar a Ryanair e vir a Angra trabalhar, mesmo que tenham de passar primeiro pelas Furnas e Sete Cidades, o famoso palco móvel vai honrar o seu nome e acabar, finalmente, por se mexer, pelo menos para cima e para baixo. Não faltarão pretextos para festança, as quintas de Amigos e Amigas, o Carnaval Sénior, a Feira dos Coscorões ou o Dia das Gajas. A Festa da Morcela ou o Dia do Caldo Verde. Até a Quaresma, esse tempo triste, de dor e luto, pode gerar barraquinhas, a vender terços, estampas piedosas, velas com fitas roxas, hóstias gourmet e copos de vinho benzido. Se as pessoas decentes desta cidade não se precatam, em breve teremos de novo a Praça Velha cheia de gente barulhenta, crianças irritantes nos insufláveis, barraquinhas com artesanato, petiscos e bebidas espirituosas, turistas ligeiramente ébrios, música para todos os gostos e até aulas de Zumba. Um horror. popeye9700@yahoo.com

 

 

 

 

BAGAS DE BELADONA (86) - ANGRA SOUND BAY

Novembro 12, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.viralagenda.com/pt/events/794772/2-audicao-angra-sound-bay-2019

 

BAGAS DE BELADONA (86)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA ANGRA SOUND BAY 2 – Concluída a 2.ª edição do Angra Sound Bay, ficámos a saber que há boa música original com epicentro na ilha Terceira e estão todos de parabéns, entidades organizadoras, participantes e público que este ano, ao contrário de outros, foi à Praça Velha, aproveitando também uma excelente noite de S. Martinho. Este texto comenta as audições do concurso, nomeadamente a 2.ª audição, no Havana, onde estive presente, referindo-se a oito dos dez projetos concorrentes, omitindo-se, com as minhas desculpas,  dois dos projetos que se apresentaram na 1.ª audição, por não ter elementos suficientes para análise.

JOÃO DAS ILHAS – Um músico talentoso e um valor seguro, em boa hora regressado ás origens, com uma belíssima voz e uma produção própria muito interessante e com identidade, mas capaz de alternar entre ritmos bastante diferentes, conforme nos mostrou com o seu tema de sabor “regional”. Terá ainda muito para nos dar, ao longo da sua carreira. Foi um dos quatro finalistas apurados, ganhou o prémio da Melhor Composição (com um tema excelente) e ainda arrecadou o prémio da Melhor Letra, com um texto que não é da sua autoria.

ROBERTO “CARRO DE PRAÇA” – Uma presença alternativa, de pendor humorístico, para enriquecer a noite no Havana, aproveitando o enorme talento  do Patrício Vieira nesta área. O púbico divertiu-se imenso, fartámo-nos de rir. Musicalmente, não era para levar a sério nem creio que fosse essa a intenção. Pessoalmente, penso que o Patrício podia apresentar este número em espetáculos do tipo stand-up comedy ou outro, pelas ilhas fora. Há muita música no Patrício, mas há mais humor ainda.

BRUNO ROSA – O moço do Pico, a minha ilha favorita depois da Terceira, apresentou-se em palco com uma energia simpática e muito picarota, oferecendo-nos temas bonitos, com toadas simples, bastante ligados à nossa condição de ilhéus e a uma certa nostalgia insular e norte-atlântica. Poderia ter brilhado mais, mas havia estrelas maiores na noite...

HENRIQUE BULCÃO TRIO – Acompanhado por excelentes músicos, o Henrique entregou-se a uma apresentação que tinha tanto de canto como de declamação. Com efeito, é impossível não reparar na qualidade dos poemas do Henrique, que saiu ao pai, neste campo. Assim como é de notar a entrega e a emoção dele no palco. Foi um dos bons momentos da noite. Gostei particularmente da música em inglês porque tinha um belíssimo poema e resultou muito bem na voz grave do Henrique.

JOÃO FÉLIX – Sempre achei a produção musical do João Félix de grande qualidade e tive oportunidade de lhe dizer isso pessoalmente, no final de um seu concerto na esplanada da Central, há alguns anos. Quanto aos temas que apresentou neste concurso, inscrevem-se todos dentro da mesma linha melódica, muito dolente e melancólica. A qualidade das composições e da execução é indiscutível e seria muito difícil não o selecionar para a final no contexto em que concorreu. Contudo, de um ponto de vista meramente pessoal, esta sonoridade específica não me seduz. Foi um dos 4 finalistas apurados.

JOEL MOURA & NÉLIA MARTINS – Sempre senti admiração pelo Joel Moura, uma presença habitual no antigo Angra Rock e que ainda anda por aqui. Admiro a sua perseverança e resiliência, ao continuar a produzir música original, a que ele gosta e é capaz de fazer, independentemente de quaisquer críticas ou tentativas de desmotivação. É sempre de louvar. Em relação à Nélia Martins, na ilha todos conhecemos a potência e qualidade da sua belíssima voz. Quanto a esta parceria em particular, teriam beneficiado se tivessem tomado outras opções. Quando o projeto foi anunciado, no imediato pensei que o Joel compunha e tocava e a Nélia cantava, uma vez que as vozes não se podem comparar. Seria isso a fazer mais sentido, uma vez que o Joel é sobretudo compositor e músico e a Nélia é uma cantora. Fiquei surpreendido, pela negativa, ao ver a intervenção vocal da Nélia quase reduzida a uma espécie de back vocal ou sublinhados sonoros. Deste modo, a voz da Nélia não brilhou.

UZHOMS – Em qualquer show coletivo, não duvido que esta banda tenha de se apresentar em último lugar pois é inegável o clima de alegria e boa disposição que inspiram. Garantem sempre um final em festa. À parte disso, são todos músicos com qualidade e apresentam um pop-rock com temas que já vão sendo bem conhecidos como o seu brilhante “John d’América”. As suas composições caraterizam-se por um rock alegre e bem ritmado, em que está sempre presente um humor irresistível que perpassa por todos, mas se centra sobretudo na veia cómica do vocalista. Lembram-me bastante bandas icónicas e raras, como os saudosos Fúria do Açúcar. Quanto à qualidade musical dos temas apresentados, considero-a variável, mas sempre interessante e nunca pobre. Foram um dos quatro finalistas selecionados e levaram o prémio do Melhor Projeto, o que me pareceu aceitável e justo.

SAMFADO – Trio formado por amigos e colegas universitários para este concurso, embora já tocassem ocasionalmente juntos. São eles, a Inês Bettencourt, terceirense, o Eduardo Abreu, madeirense e o Pedro Cotti, brasileiro de S. Paulo. Este último é o compositor e letrista do trio. Já conhecia dois dos temas compostos pelo Pedro e tinham-me ficado de imediato gravados na alma, pela grande qualidade de músicas e letras. A Inês, já conhecida na Terceira (musicais Mamma Mia e Gente em Branco, projeto Safira, etc), é dona de uma voz muito bonita e afinada e tem uma excelente presença de palco, temperada pela simpatia pessoal e pela frescura da juventude, embora não devesse cantar sentada, por vários motivos. Com uma execução musical competente e suficiente, numa versão nitidamente pensada para o contexto de pequenos espaços em que este grupo nasceu, os quatro temas apresentados são todos de grande qualidade, em minha opinião. É incrível pensar que pelo menos um destes temas foi composto em cima do joelho. O grupo pode vir a beneficiar no futuro do enriquecimento musical das composições e da inclusão de um percussionista (samba sem percussão é como um jardim sem flores…). Além disso, se quiserem sair do nível da apresentação intimista, terão, obrigatoriamente, de usar instrumentos com amplificação. O seu som era quase inaudível na Praça Velha, o que foi uma pena e os prejudicou. Foram apurados para a final. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA ANGRA SOUND BAY (84)

Outubro 29, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://angradoheroismo.pt/event/concurso-angra-sound-bay-2019-1a-audicao/

 

BAGAS DE BELADONA (84)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA ANGRA SOUND BAY – Por razões pessoais, mas também por ser um amante de música em geral, este ano, pela primeira vez, participei mais de perto, como espectador, no Angra Sound Bay, o concurso sucessor do velhinho Angra Rock. Por isso, estava no Havana, no Porto das Pipas, no passado dia 25 de outubro. No momento em que escrevo, ainda se ignora o desfecho do concurso. Não irei, por isso e de momento, tecer quaisquer considerações sobre os projetos concorrentes.

O Angra Sound Bay 2019, na sequência do ano anterior, anunciou inovações importantes, nomeadamente a realização de uma 1.ª audição no Continente (FNAC/Alfragide) em que se apresentaram três projetos, um deles com uma vocalista terceirense. No dia 25 realizou-se a 2.ª audição, com os restantes sete projetos.

Fui acompanhando o Angra Rock ao longo dos anos e cheguei a escrever sobre o concurso, numa fase de nítido declínio, quando se realizava no palco do Bailhão e estava às moscas. Na época, impressionava-me bastante que uma ilha que se orgulha de gostar de folia, que delira com qualquer pimba que venha por aí abaixo e que se amontoa para ver o Ivo Silva e “bailarinas”, encarasse com tanto desinteresse e desprezo, música original dos seus conterrâneos. Percebi que folia, música e boa música são coisas bem diferentes e por vezes até antagónicas. Também não ajudava muito que “música original” na Terceira significasse sobretudo rock, especificamente metal e gótico. Compreende-se que o próprio nome e ideia original fossem condicionantes.  Na verdade, as coisas não mudaram assim tanto porque mentalidades mudam devagar, é preciso esperar que as gerações sejam educadas, processo lento e complexo. Assisti às duas últimas finais, na Praça Velha e estava sempre bem fraquinho de público, talvez também por ser já depois do Verão e ao ar livre. Contudo, no Havana, no dia 25, tivemos uma noite de música ao vivo diferente e muito agradável, bem composta ao nível do público embora seja forçoso reconhecer que o espaço é pequeno e que só os músicos, acompanhantes, familiares e amigos, enchiam o recinto; mais tarde foi chegando a fauna habitual do Havana ao fim de semana e depois ainda, o rebanho de caloiros da UA, para os rituais da praxe.

Hoje vim ao terreiro sobretudo para congratular-me pela sobrevivência do concurso, para felicitar, nesse sentido, a AJITER (Associação Juvenil da Ilha Terceira) e a CMAH, entidades responsáveis pelo evento, pela capacidade e vontade de o manterem vivo e por procurarem melhoria e inovação num concurso que, sinceramente, há muito tempo precisava de estrutura e produção. Saúdo o Havana e a FNAC, pela disponibilidade e parceria. E para dizer publicamente que gostei muito daquela noite, independentemente da minha avaliação sobre cada projeto.

Nesta fase, tenho apenas uma crítica a fazer. Considerar o voto do público parece-me uma ideia justa e correta. Já não posso dizer o mesmo da forma como se recolhe este voto, que é distribuir papelinhos pelo público presente nas audições, com um código irrepetível e um link para uma página de votação. Percebe-se qual é a ideia. É, de alguma forma, fazer refletir a presença, o entusiamo e a preferência do público no desfecho final do concurso e levar mais gente às audições. Contudo, a estratégia dos papelinhos parece-me medíocre, falível, enganadora, prestando-se a manhas e manipulações. Desconheço a identidade e os critérios do júri, mas acredito que a seleção dos três projetos finalistas tenha por base critérios de qualidade, no que realmente é relevante: tema original, composição musical, letra (poema), execução, nível e desempenho de cada músico ou intérprete. Ouvi dizer que, recentemente, o Ivo Silva encheu a Praça Velha. Se ele tivesse concorrido ao Angra Sound Bay (afinal a “música” dele é…original), com a sua pseudo-música, talvez tivesse levado os seus admiradores e a freguesia do Raminho em peso à audição. Talvez tivesse recebido muitos papelinhos e muitos votos do público. Isso teria alguma coisa a ver com a qualidade musical do projeto? Quanto mais gente eu levar comigo a uma audição “melhor” é a minha música? Popularidade significa forçosamente qualidade? Se é para manter o voto do público (questão sempre discutível), devem reformular o processo. Pessoalmente, penso que é de manter o voto do público mas talvez não a 50%.

Em minha opinião, embora este concurso interesse mais aos Terceirenses, qualquer pessoa em Portugal deve poder votar independentemente de ir às audições ou não. A composição do júri deve ser claramente divulgada. E a organização deve publicar os vídeos na Internet, em página própria e delimitar um prazo para as pessoas poderem votar, de forma irrepetível, claro, usando os recursos tecnológicos disponíveis.

Quando esta crónica for publicada, a decisão do júri poderá ser já conhecida. Tenho as minhas preferências pessoais, obviamente, mas desejo boa sorte a todos e que ganhem aqueles que o mereçam, já que é um concurso. Já ficámos todos a ganhar, este ano, por termos tido dez projetos de música original a concorrer. Que venha mais música, sempre.  popeye9700@yahoo.com

 

 

ANGRA DO HEROÍSMO - CIDADE NASCIDA DO MAR

Janeiro 28, 2009

Tarcísio Pacheco

 

 

 

 

 

IMAGEM: http://angra-do-heroismo.portais.ws/

 

Raul Brandão, um famoso escritor português que as visitou por volta de 1927, chamou-lhes Ilhas Encantadas e sobre elas escreveu um livro com o mesmo título. São as ilhas dos Açores, território português no meio do Atlântico Norte, na actualidade promovido a extremo ocidental da União Europeia. Brandão delas se encantou e com efeito há certas dias em que o azul profundo do mar atlântico e o verde húmido que a natureza pincelou por toda a parte se juntam à paz e ao silêncio de uma calma tarde de Verão para criar uma curiosa sensação de intemporalidade e deslocamento que têm tanto de mágico como de comovente…

Há lendas e relatos antigos que referem incursões e visitas de outros povos, piratas berberes, aventureiros vikings e até exploradores fenícios e cartagineses… Mas a verdade é que a História concede o crédito da descoberta oficial destas ilhas a um navegador português, Diogo de Silves, do qual pouco se sabe mas que se integrava na emergente epopeia da expansão portuguesa do séc. XV; assim, no decurso de uma viagem exploratória para o desconhecido mar de Oeste, este piloto luso terá avistado a ilha de Santa Maria, a mais oriental. Seguiram-se depois as restantes oito ilhas, S. Miguel, Terceira, S. Jorge, Graciosa, Pico, Faial, Flores e Corvo, ao longo de todo o século XV. Depois da descoberta e sob a orientação e patrocínio do famoso príncipe Infante D. Henrique, seguiu-se um longo e árduo período de desbravamento e colonização; as ilhas eram de terreno fértil e águas abundantes mas de natureza agreste, com uma densa mata atlântica que ia quase até à borda de água e com o solo coberto de rochas basálticas.

A ilha Terceira rapidamente ganhou projecção entre as ilhas açorianas, devido à sua localização geográfica central no arquipélago, à sua dimensão média, ao seu relevo particular e sobretudo pelo facto de possuir um excelente porto natural, abrigado dos ventos predominantes de Oeste pela massa impressionante do Monte Brasil. Por isso, já no final do séc. XV, havia uma florescente povoação na costa sul da ilha, designada por Angra, erguendo-se à beira-mar, sobre rochas, leitos de ribeiras e antigos pântanos insalubres. Estrategicamente situada no centro do Atlântico Norte e no centro do arquipélago, a cidade de Angra foi crescendo, acompanhando os ritmos da Expansão Portuguesa pelo mundo. Em 1534, D. João III elevou-a à categoria de cidade, a primeira dos Açores. É também nesse ano que o Papa Paulo III a faz sede da nova diocese. Torna-se então o principal porto de escala no Atlântico Norte, fundamental face ás necessidades técnicas da navegação da época, com navios veleiros que, por razões de clima e meteorologia, relacionadas com os ventos e correntes predominantes, tinham obrigatoriamente, de fazer a chamada “volta do largo” quando rumavam à Europa; encontravam-se então na zona dos Açores, onde paravam para descanso das tripulações, tratamento e recuperação de doentes e aprovisionamento de água e víveres. É por isso que data de bem cedo o primeiro hospital de Angra, que ficava onde hoje se situa o quartel da Brigada Fiscal da GNR, muito perto da baía e comunicando com a Igreja da Misericórdia por uma passagem aérea em madeira.

A cidade de Angra foi-se desenvolvendo em íntima relação com o comércio marítimo e com as preciosidades transportadas nos porões dos navios, nomeadamente metais nobres  e especiarias da “Rota das Índias”. A sua localização estratégica e a sua riqueza chamavam  a atenção das grandes potências marítimas, Inglaterra, França, Espanha e Holanda, cujos navios demandavam o porto de Angra com frequência. As necessidades de defesa da cidade e da costa acessível levam à construção, no século XVI, das grandes fortalezas citadinas de S. João Baptista e de S. Sebastião, para além de uma cintura de pequenos fortes costeiros, por toda a ilha Terceira. Para reabastecer de mantimentos as naus da carreira das Índias. D. João III criou a instituição da Provedoria das Armadas, de que foi primeiro titular o fidalgo Pero Anes do Canto e que primeiro se instalou no bairro marítimo do Corpo Santo, no alto da falésia, dominando a baía.

Angra seria então, entre os séculos XVI e XVIII,  uma rica e  buliçosa  cidade marítima, com a sua larga baía frequentemente repleta dos grandes navios de outrora, de naus e galeões, ancorados juntos ás encostas do Monte Brasil, para se protegerem dos ventos alísios de Oeste e uma florescente actividade de reparações navais, em estaleiros nascidos à sombra da  falésia, na zona da actual Prainha e antigo Jardim dos Corte-Reais. As mudanças bruscas no tempo, tão características do clima açoriano eram, tal como agora, muito temidas pelos marinheiros, especialmente quando surgia o chamado “vento carpinteiro”, dos quadrantes sul a leste, que, face ás reduzidas capacidades de manobra dos veleiros de então, deixava como último recurso o corte da amarra, para poder ganhar o largo tão rapidamente quanto possível; quando isso não era possível ou tudo se desencadeava muito depressa, estes ventos provocavam inúmeros naufrágios, fazendo “garrar” o ferro pelos fundos e precipitando os navios contra as rochas da baía. É por isso que a baía de Angra e as suas imediações constituem um extenso cemitério marítimo, com muitos naufrágios referenciados, identificados ou localizados. Actualmente, encontra-se organizado um parque arqueológico subaquático, em que se pode visitar vários naufrágios de diferentes épocas e o chamado “cemitério das âncoras” ao longo dos socalcos submersos do Monte Brasil, onde, entre as cotas de 22 e 32 metros de profundidade, se podem encontrar cerca de 30 âncoras de diversas proveniências e tipologias, datadas dos sécs. XVI a XX. Um dos naufrágios visitáveis mais conhecido é o do navio de propulsão mista (vela e vapor), “Lidador”, de 78,67 metros de comprimento, construído em 1873 em Londres; este navio naufragou na baía de Angra em 1878, quando se preparava para iniciar uma viagem com emigrantes açorianos para o Brasil.

Os primeiros trabalhos de arqueologia subaquática na baía de Angra ocorreram com a expedição do britânico Sidney Wignal em 1972 e resultaram na recuperação de algumas âncoras e alguns canhões de ferro e bronze. A etapa seguinte seria apenas na década de 90, quando o Museu de Angra do Heroísmo assumiu todo o protagonismo nesta área e foi responsável por uma série de prospecções, em colaboração com instituições portuguesas e com os americanos do Institute of Nautical Archaeology. A peça mais emblemática então recuperada é um canhão de bronze, francês, da época de Francisco I, que se encontra permanentemente exposto neste museu. Na actualidade, prossegue o levantamento do património arqueológico subaquático dos Açores, a cargo da Direcção Regional da Cultura.

A partir do séc. XVIII, devido às vicissitudes da História, a cidade de Angra do Heroísmo, foi perdendo importância política, administrativa e económica, a favor da cidade de Ponta Delgada,  cada vez mais a maior e mais importante cidade do arquipélago.

O golpe final aconteceu num passado recente, quando o Porto das Pipas perdeu o seu movimento comercial, através da deslocalização para o novo porto da Praia da Vitória. A cidade encontrou-se  então numa encruzilhada da História, com uma baía que fora fulcro e testemunho de um passado riquíssimo mas que agora estava vazia de vida e animação.

Foi preciso então passar por um período de reflexão e debate, para encontrar novos caminhos. Após essa fase, algumas importantes decisões foram tomadas. Toda a orla marítima da cidade foi intervencionada, com reabilitação e consolidação das falésias, com a construção de uma marina, de um hotel de cinco estrelas e a reconversão do Porto das Pipas num espaço de recreio, lazer e serviços ligados à área náutica, assumindo-se também como escala de um pequeno tráfego de transporte marítimo de passageiros inter-ilhas.

Acompanhando esta corrente  de renovação, um novo clube náutico surgiu entretanto, com sede no Porto das Pipas,  o Angra Iate Clube, que veio enriquecer e diversificar a oferta de actividades náuticas na baía da cidade. Um grupo de  onze pessoas, cujo vínculo comum era o amor pelo mar, fundou esta instituição em 27 de Outubro de 1995. O clube dedicou-se

à promoção dos desportos náuticos, tendo aberto escolas de vela ligeira e canoagem e uma escola de formação de navegadores de recreio. Correspondendo ao aumento de veleiros de cruzeiro na marina de Angra, o clube iniciou também um campeonato de vela de cruzeiro, com um extenso programa de regatas, na ilha Terceira e entre as diversas ilhas do Grupo Central. Continua vivo e activo, agora com uma nova direcção e instalado em nova sede no Porto das Pipas.

No momento actual, parece que a cidade de Angra do Heroísmo renasceu e encontrou a sua vocação no mundo de hoje. Cidade que nasceu do mar, de vocação marítima por excelência, cenário de naufrágios e batalhas navais, presa de piratas e corsários, cobiçada pelas grandes do mundo, cofre de tesouros, pisada por Vasco da Gama e seus pares, Angra do Heroísmo define-se agora como uma cidade museu, monumental, provedora de serviços, montra da História, palco da cultura e que, através da sua marina, se abre aos herdeiros das caravelas, os novos marinheiros, que percorrem os mares apenas por paixão e prazer. 

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