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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGAS JOSÉ COUTO E BAMBIS DO MONTE BRASIL (BB127)

Novembro 19, 2021

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: (125) Pinterest

 

BAGAS DE BELADONA (127)

HELIODORO TARCÍSIO          

BAGA prof. JOSÉ COUTO – Uma breve nota nestas páginas para lembrar alguém que nos deixou recentemente e que marcou várias gerações nesta ilha, sobretudo para aqueles que se interessam pelo desporto. O elogio da sua vida e história já foi suficientemente feito nas páginas do DI. Aqui fica apenas um pouco das minhas memórias sobre o José Couto, com toda a simplicidade, uma vez que não tínhamos relações de amizade próxima. Mas sempre nos cumprimentámos na rua, pela vida fora. Como acontece, decerto, com a generalidade das pessoas que com ele privaram de alguma forma, guardo a imagem de um verdadeiro senhor, um gentleman, um gigante com um timbre de voz grave inesquecível, com modos afáveis, simpáticos e uma postura social de elevada educação. Como criança que gostava de futebol, lembro bem o seu talento como jogador do Lusitânia, um defesa central de grande categoria, com uma postura extremamente elegante em campo, dificilmente ultrapassável, um atleta que, provavelmente, poderia ter feito carreira em equipas nacionais de escalões superiores, de resto, como outros daquelas gerações de ouro do Lusitânia das décadas de 60 e 70.  Foi ainda meu professor de Educação Física no antigo Liceu de Angra. Muito mais tarde, voltaríamos a cruzar-nos, no antigo “Ciclo de S. Bento” onde, todas as semanas, um grupo de professores, funcionários e outros amigos, se juntava para animadas jogatanas de futebol. Entre muitos outros, por lá andavam o prof. Raúl Tânger, o Manuel João (excelente ex-atacante do Angrense), o prof. Manuel Fernando e o filho, o conhecido João Medeiros, meu amigo de infância e ex-jogador do Boavista. E o José Couto juntava-se-nos com frequência e, já maduro, ainda passeava por lá o perfume do seu futebol. Até sempre, prof. José Couto.

BAGA OS BAMBIS DO MONTE BRASIL – As manifestações hormonais podem ser terríveis. Trump, por exemplo, ficava muito vermelho, abusava da Coca-Cola Light e punha-se a apalpar as mulheres todas à volta. Putin faz tiro ao satélite, com mísseis. Vemo-las por todo o lado, nas sociedades humanas, na origem de muitas manobras perigosas nas estradas (não há nada mais perigoso atrás de um volante que um Manel com uma cerveja no bucho e um complexo de pénis extra large), no assédio sexual no trabalho, nas discussões acervejadas sobre o futebol, nas brigas dos casais e dos políticos e até mesmo na escolha da cor das gravatas; um macho luso com uma descarga hormonal não tem medo de ninguém e só quer saber quanto são. Veja-se o caso do André Ventura, um vulgar comentador de futebolismo que agora, em plena época de cio político, inflamado por imperiosas secreções interiores, cheio de ardores patrióticos e abençoado pelo seu confessor privado, já fala em derrubar governos; tudo porque um macho rival, mais velho, lhe deu umas marradas.

Aqueles animais do Monte Brasil começaram por ser uns Bambis fofinhos, mas depois tornaram-se nuns monstros chifrudos obcecados pelo domínio territorial, o confronto com outros machos e o coito com o maior número possível de fêmeas. Enfim, nada que eu não tenha visto com frequência nas noites da Twin’s Pub, nos velhos bons tempos.

Quanto aos Bambis, pelos menos os machos, quando se lhes desvanece a inocência da infância e lhes crescem as hastes e os testículos, chegando aquela época do ano, só pensam em sexo. Qualquer inocente transeunte no Monte Brasil é visto como concorrente e a coisa só se pode resolver à marrada, já que é grave ofensa cobiçar as fêmeas alheias.  Diz o Ventura que a culpa é do governo anterior. Claro que é, é uma lei de Murphy, mas, neste caso, podemos estar a ser injustos.  A culpa disto tudo é das fêmeas que, também elas de gônadas inflamadas, desfilam pelo parque florestal, com o pompom do rabinho bem levantado, a espalhar odores irresistíveis e a olhar com aqueles grandes olhos de corça, negros, límpidos e fatais. Depois, como é que querem que um jovem corço resista, ele que não é ferro, é de couro? A Bíblia é muito clara quanto ao papel da fêmea no processo da tentação.

Várias soluções foram propostas. Folgo em saber que os animais estão em segurança, embora e naturalmente, muito carentes e desassossegados e que o Monte Brasil vai reabrir. Quem deve ter ficado triste é o meu amigo Armando Mendes. Ele queria muito provar pernil de corço. Já aqui há uns bons anos, ele queria comer lombos de golfinho com o amigo Adolfo Lima e não lhe fizeram a vontade. Já é azar, ainda não é desta que ele se satisfaz. Nem ele nem os corços, paciência. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA TURISMO NÁUTICO (BB 125)

Outubro 14, 2021

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (125)

HELIODORO TARCÍSIO   

BAGA TURISMO NÁUTICO – A Agenda Mobilizadora para o Setor do Turismo da Região Autónoma dos Açores do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) prevê um investimento global de 75 milhões de euros, a concretizar entre 2023 e 2025. Folgo em saber que o Turismo Náutico está contemplado, ele é referido em dois pequenos parágrafos do artigo no DI sobre esta questão. Prevêem-se melhorias das infraestruturas para o iatismo, aquisição de equipamentos para colocar iates em doca seca, criação de estruturas de reparação de embarcações e modernização de equipamentos, tendo o projeto como entidade gestora a Câmara do Comércio da Horta.

Como velejador oceânico, proprietário de veleiros de cruzeiro desde 1998 nos Açores, esta é uma área que me interessa sobremaneira. Por isso, esta notícia alegra-me, mas, à cautela, vou esperar bem sentadinho. É que uma análise amadora desta área e também a perspetiva do utente, mostram-nos que o turismo náutico nos Açores está num estado calamitoso. Não por falta de procura, todos os anos demandam as nossas águas centenas de iates de recreio de todas as nacionalidades. O caso é que os poderes instituídos parecem esquecer-se que as embarcações de recreio precisam de marinas. Se analisarmos o que têm sido feito nos Açores a este respeito nos últimos anos, até parece que há muita obra. Há, é verdade, mas, na maioria dos casos, é insuficiente ou mal feita.

Com exceção das marinas da Horta (já ampliada) e de Ponta Delgada (como seria de esperar…), as marinas dos Açores estão subdimensionadas ou foram mal feitas.

A pequena marina da ilha das Flores está inoperacional e aguarda reparação desde 2019. Vamos deixar esta de parte, afinal a culpa é do furacão Lorenzo. Para esta, até há uma boa desculpa. No Pico, a chamada ilha do futuro, uma ilha maravilhosa, que recebe cada vez mais visitantes e é enorme, com 3 vilas, simplesmente não tem marina; possui um pequeno Núcleo de Pescas (formalmente), minúsculo e com uma entrada apertada e perigosa; a multiplicação de embarcações do whalewatching e a aquisição de algumas embarcações por locais, rapidamente reduziu a praticamente zero o espaço disponível para visitantes. Em S. Jorge, existe a marina de Velas. Mal feita e subdimensionada, também ficou rapidamente quase sem espaço para visitantes. Vai valendo o espaço da ancoragem, que a baía é ampla e a competente e sempre amável prestação do funcionário, o simpático Zé Maria, que vai fazendo milagres. Na Graciosa, a ilha sempre esquecida, também não há marina, propriamente; existe também um minúsculo Núcleo de Pescas, de reduzida capacidade, na Praia; junto a Santa Cruz, no norte da ilha, finalmente, iniciou-se o há muito prometido projeto do porto de recreio da Barra; mas está longe de estar finalizado, não existe marina, apenas um molhe de proteção e uma área abrigada, falta quase tudo. Santa Maria é um caso à parte e um caso curioso porque, tratando-se de uma ilha pequena, que sempre viveu à sombra de S. Miguel, que teve momentos altos na sua história, à custa do seu excelente aeroporto, tendo perdido muitos habitantes nos últimos anos, recuperou argumentos e foi-se posicionando como uma ilha linda, enganadora, com excelentes condições para a pesca e o turismo náutico; talvez por isso, acabou por ser beneficiada com uma marina bastante ampla e funcional e uma boa estrutura portuária, em Vila do Porto.

Deixei para o fim, propositadamente, as marinas da Terceira, por ser a ilha onde habito. A marina da Praia da Vitória é de administração municipal; o seu design não é nada brilhante, podia ter ficado bem melhor; com pouca capacidade, já fica também a rebentar pelas costuras no Verão e levaram imenso tempo para substituir um pontão estragado, que muita falta fazia; no Verão 2021 esteve completamente entupida.  A marina de Angra é gerida pela Portos Açores, herdeira da antiga JAP. As pessoas devem lembrar-se da guerra que foi, nos anos 90, para se conseguir construir esta marina; o sistema democrático exigia que se ouvisse um pequeno grupo de pessoas que se opunham e a baía é património histórico; ultrapassados os problemas, inaugurou-se a marina no início da década de 2000; logo se percebeu que era mal desenhada e subdimensionada. E agora, 20 anos depois, há imensos problemas de espaço na marina e já mal chega para os locais (que têm, obviamente, todo o direito de querer comprar barcos ou de mudar para barcos maiores), quanto mais para os iates estrangeiros…. Foi ver este ano, um ano atípico, devido ao fim das restrições de viagem, a enorme quantidade de veleiros de recreio, até setembro, inclusive, que ancoraram na nossa baía, por falta de espaço para atracar na marina. A marina de Angra até recebeu novos pontões e fingers, com mais capacidade, mas jazem há muito meses no Porto Pipas à espera de alguma coisa. Ouviu-se falar também de um plano para alterar a configuração da marina, criando assim mais algum espaço, mas a ideia, se realmente existiu, parece ter morrido à nascença.

E foi assim um pouco por todo o grupo Central. Numa viagem às Velas, em agosto, havia tantos iates estrangeiros ancorados que nem ancorar consegui, fiquei amarrado (mal) ao cais, das 3 da manhã até ao nascer do sol. Numa viagem às Lajes do Pico, em setembro, fiquei amarrado ao cais do Caneiro e já fiquei muito feliz por ter encontrado o cais disponível (não teria sido o caso em julho ou agosto).

Resumindo, há tanto a fazer e tanto dinheiro a gastar nesta área que com o pano de fundo habitual das guerrilhas partidárias, dos confrontos entre ilhas e do centralismo do governo centrado em S. Miguel, sinceramente, não espero grande coisa. Para mais, o atual GRA já fez saber que não precisamos de barcos porque temos aviões. Vamos ficar à escuta, no canal 16, claro. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA DEIXEM-SE DE TRETAS (BB124)

Outubro 07, 2021

Tarcísio Pacheco

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imagem em: Cena Dos Desenhos Animados Com Balsa Feliz Ilustração Para Crianças — Fotografias de Stock © illustrator_hft #175248126 (depositphotos.com)

 

  • BAGAS DE BELADONA (124)
    HELIODORO TARCÍSIO
    BAGA DEIXEM-SE DE TRETAS - Há uma velha anedota sobre um tipo
    que quer ir para a Marinha e, quando vai à primeira entrevista, perguntam-
    lhe se sabe nadar…e ele responde “Hã?! Então, vocês não têm lá
    barcos??”.
    As posições do Governo Regional dos Açores (GRA) sobre o transporte
    marítimo de passageiros nas nossas ilhas fazem-me lembrar essa piada. É
    bem capaz que, aí para fora, alguém comente com um dos nossos
    governantes, (traduzindo livremente de estrangeiro): “Ah, então, o senhor é
    governante nos Açores, sim senhor, lá no meio do mar, ouço dizer que é
    muito bonito, então os senhores têm lá muitos barcos, não é verdade, já se
    sabe, são ilhas...”; ao que o nosso governante deverá responder algo como
    “Nem por isso, não precisamos, temos alguns aviõezinhos…”.
    O que é mais interessante é que até há algum consenso entre o executivo
    regional anterior e o atual, nesta matéria. O governo PS também não sabia
    o que havia de fazer com os navios de passageiros. Uma manobra
    descarada, mas comum a todos os políticos é, quando não querem fazer
    algo ou não sabem o que fazer, encomendam estudos e nomeiam comissões
    para estudar o problema. Entretanto, o tempo vai passando e olhando
    distraidamente até parece que algo está a ser feito. Mas não está, nunca
    está. Depois, ainda me criticam por, em geral, não apreciar políticos.
    No momento, o atual governo promete decisões sobre esta questão para
    daqui a dois anos. Entretanto e comme d’habitude, vamos andando com a
    SATA ao colo e o GRA vai encomendar estudos a profissionais de estudos,
  • que nós conhecemos na gíria popular como “empatas” improdutivos. No
    passado recente, o governo PS também andou aos tombos com os navios.
    Devia ser gente que enjoava com o balanço. Foi a bizarra história do ferry
    “Atlântida”, que ia ser o “nosso ferry” e que depois encalhou porque lhe
    faltava 1 nó na velocidade de cruzeiro - versão oficial - (creio que navega
    agora pela Noruega, onde não são tão esquisitos…). Depois foi a onerosa
    solução de fretar dois ferries estrangeiros todos os Verões. Uma solução
    que, diga-se a verdade, foi sempre assumida como de recurso e temporária.
    E, entretanto, ia-se brincando ao jogo da encomenda de anteprojetos e
    concursos, com vista à construção de um ferry açoriano. Nisto e noutras
    coisas se entretiveram os socialistas até a oposição vender a alma ao Diabo
    e agarrar o poder com unhas cobiçosas e dentes sôfregos. Chega de estar na
    oposição, pensaram eles em surdina.
    E agora, entrou uma gente cuja grande diferença dos socialistas é na cor
    das gravatas e que tem este discurso paranoico sobre os navios: os Açores
    não precisam de barcos porque têm aviões e uma nova tarifa porreira e as
    ligações marítimas de passageiros entre todas as ilhas eram um circo de
    Verão. Em caso de dúvida, sacam da calculadora e pregam um sermão
    sobre taxas de ocupação.
    Entretanto, as famosas rampas ro-ro, que custam os olhos da cara, que tanto
    nos fartámos de reivindicar e que em Angra (como sempre, tarde, a más
    horas ou nunca) só deveremos ter em 2022, na melhor das hipóteses,
    quedam-se como excelentes pontos de apoio à pesca lúdica, entre setembro
    e maio.
    Também dizem, o GRA e os seus cúmplices neste crime, que ter um ferry
    açoriano permanente implica custos incomportáveis. E comparam o
    incomparável custo por cabeça, uma vez que não há qualquer semelhança
    entre os dois tipos de transporte, marítimo e aéreo. Isto é o cúmulo da
    hipocrisia. Então, e ter uma companhia aérea regional, de bandeira, sai de
    graça? É verdade que, por agora, estamos a pagar uma tarifa interilhas
    especial e reduzida, mas quanto é que pagamos todos os meses, cada um de
    nós (os que trabalham), para sustentar uma companhia aérea que não dá
    lucro, que cria prejuízo todos os dias e que acumula um passivo, esse sim,
  • verdadeiramente incomportável, que é gerido sempre da mesma forma,
    com injeções de capital da banca (que não faz caridade)? Então, não sejam
    hipócritas, trata-se, acima de tudo, de decisões políticas, com valor relativo.
    Não façam de conta que não há alternativas. Poupem-nos aos mantras
    vazios e imbecis. Já parece o discurso de outro, do Coelho de má memória,
    “vivemos acima das nossas possibilidades” etc, etc, repetido até à náusea.
    Há alternativas e até já as apontei nestas páginas. Devemos aprender com
    os que são mais espertos do que nós, com humildade. Com a Islândia,
    poderíamos ter aprendido como é que se lida com banqueiros corruptos e
    criminosos. Infelizmente, nunca o fizemos. E com as Faroé, podemos
    aprender como é que se transporta carga marítima, de todos os tipos e
    passageiros, ao mesmo tempo, por qualquer mar ou oceano, usando rampas
    ro-ro, em qualquer época do ano, cancelando viagens, naturalmente,
    quando as condições meteorológicas são demasiado adversas.
    Eu cá não sei de nada, não tenho acessos a fontes privilegiadas. Mas
    acredito que por detrás destas decisões, aparentemente néscias e pacóvias,
    esteja mais do mesmo de sempre: promover e salvar a SATA, a qualquer
    custo e agora também, atender as queixas das empresas de rent-a-car,
    algumas delas pertencentes a grupos poderosos, que praticam preços
    escandalosos e que muitas vezes, no pino do Verão, nem sequer têm oferta
    suficiente.
    O mote do GRA parece ser agora “vocês hão de andar é de SATA, queiram
    ou não; se não querem, vão a nado ou comprem um barco”. Agora é que
    podemos dizer com propriedade “pegou-lhe a SATA” porque não há mais
    nada para lhe pegar…ainda bem que tenho o meu próprio navio. Mas só
    consigo levar as bicicletas. POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA E LÁ FICAMOS A VER NAVIOS (BB 122)

Agosto 12, 2021

Tarcísio Pacheco

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imagem em: Ficar a ver navios: qual a origem desta expressão? (rtp.pt)

 

 

HELIODORO TARCÍSIO

BAGAS DE BELADONA (122)

BAGA E LÁ FICAMOS A VER NAVIOS -Em plena época estival, sinto pouca paciência para escrever. Agora, é tempo de sol (e nuvens), mar e navegar no meu barco. E é precisamente o tema "navios" que me traz momentaneamente ao terreiro ensolarado. Como açoriano, amante do mar e marinheiro amador, quero manifestar publicamente o meu mais vivo repúdio pelas recentes decisões do Governo Regional (GRA), que, ao que tudo indica, se prepara para acabar com o transporte marítimo de passageiros entre todas as ilhas do arquipélago. É que já era só no Verão. E agora, nem sequer isso?
Há pouco tempo, um nadador-salvador, no Negrito, veio comunicar-me que "tinha ordens" para não me deixar nadar numa poça funda em frente ao forte, onde gosto de me enfiar, um pouco afastado da multidão de banhistas; é pela sua segurança, "tem pedras", pode magoar-se, disse-me ele... "Tem pedras?", não me diga, nunca tinha reparado, respondi eu, que estranho...Mortas que parecem estar as ideologias, com exceção dos nacionalismos serôdios, tudo agora parece funcionar em estritasubmissão a duas dinâmicas: o controle absoluto da vida dos cidadãos, sob o pretexto da "segurança" - é tudo meio proibido - e a questão dos "custos", a estrela guia do capitalismo dominante. O governo anterior aproveitou a boleia do Covid para empurrar para debaixo do tapete um tema incómodo. O GRA faz agora depender o futuro do transporte marítimo de passageiros nos Açores dos resultados da nova tarifa interilhas da SATA. Já agora, porque é que não oferecem voos grátis e resolvem de vez "o problema"?
Esta decisão do GRA faz-nos retroceder séculos porque, no passado, antes dos aviões, era possível tomar um navio para qualquer ilha do arquipélago em qualquer época do ano. Por amor de quaisquer deuses obscuros que possam existir por aí, somos um arquipélago de 9 ilhas no meio do Atlântico Norte, num planeta aquático, constituído por 4/5 de água!!! Como é que é possível impor à força o avião como único meio de transporte regular de passageiros? Tudo o que é país ilhéu, com ilhas ou costa marítima por esse mundo fora, terceiro mundo incluído, usa o ferry como transporte regular de passageiros, em muitos casos em mares tão maus ou piores do que o nosso. Temos de ser nós a desonrosa exceção? O único a marchar com o passo certo?
Por muito evoluído que seja o avião, jamais poderá substituir o navio no nosso planeta. E se querem ser modernos, reparem na situação atual. Os aviões gigantes estão a ser condenados e a deixar de voar, por vários e razoáveis motivos. E a dinâmica em vigor na Europa agora, por motivos conhecidos e urgentes, é diminuir o exagerado tráfego aéreo e substituí-lo parcialmente pelo comboio, esse maravilhoso, ecológico e seguro meio de transporte. Obviamente, nos Açores, o nosso comboio tem de ser navio.
Só não vê quem não quer, a ligação por ferry entre todas as ilhas dos Açores, mesmo só no Verão, com a possibilidade de levar carro próprio, veio trazer uma alegria e um movimento aos nossos portos, como eu já não via desde os meus tempos de criança. Uma viagem de barco é uma experiência completamente diferente duma viagem aérea, para muito melhor. Com bom tempo, dirão alguns. Certo, mas uma viagem de avião com mau tempo também é um pavor, pelo menos para mim.
Defendo o transporte regular de passageiros por via marítima entre todas as ilhas dos Açores durante todo o ano e não penso que seja uma ideia estapafúrdia haver também ligações à Madeira e a Lisboa, como no passado. A solução poderia passar por navios mistos, como dantes. Há algum tempo, dei conta, noutra baga, da minha experiência nas ilhas Faroé e na Islândia, que visitei em 2019. Estas ilhas são servidas por todos os meios de transporte convencionais, avião, navio de carga e ferry. O excelente ferry "Norröna" (com bandeira faroesa) liga o porto de Hirtshals, no norte da Dinamarca, às Faroé e à Islândia, durante todo ao ano. Oferece ótimas condições a bordo, acomoda mais de 1000 passageiros e centenas de viaturas. Mas o Norröna é também um navio de carga, que transporta todo o tipo de materiais e produtos numa espécie de contentores rebocáveis, operados nos portos por veículos específicos, que usam as rampas ro-ro. Poderia ser um exemplo a seguir. Quanto aos "custos"? Os políticos e a banca que resolvam, é para isso que vão para lá. Estou disposto a fazer a minha parte, isto é, continuar a pagar elevados impostos.
Gosto muito daquela música dos Azeitonas, "anda comigo ver os aviões, levantar voo...". Adoro ver aviões a levantar voo, é sinal de que não vou lá dentro...POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA FICÁMOS A VER NAVIOS (BB108)

Maio 13, 2020

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.clipart.email/clipart/clipart-ferry-boat-cartoon-336991.html

BAGAS DE BELADONA (108)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA FICÁMOS A VER NAVIOS - Não duvido que a decisão do Governo Regional de cancelar a habitual operação de fretamento dos ferryboats que no Verão ligariam as nossas ilhas foi acertada, no contexto atual. Com os entraves colocados ao turismo externo e à nossa própria circulação entre as ilhas, com o magro e triste Verão que se prevê, não se perceberia que fosse de outro modo. Contudo, o mesmo já não posso dizer de outra decisão, divulgada na mesma altura, a de cancelar o último concurso internacional para construção de um navio de passageiros ou misto destinado a servir os Açores. Este projeto foi sempre uma novela mexicana e com muitos críticos internos, desde o início, desde a história rocambolesca e mal contada do ferry Atlântida, combinada com a novela venezuelana dos estaleiros de Viana do Castelo. Agora, parece-me que o Governo aproveitou a oportunidade para se livrar de um projeto controverso e dispendioso, que não lhe estava a calhar nada bem. E assim, com a desculpa do vírus e da crise económica que, inevitavelmente virá depois, não teremos ferry açoriano por muitos anos. Mas como a vida continua e a epidemia há de passar e enquanto não vier a próxima, voltaremos a viver a sério, provavelmente já em 2021, com Verão, sol, mar, turistas, festas, música, touradas e muita vontade de viajar nem que seja só ali ao lado a S. Jorge para comer umas lapas com o sotaque deles. E, sem ferry, mas cheios de vontade, nem tanto de dinheiro, vamos clamar por barcos que nos levem comodamente e aos nossos belos popós. Porque entre um barco e um avião haverá sempre enormes diferenças. Nem que seja porque, se a maioria das pessoas sabe nadar, nunca conheci ninguém capaz de voar, se excetuarmos o Super Homem, que era emigrante ou, melhor dizendo, refugiado.. Assim, para satisfazer o povo, lá terá o Governo de continuar a fretar ferries com elevados custos. Que seriam muito mais elevados, clamam os críticos internos, se tivéssemos o tal ferry açoriano, devido à manutenção e aos custos fixos. Tenho grande dificuldade em entender esses críticos. Que não querem ferries fretados, mas também não querem um ferry açoriano. Que querem eles afinal? Ah, dizem eles, que não podemos pagar, que somos pequeninos, que temos pouca gente, etc, etc. Mas a SATA e os seus desvarios, prejuízos e dívidas parece que já podemos pagar. Não podemos comprar barcos, mas podemos comprar aviões. E se as desculpas passam pela nossa localização geográfica, pelo isolamento, pela dimensão das ilhas, pela reduzida população, pela incerteza do clima, pela fúria do mar, lugares como as ilhas Faroé desmentem isso tudo. Eles têm ferry, todo o ano.

No ano passado estive nas ilhas Faroé. Que têm apenas 50.000 habitantes e problemas semelhantes aos nossos, mas bem piores. As ilhas deles são menos habitáveis, mais montanhosas, mais inóspitas, mais frias e ficam cheias de neve no Inverno. Os estudos dizem-nos que a situação deles tem melhorado nos últimos anos (nos anos 50, havia muita falta de mulheres, por exemplo e por isso mesmo, uma baixa taxa de natalidade). Atualmente, os Faroeses vivem sobretudo de atividades do setor primário, com destaque para a pesca e a pecuária (ovelhas por todo o lado), do comércio e serviços e de… claro, turismo, muito. Evidentemente, as ilhas têm um aeroporto internacional, com voos diários. Têm pequenos ferries entre as diversas ilhas (18, apenas uma desabitada). Mas têm ligações regulares por via marítima com a Dinamarca e a Islândia, com um moderno ferry, o NORRÖNA, construído em 2003 na Alemanha, por 100 milhões de euros. E sim, o governo das Faroé ajudou bastante a empresa nessa altura, era do interesse público, como clama o Governo Regional quando ajuda a SATA todos os dias e desde sempre. O Norröna tem bandeira Faroesa e o porto de registo é Tórshavn, a capital das ilhas; é grande, seguro, bonito, tem 3 restaurantes e naveguei nele no percurso Dinamarca/Faroé, Islândia, ida e volta. O Norröna navega todo o ano, com neve, frio e tempestades, embora, por vezes, a empresa, a Smyril Line, seja forçada a cancelar viagens no Inverno. Adorei o Norröna. E quando chega a um porto, os passageiros aguardam um bom bocado enquanto o navio descarrega rapidamente todo o tipo de carga em contentores que são operados por rápidos camiõezinhos que se atrelam em 3 minutos. Portanto, é possível operar com navios mistos, de carga e passageiros e operar todo o ano. Espanha tem carreiras regulares de ferry entre as Canárias e Cádis, por exemplo. É uma questão de “modelo” de transportes, como agora está na moda dizer-se. E sobre o nosso “modelo” eu teria muito a dizer, se tivesse espaço para isso. É uma porcaria de modelo, que serve sobretudo os interesses de grupos empresariais e da ilha de S. Miguel.

E é assim um pouco por todos os arquipélagos e países com largas extensões de costa deste planeta. As pessoas usam barcos, há milhares de anos e continuam a usar. Há quem pense que somos modernos porque temos aviõezinhos em S. Miguel e aeroportos em todas as ilhas. Mas, na verdade, recuámos 200 anos no tempo. Porque, há 200 anos, havia navios à vela a ligar todas as ilhas, com carga e passageiros. Os aviões jamais poderão competir com os ferries, exceto no que diz respeito à velocidade. Agora, eu gostava de entender porque é que as nossas 9 ilhotas no meio do Atlântico Norte não precisam de ter ferryboat próprio. Ou, se precisam, porque é que andamos há anos a alugá-los a outros. Ou por que cargas de água é que temos de ser condenados a viajar apenas em aviõezinhos e nos da SATA, ainda por cima? É maldição? Imposição da CE?  Sina, má sorte? “Tem de ser”? “Não há alternativa”? Alguém que me explique. Obrigado. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA PORTA-AVIÕES AO FUNDO (BB87)

Novembro 19, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://discoverportugal2day.com/ilha-terceira/

BAGAS DE BELADONA (87)

HELIODORO TARCÍSIO

 BAGA RETIFICATIVA – Meti uns mililitros de água na minha Baga anterior, sobre o Angra Sound Bay. Portanto, aqui fica uma retificação da informação incorreta, com um público pedido de desculpas aos afetados. O João Pedro Leonardo adotou o nome artístico de João da Ilha (e não das Ilhas) e ganhou o prémio de Melhor Original, com letra e música da sua autoria. O prémio de Melhor Letra foi entregue a Miguel Nicolau, um desconhecido para mim, a quem deixo felicitações.

BAGA PORTA AVIÕES AO FUNDO – Nestas páginas, já me assumi várias vezes como uma pessoa que ideologicamente se inscreve na área da esquerda democrática, mas que, há muitos anos, decidiu deixar de votar em partidos políticos, única opção possível, não contando com a mascarada dos “independentes” que, ainda assim, são apresentados ao eleitorado numa lista partidária. Haverá outras formas possíveis de viver em democracia, implicando um serviço público sem interesses materiais. Tenho consciência de que isto é utópico porque a esmagadora maioria das pessoas se move por interesses próprios, senão materiais, diretos ou indiretos, então por paixão pela autoridade, pelo reconhecimento social e pela fútil vaidade, entre outros fatores. São traços fortes na raça humana.
Nos Açores, só os néscios ou os muito ignorantes podem não perceber, negar ou ignorar a medonha concentração de poder, estruturas e meios de todos os tipos em S. Miguel e a clara subalternização da Terceira e, por tabela, de todas as outras ilhas. Não me movem interesses partidários, não sou inimigo de ninguém do atual governo e gosto das ilhas todas, incluindo S. Miguel, uma ilha belíssima, cheia de gente fixe, onde passo férias com frequência. Porém, em minha opinião, todos os terceirenses, exceto os que são cúmplices e coniventes com a situação atual, têm razões para se absterem maciçamente em eleições regionais. Apenas a conivência com a situação, a ignorância, o desinteresse e a apatia, podem justificar outra opção. E seria uma tontice, neste contexto, votar em qualquer outra força política pois acredito que todos os partidos, especialmente os do “arco do poder” agiriam de forma semelhante. Todos se regem pela lógica fria dos números e por critérios de base económica. É a morte do Humanismo face ao paradigma capitalista: tudo se reduz à acumulação de riqueza e à competição para conseguir… acumular mais riqueza.

Há vários assuntos de extrema importância para os terceirenses que documentam estas afirmações. À cabeça, com claras responsabilidades também para o governo da República, a tenebrosa questão da contaminação ambiental da ilha pelas Forças Armadas dos EUA, situação que está muito longe de ser resolvida. Depois, vem a questão da certificação civil do aeroporto das Lajes, propositadamente gerida de forma medíocre e incapaz, que se define quase como uma vigarice, um fingimento, um faz de conta, para enganar as poucas pessoas que se preocupam com o futuro da sua ilha. A Força Aérea Portuguesa também tem aqui pesadas responsabilidades pois privilegia sobretudo os interesses militares. Em seguida, vem a óbvia e despudorada concentração de serviços e estruturas em S. Miguel, no aeroporto de Ponta Delgada, no porto e marina, no transporte aéreo de passageiros, no transporte marítimo de passageiros e carga, no armazenamento e distribuição de correspondência postal e nos serviços alfandegários. Até o Bispo que, pessoalmente, não me faz falta nenhuma, já ensaiaram de levar para lá, tendo havido quem sugerisse num passado recente a criação de uma segunda diocese a Oriente.

As restantes oito ilhas açorianas incomodam muito o governo micaelense… reconheço que é bastante mais difícil governar por uma perspetiva equilibrada de verdadeira unidade e coesão regional. Porém, só governa quem quer. E quanto ao povo micaelense, salvo uma ou outra exceção, ninguém quer saber. Ainda em agosto passado, um micaelense que classifico como pessoa de bom caráter e que não é ignorante, exprimiu na minha frente a seguinte opinião: “Que tolice é querer ter um aeroporto e um bom porto em cada ilha, não há dinheiro para isso tudo, são só 9 ilhas, basta ter um bom aeroporto…”. Ou seja, concordância total com a atual política governamental. E a maioria deles pensa assim.

Tenham santa paciência, mas não acredito que uma realidade arquipelágica com 9 ilhas possa ser governada com base no número de habitantes da ilha maior e no resultado de eleições em que participa um número cada vez menor de eleitores. O universo “ilha” tem de ser o foco e o estatuto autonómico dos Açores já não nos serve, foi bom por ser o primeiro, mas necessita de grandes mudanças. Lisboa e Açores só não é Madrid e Catalunha porque por aqui somos demasiado pacíficos, indiferentes, ignorantes e “acaçapados”. Isto não é um apelo à independência e muito menos à violência, mas é um apelo à justiça, à autodeterminação e ao direito a uma autonomia muito mais alargada. Com demasiada frequência, os interesses de Lisboa não são os nossos. E, portas adentro, os interesses de S. Miguel não são os das restantes ilhas.

A Terceira é, objetivamente, cada vez mais, uma espécie de porta-aviões dos EUA, que esta superpotência usa à borla e ativa ou desdenha maliciosamente, de acordo com os seus interesses militares. Trump não conseguiu comprar a Gronelândia, riram-se-lhe na cara balofa, mas tem bastante sucesso no aluguer vitalício, a custo zero ou simbólico, de uma ilha portuguesa no meio do Atlântico Norte.

Mas sabem que mais? Se o povo é soberano, então só é assim porque nós permitimos. Então, que continue a passar a Banda. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGA NO CAIS DA CALHETA

Junho 18, 2019

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (78)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA NO CAIS DA CALHETA – No fim de semana do feriado da Autonomia, abalámos até S. Jorge, no meu Nantucket Clipper 30, o Popeye, um veleiro de cruzeiro construído na Inglaterra em 1978 e que é, obviamente, o veleiro mais bonito da marina de Angra.

O nosso plano era simples, amarrar o barco, alugar uma scooter e ir fazer uns trilhos numas fajãs. Sabendo que a minúscula marina de Velas estava repleta, decidimos ficar pela Calheta, um porto sem marina, mas praticável, desde que o mar esteja calmo e não haja muita corrente. Depois de uma noite de sexta agitada (partimos à meia noite logo após um evento de Zumba na Biofeira, na Praia da Vitória), a navegar a boa velocidade apenas com a vela grande, sob um vento norte frescalhote e acima da previsão meteorológica, de manhã ainda tivemos de navegar a motor e a custo contra um vento furioso que rondara, entretanto para oeste, mesmo contrário ao nosso rumo. Entrámos na baía da Calheta por volta das 13h00 de sábado. Inicialmente, pensara em ancorar, mas como vi a maior parte do cais antigo livre e o mar estava calmo, decidi atracar ali. Reparei logo numa enorme tenda montada mesmo no meio do cais e cheia de movimento. Pouco depois aproximou-se um segurança que me informou estar ali a preparar-se, para o dia 10, as cerimónias oficiais dos dias de Portugal e da Autonomia, com a presença dos principais figurões da política regional. E que, na opinião dele, embora não tivesse ainda ordens expressas nesse sentido, o Popeye “não ia poder ficar atracado ali”.  Não dei muita importância ao assunto, amarrámos bem o barquito e fomos à nossa vida, só voltámos noite cerrada, para dormir. No domingo, a mesma coisa, saímos cedo para ir fazer o trilho da fajã da Caldeira de Santo Cristo pela serra do Topo, ida e volta. Estava um maravilhoso dia de Primavera e aproveitámo-lo bem.

Na verdade, nada de especial se passou. Nenhuma autoridade me interpelou. Ninguém falou comigo. Não tenho razões de queixa.  Mas durante o dia de domingo, via telemóvel, recebi vários recados indiretos, veiculados por velejadores da Terceira que estavam atracados nas Velas. Segundo estes, o responsável pela marina de Velas (pessoa muito simpática e correta, que conheço pessoalmente) havia-lhes dito, primeiro que eu tinha de sair cedo na manhã de segunda-feira, dia 10 e num recado posterior, que “tinha de sair de imediato”. Na ausência de contatos formais, continuei a não ligar nenhuma ao assunto e a conviver pacificamente com a luxuosa tenda na vizinhança, agora já cheia de cadeiras, microfones e equipamento de comunicação. Mantive o meu plano original que era largar na 2.ª feira bem cedo para a Terceira, pois trabalhava na terça. Larguei às 6 da manhã. Até hoje, não sei qual era a ideia. Mas não gostei das pressões indiretas para sair mais cedo do cais da Calheta. Um barco não é um automóvel que, se não estacionar aqui, estaciona acolá. Os barcos precisam de atracar em segurança nas marinas, num cais ou, na pior das hipóteses, de ancorar, desde que seja em fundos de boa tença e não haja demasiado vento ou corrente. Pago os meus impostos para poder usufruir das estruturas e serviços públicos. Também contribuo para os ordenados dos políticos. E não entendo como que é que o meu humilde veleiro poderia incomodar suas excelências ou colocar em risco a sua segurança. Querem fazer política à beira-mar pois que façam. Devem achar giro. Mas deixem os barcos em paz. Já basta o que um desportista náutico português tem de suportar, de custos, impostos, taxas, burocracia e problemas de toda a ordem, num país que é hipocritamente designado como “de marinheiros”. POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA (A DO COSTUME)

Junho 04, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: http://blogviniciusdesantana.com/abstencao-no-brasil/

BAGAS DE BELADONA (76)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA (A DO COSTUME) -  Nas últimas eleições, para o parlamento europeu, foi pior do que nunca, em termos de abstenção. A reação dos políticos dos partidos foi a saída hipócrita do costume: ficam muito preocupados com a abstenção eleitoral, consideram urgente fazer alguma coisa, prometem tirar ilações e entregar-se a profundas reflexões e meditações sobre o assunto. Se eu juntasse as vezes em que os políticos dos partidos ficam muito preocupados com a abstenção e prometem meditar sobre o assunto e tirar ilações, já dava para abrir um grande mosteiro meditativo no Tibete e a raça da ilação estaria em risco de extinguir-se. Suma hipocrisia dos políticos, eles estão a borrifar-se para a abstenção, o sistema continua a permitir-lhes o acesso ao poder e é isso que eles querem, acima de tudo. Eleitos por 10% ou por 100%, é-lhes igual, são eleitos na mesma.

Vejo várias razões para o desinteresse dos cidadãos pelo seu futuro. Mas a verdade é que os partidos políticos, sobretudos os tradicionais, do “centrão” ou “arco do poder” (uma expressão bestialmente estúpida, muito querida de Cavaco Silva), não têm, há muito tempo, nada de novo para oferecer aos eleitores. Propõe mais do mesmo, um mundo em que, sob o engodo vago e fácil do “progresso” , do “desenvolvimento económico” e da “liberdade”, se manipula as pessoas de forma abjeta; cria-se um rebanho alienado e apático, viciado em novelas, concursos, carros, futebol, moda, shoppings, fast-food, e jogos de vídeo que, na sua maioria, sai para trabalhar todos os dias, para sustentar a riqueza dos donos do mundo, um punhado de vermes capitalistas, agora já não gordos porque frequentam o Holmes e têm saunas finlandesas em casa. Os ricos agora são magros. Outros partidos, mais pequenos, vão aparecendo com mensagens diferentes, mas não é, frequentemente, nada que preste.

Acredito que os Açorianos não foram votar por vários motivos: desinteresse e desilusão com o sistema político-partidário; sentimento de impotência para alterar alguma coisa, uma vez que o sistema só admite que se vote em partidos e está firmemente blindado contra qualquer alteração; desconfiança das instituições europeias; ignorância simples, alienação, apatia, falta de educação e de cultura; falta de noções de cidadania e de participação cívica. O caso dos simpáticos e festivos Terceirenses, dos quais faço alegremente parte, é especialmente paradigmático. Tudo parece passar-nos ao lado e está tudo bem desde que seja ao som de foguetes. Quatro exemplos interessantes: a) soubemos há algum tempo que Força Aérea dos EUA andou, desde os anos 50,  a envenenar o nosso ambiente de forma nojenta e totalmente amoral, com total desprezo pela ilha que os acolheu  e que há hipóteses disso ter relação com incidências anormais de cancro; b) dependemos totalmente dos aviões para sair daqui e para receber visitantes e foi preciso andar anos a rastejar,  a ver o aeroporto de Ponta Delgada a crescer para todos os lados menos o do mar, para que os políticos se dignassem a iniciar o processo de certificação civil das Lajes, processo sempre conduzido, até agora, devagar, com incompetência e com má vontade; c) o Governo da República prepara-se para fazer o que quiser do mar dos Açores, precioso para nós, ilhéus,  aqui isolados no meio do Atlântico Norte,  sem dar qualquer cavaco à Autonomia; d) assistimos há 20 anos ao estabelecimento de um projeto político regional centralizador, com epicentro na ilha de S. Miguel, em que o mantra do “desenvolvimento harmónico” não passa de uma paródia para enganar tansos. Pois bem, tirando os políticos oposicionistas, meia dúzia de opiniosos e o Diário Insular, os Terceirenses nunca pareceram especialmente incomodados com nada disto. Não que eu não goste de festas, atenção, sou muito festeiro. Mas iria apoiar, de certeza, qualquer projeto que propusesse mandar os EUA pastar para casa, tornar as Lajes um aeroporto CIVIL, sermos nós a mandar no nosso mar e mudar a Constituição Portuguesa e o nosso Estatuto Autonómico, de forma a que passássemos a ser uma federação de ilhas com uma forma de gestão completamente diferente e uma autonomia muito mais alargada.

Desempenhando o papel de advogado do Diabo, se eu estivesse do lado do sistema, pensaria seriamente em tornar o voto obrigatório, como já acontece em outros lugares. Isso significa ameaçar com represálias severas os abstencionistas, só funciona assim. Funcionaria com a maioria das pessoas. Até comigo funcionaria. Sendo eu um abstencionista muito antigo, absolutamente convicto e ideologicamente sustentado, que jamais voltará a votar num partido político, se ameaçado, votaria. Nulo, mas votaria. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA AUTONOMIA 1

Janeiro 29, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: http://diniz5.rssing.com/chan-13145324/all_p43.html

 

BAGAS DE BELADONA (67)

 

HELIODORO TARCÍSIO

                  

BAGA AUTONOMIA 1 – Este é um tema forte em debate no momento presente. Duma forma geral concordo com o que tem sido publicado por outras pessoas, nomeadamente os que são críticos acérrimos da atual situação, conhecendo alguns o sistema por dentro. A mais que provável irrelevância do meu discurso tem sobretudo a ver com a sua base utópica. Há muito tempo que defendo um sistema diferente da democracia partidária. Ou seja, diferente de um sistema de governo em que as estruturas de poder assentam totalmente nos partidos políticos. Eles controlam tudo, desde a presidência da República ao parlamento, desde a Procuradoria-Geral da República até à junta de freguesia e ainda metem a colher no Tribunal Constitucional.  Sobretudo, abomino as ideias de que “sem partidos políticos não há democracia” e “não há alternativas democráticas”. Hoje em dia, pelo mundo fora, o cidadão comum é intoxicado com a ideia de que ou é partidos políticos ou é ditadura. A dupla Passos Coelho/Paulo Portas só me ensinou duas coisas: que aquilo é gente a evitar a todo o custo e que há sempre alternativas. Raramente cito outras pessoas, mas desta vez vou citar um pensador e crítico do sistema que admiro, Paulo Morais, ex-candidato à Presidência da República que haveria de ser ganha, inevitavelmente, pelo omnipresente Avô Beijinhos, irmão de Jair Bolsonaro (foi o Vovô quem o disse...)  É para não se pensar que isto é só fruto de uma mente fantasista. Com sua licença, escreveu Paulo Morais, a 17 de janeiro: Criados para representar as diferentes visões da sociedade, ao serviço do eleitorado, os partidos políticos estão em fase acelerada de degenerescência. São habitados por elites políticas que esqueceram os cidadãos e tudo fazem agora para manter os privilégios de que se foram apropriando. São os principais responsáveis pela abstenção, pelo desinteresse crónico pela política e pela crise da democracia. O principal objetivo dos maiores partidos portugueses é, na verdade, manterem-se na esfera do poder, partilhar negócios de Estado com os grupos económicos de que são instrumento e garantir emprego aos muitos milhares de apaniguados, os militantes partidários e seus familiares.”

Depois do 25 de Abril, a criação do estatuto autonómico açoriano era justa, inevitável e foi extremamente benéfica para nós. A legalização dos partidos políticos, proibidos por todos os ditadores, também tinha de acontecer. Agora, quase 45 anos depois, a estagnação e a podridão são perfeitamente evidentes. O sistema está em estado de decomposição cadavérica e a sua fundamentação teórica foi completamente subvertida. O sistema é parlamentar na teoria, mas está absolutamente governamentalizado. Os deputados só representam os interesses dos seus partidos, ao invés de representarem os interesses dos seus eleitores e das suas regiões. Não vale a pena repetir o que outros têm dito, melhor do que eu alguma vez diria. Na verdade, sem meias palavras, o sistema atual é uma intrujice. A questão é que a maioria dos comentadores continua a sonhar com um futuro diferente, mas com os mesmos protagonistas, só mudariam, talvez, as cores do poder. Rio-me todos os dias da kafkiana oposição açoriana (eu já li Kafka, isto não é os comentadores de futebol e os seus aforismos latinos…), porque, além da falta de liderança carismática, até agora, fariam exatamente o mesmo uma vez no poder, como já fizeram antes, só as caras mudariam e nalguns casos nem isso porque existem muitos camaleões políticos, criaturas que permanecem secas por muito que chova, todos nós conhecemos alguns. Ora, esperar que a mesma experiência, repetida mil vezes, com as mesmas condições e pressupostos dê um dia um resultado diferente, é muito pouco científico e bastante irracional. E depois, como diria Filipão, o utópico sou eu… (continua) POPEYE9700@YAHOO.COM

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