Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA SISMOLÓGICA (BAGAS DE BELADONA 92)

Janeiro 07, 2020

Tarcísio Pacheco

sé.jpg

imagem em: https://historias-john-soares.blogspot.com/2019/03/sismo-1-de-janeiro-1980.html

BAGAS DE BELADONA (92)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA SISMOLÓGICA – Nesta altura de ano em que se assinala a efeméride do sismo de 1 de janeiro de 1980, poderá ser um exercício interessante a partilha de memórias acerca desse evento. Provavelmente isso já acontece de forma espontânea nos jantares de família e amigos e nas tertúlias de café. É natural que o tema venha à memória de todos os que viveram esse dia. E será, com certeza, uma coleção de memórias muito heterogénea. Eu vou partilhar as minhas aqui.

Nessa época, eu tinha 19 anos e morava em Angra. Era estudante do Ano Propedêutico, um período de transição, pré-universitário, anterior à criação do 12.º ano. Tínhamos aulas pela televisão, algumas aulas no Liceu e exames no final do ano letivo. No dia 1 de janeiro, acho que tive sorte, na medida em que tanto eu como a minha família escapámos ao pior. Na noite de 31, eu tinha estado no baile de réveillon do Clube de Oficiais Portugueses da Base Aérea 4, até de manhã cedo, com a minha namorada da época, filha de um oficial da FAP. E, na tarde do dia 1, já estava na Base de novo, com as hormonas aos saltos, como todo o adolescente apaixonado. Estava um daqueles dias bonitos, de céu azul e sol invernal. Lembro-me que fui à boleia (alternava com a minha moto, uma Sachs V5, quando tinha dinheiro para gasolina) e foi difícil porque havia poucos carros na estrada. Talvez por isso, demorei-me e a besta apanhou-me ainda na rua. Ia mesmo a passar em frente à Rádio Lajes, quando aconteceu o sismo. Para mim foi muito rápido. Senti o chão a tremer de uma maneira muito estranha. As pessoas da Rádio Lajes saíram para o exterior em pânico. Do lado da freguesia das Lajes vi subir uma enorme nuvem de poeira e ouvi um coro de gritos, como num estádio de futebol cheio. É essa a minha memória mais forte. A casa da minha namorada era pouco mais à frente. Quando lá cheguei, ela, a irmã e a mãe já estavam na rua, aflitas como toda a gente. Seguiu-se uma tarde tensa, pois ficámos sem comunicações e pouco se sabia. Era possível ouvir rádio e era daí que vinha alguma informação, pouca, confusa e contraditória. Falava-se numa Angra totalmente destruída e em muitos mortos e feridos. Não tinha forma de comunicar com ninguém e estava preocupado com a minha família, pai, mãe, irmão e irmã. Por isso, resolvi tentar o regresso habitual a casa, o autocarro da EVT que saía da Base, junto ao cinema Azória, pelas 19 horas. O autocarro estava lá e fui para Angra. Não consigo lembrar-me bem da viagem, mas sei que demorou muito mais que o normal, que não havia iluminação pública e que se via casas em ruínas e muros no chão. Mas foi chegando a Angra que me fui apercebendo da dimensão da tragédia. O autocarro parou no largo de S. Bento pois não era possível ir mais além. Era de noite, a cidade estava em plena escuridão e parecia um cenário de guerra. Por todo o lado, casas destruídas, pilhas de escombros e pessoas a vaguear pelas ruas, com lanternas. Fui andando pela cidade, da forma possível, até à minha casa, que ficava na rua de Baixo de Santa Luzia. Na minha rua, as casas estavam todas vazias e às escuras. Fiquei sem saber o que fazer e para onde ir. Até que passou alguém e me disse que as pessoas da zona estava todas refugiadas ali perto, no terreno livre que ficava junto à antiga igreja de Santa Luzia. Lá, encontrei a minha família, todos a são e salvo embora assustadíssimos pois na hora do sismo estavam na velha casa de pessoa amiga na rua do Faleiro (junto à Igreja da Misericórdia, em zona muito afetada). Dormimos 3 dias no carro, uma station WV Passat, com medo das réplicas, como muita gente. Depois, lá regressámos à nossa casa (que tinha apenas danos menores e que nós próprios reparámos).

Começou em seguida um período muito estranho, pois toda a vida normal parou. O Liceu fechou, não havia aulas. Miúdos como nós, estudantes, não tinham nada que fazer. Uns vagueavam o dia inteiro, outros ajudavam na reconstrução das suas casas. Muitos de nós colaboraram como voluntários em ações diversas. Eu respondi a um apelo do Hospital e, com o meu irmão, estive lá 3 dias e 3 noites a ajudar os enfermeiros, comendo e dormindo por lá. Fazíamos aqueles pequenos trabalhos básicos, de higiene, alimentação, dar medicação, etc. Saí de lá com a certeza de que jamais trabalharia na área da Saúde. Para a minha casa veio uma família inteira de refugiados e dormíamos ao monte pelo chão. Como tinha de assistir às aulas na TV e estudar para os meus exames, fui passar uns tempos para casa de familiares, na Horta, um período que foi muito mais de borga do que de estudos. Regressei a casa, fiz os exames, fui aprovado. Era jovem, invencível e imortal, curti o Verão possível, namorei bastante, trabalhei em obras a limpar entulho pois usavam estudantes para isso e pagavam bem (na nossa perspetiva). E em janeiro de 1981 fui para a Universidade.

Hoje, tantos anos depois, vasculhando nas minhas memórias, tudo me parece muito distante e irreal, como se fosse um filme, como se tivesse acontecido a outro. É a patine do tempo. Mas há espaços, edifícios e pessoas que nunca mais recuperaram. É esse o poder de um terramoto altamente colocado no bando do tal do Richter, como na anedota sobre Angola. Muda a vida da gente.

popeye9700@yahoo.com

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2008
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2007
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2006
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2005
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2004
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2003
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2002
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2001
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2000
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 1999
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Fazer olhinhos

Em destaque no SAPO Blogs
pub