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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

Olha que te ponho as vistas da cor do meu coração...

Dezembro 05, 2014

Tarcísio Pacheco

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O senso comum e até o próprio sistema medem frequentemente o grau de evolução duma sociedade pelos indicadores de desenvolvimento material: quilómetros de asfalto, circulação automóvel, poder de compra, quantidade de shoppings, número de novas urbanizações, cidadãos com telemóvel, etc. Se avaliarmos por esse prisma, Portugal até é um país desenvolvido, excetuando o poder de compra, bem entendido. Contudo, pela minha própria perspetiva, estamos na cauda da Europa comunitária e os Açores ainda pior. Eu avalio o nível de evolução de uma sociedade principalmente por critérios como espiritualidade, literacia, educação, cultura, respeito, tratamento dispensado aos animais, consciência ambiental e violência doméstica, que é o tema que me traz hoje à colação. Antes estivéssemos muito à frente em tudo isto e ainda andássemos de carroça por canadas e atravessássemos oceanos em grandes veleiros, sem pressa para chegar ao destino.

Segundo estatísticas de 2013 da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), os crimes no âmbito da violência doméstica constituíram mais de 80% do total de crimes praticados em todo o país. A violência doméstica não é só quando o Zé chega a casa com mais um grão na asa e resolve vestir de negro os belos olhos da Filomena. É também quando a Filomena lhe arranha a cara com as unhas afiadas; quando ambos se insultam, geralmente à frente das crianças; quando descarregam nos filhos e quando estes, depois de ganhar corpo, resolvem vingar-se. Em suma, qualquer tipo de violência no seio de uma família, muito mais do que aqui se refere, incluindo abuso e coação sexual.

Esta percentagem do total da criminalidade de 2013 é incrivelmente elevada. E estamos apenas perante os casos que de alguma forma foram denunciados e chegaram ao sistema. É legítimo supor que sejam apenas a ponta do icebergue. Quantos casos mais terão ocorrido que não chegaram a constituir-se como crimes e de que não houve notícia? Quantos casos não conhecemo nós, pessoalmente, de vizinhos, de amigos, de familiares, por vezes velhos de anos e anos? E quantos de violência psicológica, da que deixa hematomas na alma? É de salientar ainda que os números, embora sofrendo pequenas flutuações, têm-se mantido estáveis nos últimos anos, sempre acima dos 80%.

As causas são diversas e variadas. Talvez tenhamos de rever estereótipos. Estamos habituados a que o Zé seja servente de pedreiro, a Filomena doméstica e pais de dois putos ranhosos e mal-educados. Mas o Zé tem cada vez mais estudos, a Filomena também e até já trabalha. Chamam-se cada vez mais Fábio e Márcia e não querem ter filhos. E quando o coração é negro, não é muito relevante o estatuto sócio económico. É um problema de origem. Contudo, é forçoso reconhecer que as más condições materiais favorecem e alimentam os fenómenos de violência doméstica. Por isso, não é de estranhar que os Portugueses continuem a esgadanhar-se lá por casa nos próximos tempos. Nesse aspeto e em muitos outros o atual Governo é inimigo das famílias. Excetuando as famílias de políticos, empresários, banqueiros e exportadores. Dessas são grandes amigos.

Soluções? Não há soluções fáceis e sobretudo rápidas. Falamos de civilização, da evolução de toda uma sociedade.  Os recentes programas de combate à violência doméstica anunciados pelo GRA são bem-vindos. Todos os esforços são positivos. A prevenção é tão importante quanto a punição. Mas medida alguma, por si só, vai operar mudanças relevantes em pouco tempo. Precisamos de educar, em casa e na escola, para o amor, a liberdade, a consciência, a tolerância e o respeito. Precisamos de níveis superiores de espiritualidade que substituam com vantagem o convencionalismo ritual e vazio de uma Igreja Católica dogmática que sempre contribuiu fortemente para a violência doméstica opondo-se ao divórcio. Precisamos de líderes políticos motivados para o serviço público, honestos e desligados de partidos. Precisamos de deixar de usar drogas, a começar pelas legais, como o álcool, bastante relacionado com a violência doméstica, ao contrário, por exemplo, do haxixe ou marijuana. Somos uma civilização decadente e em crise, por mais computadores que fabriquemos.

Culpas? Sei lá, de  Deus, que nos fez assim, tão imperfeitos? Precisávamos de ser sábios, pacíficos, tolerantes, bondosos, compassivos, solidários, empáticos, de pele azul, orelhas em bico, com guelras ou asas. Precisávamos de ser de outro planeta. Precisávamos de ser outros. Como somos estes, assim, mal amanhados, que cada um faça o melhor possível na sua vida, lembrando sempre que fomos criados para amar e ser amados. Todos nós. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

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