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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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NOCTURNO: Andamento único

Dezembro 04, 2015

Tarcísio Pacheco

amor e maturidade.jpg

 imagem em: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/c.asp?id=12780

 

NOCTURNO:  ANDAMENTO ÚNICO

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

Numa destas noites, deitei-me cedo, pelas 21h30. Estava cansado. Acordei pela 3h00, insone. Fiquei a ler na cama, algo que adoro fazer. Depois, estive a pensar. Sentia-me lúcido. Daí, a escrever, foi um ápice. Vagueei um pouco pela casa. Bebi um sumo de laranja. Fumei um cigarro. Eu sei mas ninguém é perfeito. Por alguns momentos, gozei o prazer improvável de ser o único acordado na madrugada. Eu e um melro preto, que já saltitava pelo Bailão. Ocorreram-me coisas interessantes. Que partilho aqui. Nada de revelações íntimas. That is private business. Mas eis um resumo da parte inócua: estar a envelhecer tem, definitivamente, um lado positivo. E outros que nem por isso. Perdemos cabelo e ganhamos volume. Mas sentimos que crescemos ao nível intelectual e emocional. Enquanto o corpo decai, a vida começa a fazer sentido. Então, enquanto vigiamos e tratamos o melhor possível a nossa decadência física, adiando o mais que podemos o inevitável, devemos apreciar a plenitude da nossa maturidade. Há uma espécie de paz que vem com isso. Porque uma das lições mais importantes é que o destino não existe. Ninguém está condenado a nada. O nosso livre arbítrio é soberano. Somos donos e senhores do nosso destino. Temos as chaves da nossa vida na mão. Podemos ser o que quisermos, realizar os nossos sonhos, irmos onde nunca fomos. Claro que há limitações e escolhas. Faz parte do jogo da vida. O conhecimento íntimo e a aceitação pacífica e até bem-humorada dos nossos limites pessoais vêm com a maturidade. Aprendemos que cada acção tem uma consequência. Que cada desafio comporta riscos. Que cada escolha tem um preço. E que tudo tem um significado mais profundo do que parece à primeira vista. Podemos fazer tudo e qualquer coisa. As nossas barreiras são em grande parte artificiais. E somos nós próprios quem se acorrenta com os grilhões que tantas vezes consideramos injustos. A questão principal é apenas esta: estamos dispostos a pagar o preço?

Nos 2 anos anteriores, tentei quebrar alguns dos meus grilhões. De certa forma, retomar o meu sonho de menino, de ser marinheiro e correr o mundo. Mudar o meu destino, que afinal foi decidido por mim, cruzamento dos meus anseios, dos meus talentos mas também dos meus medos e fracassos. O destino de ser um eterno ilhéu, enleado na beleza e na paz destas ilhas mas também cercado pelo oceano. Por isso, cedi aos meus impulsos e abandonei o meu espaço de conforto. Em 2 anos vivi em 2 países diferentes, enfrentando situações completamente distintas. Foram oportunidades para aventuras, amores, experiências, conhecimento, aprendizagens e confrontos. Os custos emocionais foram tremendos. Mas uma das mais óbvias conquistas da maturidade é a plena distinção entre o essencial e o acessório. Sentir, com alegria, crescer a indiferença pela superficialidade, pelo convencionalismo, pela mera satisfação dos sentidos, pela acumulação de bens materiais, pela importância social, pelo que os outros pensam da gente.

De ambas as vezes, o que me fez voltar foi o amor. Um amor maior, neste caso pela minha filha mais nova, agora com 4 anos. A consciência profunda e gratificante de que uma criança precisa dos pais junto de si para crescer feliz, saudável e segura. E, pelo meu lado, sentir toda a pureza, inocência e entrega incondicional que existem no amor de uma criança. Acessoriamente, desenvolver a consciência que, dos paraísos às cloacas do mundo, talvez não haja outro lugar como os Açores.

Portanto, pazes feitas com o mundo, é só deixar fluir a vida. E ter sempre objectivos e sonhos até ao fim. Não há nada de errado nisso. Um nível mínimo de inquietação deve estar sempre presente. Até mesmo para combater o conformismo, a acomodação e ainda mais a perniciosa resignação cristã. Caramba, a vida é excitante e o sexo também!

A maior parte dos leitores de jornais não vai sequer ler este texto. Não passarão do título. Outros lerão com desdém. Afinal, o que são reflexões íntimas e pessoais perante a guerrilha política, a cotação do petróleo ou a economia da ilha…Mas alguns, poucos, lerão até ao fim e talvez lhes nasça um sorriso no rosto. É para esses que escrevo. Beijos e abraços. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

PS: O autor deste texto escreve conforme lhe apetece. E isso varia bastante.

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