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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (2)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

20250309_155838.jpg

imagem: 1990, foto privada, algures no Atlântico Norte, eu à proa do ANTARES

 

(continuação) Um skipper respondera à minha mensagem; tratava-se de Roland Girard, skipper do ANTARES, um veleiro de casco em aço, armado em ketch, com 15 m. de comprimento. Roland, então com 55 anos, era um antigo executivo francês, de Grenoble, que se reformara cedo e partira para as Caraíbas, para usufruir da dolce vita dos trópicos. Depois de 15 anos no paraíso, a gozar o sol e a companhia de jovens caribenhas, voltava para França, a contragosto, para cuidar da mãe, idosa e doente. Trazia dois jovens franceses a bordo, mas, insatisfeito com a tripulação, despedira-os na Horta. Alistou-me no rol da tripulação, a mim e ao Charlie, um fotógrafo freelancer americano.

E assim, no dia 4 de agosto de 1990, o Antares largou amarras da Horta, rumo ao Mediterrâneo, com destino à cidade espanhola de Alicante. O veleiro era robusto e confortável e aprendi muito de vela oceânica nessa viagem. Nessa época, ainda não havia enroladores de genoa e era preciso ir à proa, a qualquer hora do dia ou da noite, para mudar a vela da vante, consoante o vento que fazia, uma tarefa desagradável, molhada e perigosa, que acontecia com regularidade.

Nesta passagem, conversava bastante com o Roland, em francês. O Roland não atinava muito com o Charlie, achava-o um americano típico, que só falava inglês, era pouco comunicativo e parecia não saber muito sobre coisa nenhuma, para além de fotografia. Uma ocasião, já a uns 2 dias de viagem da costa europeia, o Roland perguntou-me casualmente se eu conhecia Marrocos e se queria passar por lá. Claro que eu queria, os meus olhos até brilharam. O Charlie não teve direito a opinião e, assim, ficou combinado rumar a Tânger. Aproximando-nos do estreito de Gibraltar, apanhámos um dia de forte ondulação e cerrado nevoeiro, causados por mau tempo da noite anterior. É uma zona de tráfego intenso e nós não tínhamos radar. De vez em quando ouvíamos o barulho do motor de um grande navio a aproximar-se, mas não víamos nadinha, o que era um pouco assustador. Então, o Roland mandava-me para a proa com a buzina de ar comprimido, para fazer os sinais sonoros convencionais em situação de má visibilidade. Navegámos assim um dia inteiro e no dia seguinte, já com terra no horizonte, ainda prestámos assistência a outro iate francês, no mesmo rumo, a quem se tinha esgotado o combustível e que nos pedira ajuda pelo rádio VHF. A forte ondulação não permitia aproximações; assim, através de um sistema de cabos, passámos-lhe um jerrican com 25 litros de gasóleo, o que foi uma operação interessante, após a qual cada um foi à sua vida.

Sem mais história, numa bela manhã solarenga aproximámo-nos de Tânger, na costa marroquina. Não havia marina na época e amarrámos simplesmente ao cais. Vieram logo a bordo dois agentes fardados que, para além de quererem ver a documentação toda, começaram a pedinchar “presentinhos”…eu não tinha nada que prestasse e, um pouco a medo, apresentei uma latinha de creme Nívea, felizmente por abrir, o que agradou ao agente, tendo-a enfiado imediatamente na algibeira. Informaram-nos ainda que só mais tarde poderíamos sair do porto e entrar na cidade, uma vez que dali a bocado chegaria por mar o rei de Marrocos (na época, Hassan II, pai do atual rei), que se tinha deslocado à Argélia para uma conferência e os acessos estavam todos fechados. Com efeito, conseguíamos avistar logo à saída do porto o belíssimo comboio privado do rei, todo em verde resplandecente e com frisos dourados, que aguardava o monarca. Foi-nos dito também que devíamos arranjar uma bandeirinha de Marrocos (que não tínhamos, pois esta escala não tinha sido planeada), quer para içar no barco, quer para acenar à passagem do rei (exatamente assim, nestes termos). Era complicado, se não podíamos sair do porto, como arranjar uma bandeirinha? Felizmente, à tarde, perto da hora prevista de chegada do rei, começou a reunir-se uma multidão de marroquinos no porto e toda a gente tinha na mão bandeirinhas nacionais; abordámos um grupo grande, que parecia ter assaltado uma loja de bandeiras e, gentilmente, lá nos ofereceram algumas. E foi assim que, ao final da tarde, assistimos à chegada do iate real e o rei passou perto de nós, distribuindo saudações e sorrisos aos seus súbditos. Claro que a tripulação do Antares, sentindo-se quase distinguida com uma audiência real, agitava freneticamente as bandeirinhas, não fôssemos incorrer nalgum crime de lesa-majestade. Mais tarde, pudemos então sair do porto e fomos conhecer Tânger. (continua)

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