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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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CARROS FEDORENTOS

Novembro 07, 2014

Tarcísio Pacheco

poluição-do-carro-6498770.jpg

 imagem em: http://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-polui%C3%A7%C3%A3o-do-carro-image6498770

 

 

CARROS FEDORENTOS

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

Infelizmente, para quem não gosta de me ler, tenho opinião sobre tudo. Também tenho uma opinião sobre a circulação automóvel na Praça Velha. Alinho plenamente com o presidente da Câmara: o coração da cidade não deve ser uma rotunda.  Álamo de Meneses mostra visão e arrojo neste particular. Simplesmente, eu vou mais longe. Por todo o mundo, cidades fecham os seus centros históricos ao trânsito automóvel. Somos mais inteligentes, é?

O mundo está envenenado e estamos à beira do desastre. Quando digo “à beira” refiro-me ao tempo histórico. O desastre total poderá iniciar-se nos próximos 50 anos, por exemplo. Não será para mim mas será para os meus filhos. As causas são múltiplas, todas malignas mas uma das mais importantes é exatamente a circulação automóvel no mundo e a estupidez do transporte individual.  Os automóveis e o combustível que queimam diariamente são uma das mais importantes fontes de poluição à escala global e são responsáveis em boa medida pelo desastre iminente. Aqui nos Açores também contribuímos para isso, ao nosso nível. Mas quase ninguém tem consciência e menos ainda estão dispostos a fazer a sua parte. Claro que por detrás de tudo isso está um horrível modelo de civilização a que é difícil fugir, mesmo sendo consciente. Tudo está baseado no dinheiro, no lucro e no enriquecimento. Os prejuízos para o ambiente do planeta são vistos como danos colaterais. Até ao dia, cada vez mais próximo, que for impossível ignorá-los. É por isso que as coisas foram acontecendo de cima para baixo, praticamente impostas, a construção desenfreada de mais e mais estradas,  a extinção progressiva das linhas de comboio, um meio de transporte eficaz, seguro e pouco poluente mas que não pode competir com o automóvel privado. E finalmente, a degradação das redes de transportes públicos que, propositadamente,  se foram tornando cada vez mais medíocres e menos apelativas. Enquanto isso, os automóveis, mesmo excessivamente caros, foram objeto de campanhas maciças de promoção. Tornou-se quase impensável um tipo não ter um carro. Socialmente reprovável. E o que dá mesmo jeito é ter outro para a esposa, um para o Fábio  Alexandre, outro para a Cátia Vanessa, um para o Tareco e outro para o Bobi. A vida contemporânea é uma armadilha montada por pessoas ricas, sem escrúpulos, que querem ficar cada vez mais ricas, envolvendo-se numa teia medonha de cumplicidades entre políticos, empresários e banqueiros. Que controlam a carneirada, a seu bel-prazer. Claro que o discurso de um carro para cada um não é assumido politicamente. Mas o esquema é montado de tal forma que isso se torna irresistível e é facilitado. Tudo em nome da besta capitalista sob pretexto de “conforto e comodidade” para as pessoas. Ainda recentemente, a meu lado, numa mesa de café, uma mocinha, recém-casada ou em vias disso, depois de comentar a última sessão da Casa dos Segredos, comentava que ela e o companheiro teriam de ter um carro para cada um. Tem de ser, dizia ela…

E as pessoas, no meio disto tudo? O Zé Manel e a Aurora? A maior parte das pessoas não pensa, limita-se a existir. Se deixadas à rédea solta, as pessoas fazem todo o tipo de disparates: comer hamburguers, beber Coca-Cola, votar em políticos corruptos e mentirosos e comprar um automóvel para cada membro da família. Se alguém tentar regulamentar a aquisição de automóveis novos e a circulação automóvel em ilhas pequenas como as açorianas (como se  faz em outros locais do mundo onde as pessoas são mais inteligentes), aqui d’El-Rei que isso é intromissão na vida privada, isso é comunismo. Não há vida privada neste sentido porque, hoje em dia, ao ponto que a degradação chegou, tudo o que fazemos, além do mal que fazemos a nós próprios, contribui para lixar a vida de milhões de seres noutros locais do globo.

Se  concordo com o encerramento da circulação automóvel na Praça Velha? De alma e coração! Mas vou muito mais longe e agora sei que vou pregar no deserto. Há muitos anos que sonho com uma cidade de Angra do Heroísmo, que é tão pequena, totalmente liberta da praga dos automóveis, pelo menos no seu coração, isto é, no do Alto das Covas à Praça Velha, passando pela rua da Sé. Claro que isto implica levar à perfeição o sistema de transportes públicos, gratuitos ou quase e as estratégias de estacionamento e ligação. Mas significa, sobretudo, uma mudança de atitude e de paradigma. A vida não pode ser só comer, trabalhar, dormir e defecar. É urgente ensinar as pessoas a pensar. Claro que isso não pode ser feito por Nuno Crato nem por ninguém como ele. Eles são o inimigo, mais perigosos ainda do que o Estado Islâmico porque se disfarçam de democratas e mentem todos os dias. Ao menos, o Estado Islâmico é brutalmente claro e transparente.  

Posso falar à vontade porque estou, estive sempre, disposto a fazer a minha parte. E vocês? POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

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