BAGAS REFORMA-TE ANTES QUE MORRAS E A BUROCRATIZAÇÃO DA DESBUROCRATIZAÇÃO (168)
Dezembro 12, 2025
Tarcísio Pacheco

imagem em: Bureaucracy By Damien Glez | Politics Cartoon | TOONPOOL
BAGAS DE BELADONA (168)
HELIODORO TARCÍSIO
BAGA REFORMA-TE ANTES QUE MORRAS – Sem surpresa, a Assembleia da República chumbou a proposta do parlamento açoriano, arquitetada por Artur Lima, no sentido de reduzir o acesso à idade da reforma, com o argumento de que os açorianos têm uma esperança de vida média inferior à dos portugueses continentais em cerca de dois anos. Era o desfecho realista esperado. “Arbitrárias, irrazoáveis e inconstitucionais” é como a competente comissão parlamentar classifica as propostas insulares de reforma. O respetivo parecer é do deputado Nuno Jorge Gonçalves, do PSD. Era bom que os açorianos não esquecessem tal facto. Mas parece que, nos Açores, não é só a vida que é mais curta, a memória também não é de longa-metragem. Pelo menos foi a ideia que transmitiu o insuspeito Shawn D. Littleton, oficial norte-americano que publicou através do Instituto Histórico da ilha Terceira, um estudo académico, devidamente autorizado, intitulado A Importância Estratégica dos Açores, que tive o privilégio de traduzir. Ao longo do extenso texto de 32 páginas, explica como, de forma fria, cínica e calculista, Portugal tratou sempre os Açores como uma colónia que, ao logo do tempo e das vicissitudes da História foi usando como moeda da troca, ao sabor das conveniências políticas do momento, sem reais, duradoras e permanentes compensações, benefícios ou mudanças estruturais para os Açores. E agora, que somos região autónoma, no final de 2025, a exploração continua, nem sequer nos é reconhecido que morremos mais cedo. Parece que isso seria anticonstitucional. Para Littleton, somos 250.000 nativos explorados e submissos. Donald Trump, o ídolo dos emigrantes açorianos nos EUA, ainda é mais explícito: somos “esse shitty country”. Confesso que fiquei sem perceber o que é que é “inconstitucional”. Se é os continentais morrerem mais tarde, se é os açorianos morrerem mais cedo. Mas, sendo açoriano, vou apostar nesta segunda hipótese. Dá-me mais jeito porque até tenho umas coisas planeadas para a reforma, que não me daria jeito nenhum alterar. Assim, fico mais animado, agora que ganhei dois anos de vida. Longe de mim, desrespeitar a Constituição Portuguesa. Pena é não ser com efeitos retroativos.
BAGA BUROCRATIZAÇÃO DA DESBUROCRATIZAÇÃO – Tenho de ser sincero, sou do tempo das cartinhas e dos selos. Conheci a minha primeira namorada, quando ela tinha 14 anos e eu 15, éramos da mesma turma do 10.º ano. Sendo ela filha de um oficial da FAP, com origem noutra ilha, ficávamos frequentemente longe em períodos de férias. Com que emoção eu, em casa de meus pais, em Santa Luzia, sabendo da hora de passagem do carteiro, ficava a aguardar, com o coração nas mãos, para ver se caía alguma coisinha pelo porta-cartas. E, na verdade, caía com frequência e eu ficava todo feliz, lia e relia as cartinhas, obrigado, Paula. Era muito amor manuscrito, no cursivo impecável dela. Pode mesmo ter contribuído para ela se ter tornado uma escritora de sucesso. Mais tarde, tudo mudou, a começar pela namorada. Depois, sucessivos governos de Portugal elegeram como desígnio nacional, acabar com a pesada e anacrónica burocracia lusa. Veio o digital, que acabou com a curta vida dessa maravilha tecnológica que foi o fax. O digital trouxe o email. Que loucura! Era só escrever a cartinha, fazer um clique e, quase instantaneamente, à velocidade Einsteiniana da luz, a cartinha percorria ares e mares, não fazendo diferença se o destino era Macau ou uma casa ali ao lado. Aí, foi demais. Podia ter sido o início de um futuro fantástico. Mas não foi. Deitaram para o lixo as máquinas de escrever, muitas delas elétricas e a ainda a cheirar a novo. E desataram a comprar os computadores que enviavam emails. O momento foi de choque. Repartições inteiras, exércitos de burocratas ficaram repentinamente com pouco para fazer. O digital foi o 25 de Abril da comunicação. O que se seguiu foi o 25 de Novembro. Aconteceu a reação. Hordas de burocratas, provavelmente de extrema-direita, conluiaram-se para reagir. O resultado foi a burocratização da desburocratização. Enviar um email com um clique era demasiado simples, fácil e rápido. Havia que complicar. Meteram mãos à obra. E nisso, são extremamente competentes. Uma das suas primeiras e mais malévolas criações, foi o SGC (Sistema Integrado de Gestão de Correspondência). Foi do género “ah, agora é assim, mandar emails? Já vão ver, esperem pela pancada”…E a gente levou com ela. Agora, para se enviar um simples documento, tem de usar um sofisticado programa informático, que não deixa nada ao acaso. Sabemos sempre quem escreveu o quê, quando enviou, onde para o documento, quem o recebeu, por que mãos passou, o que cada um disse ou fez e quem deve fazer o quê em cada momento. É o paraíso da burocracia, o requinte máximo. Passámos do clique ao clicão. É claro que no fim do processo, o documento pode ser arquivado (“terminado” em burocratês), como se fazia antigamente, o equivalente ao antigo furar as folhinhas e arrumar num dossier, mas não pode ser qualquer um, de qualquer maneira. Ah não, isso também tem as suas regras.
Como se isto não fosse suficiente, depois criaram outra câmara de tortura, o SIGRHARA, sistema integrado de gestão de recursos humanos do governo regional, uma fortaleza gigantesca e imponente onde, até há pouco tempo, só entrávamos por motivos de força maior, pedindo muito a medo aos façanhudos guardas do sistema que nos baixassem a ponte levadiça. Era aceder, descobrir o caminho no labirinto o mais rapidamente possível, cortar a cabeça ao dragão e sair a correr para os verdes prados, de volta à liberdade. Ah, mas estava muito fácil e o departamento executivo da Burocratização da Desburocratização do Big Brother já andava a fazer horas extraordinárias para conceber a próxima grilheta. Dantes, se tínhamos de ir ao médico, pedíamos uma declaração de presença que entregávamos nos nossos serviços administrativos para ser tratada por pessoas que escolheram fazer isso na vida delas. Mas os burocratas estavam atentos. “Olha só o descaramento deles, trazer papelinhos e entregar nas secretarias, já lhes vamos tratar da saúde “. E então, pimba, há dias apareceu a nova norma. Entregar os papelinhos, sim, claro, papelinhos são coisas de estimação. Mas, antes, é preciso d.i.g.i.t.a.l.i.z.a.r o dito cujo. Sem isso, nada feito. E depois, é preciso pegar no papelinho que, esse sim, chegou às nossas mãos via email (shiuuu, podia ter chegado por SGC) e inseri-lo num complicado meandro de operações nada intuitivas, na nossa querida página pessoal e única do SIGRHARA, preenchendo uma catrefada de quadros e parâmetros com a ajuda do nosso inestimável amigo, o rato. Isto passa-se num país que abraçou a desburocratização como desígnio nacional. Imaginem se fosse ao contrário. O que vale é que já estou perto da reforma. Isto é, se não morrer antes. Mas parece que isso seria anticonstitucional. É o que me vale. popeye9700@yahoo.com