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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BB (88) BAGA GRETA É FIXE!

Novembro 26, 2019

Tarcísio Pacheco

gretathunberg1908a.jpg

imagem em: https://www.standard.co.uk/news/world/teenage-activist-greta-thunberg-set-to-sail-across-atlantic-for-second-time-on-carbonfree-racing-a4285726.html

BAGAS DE BELADONA (88)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA GRETA É FIXE – Ando excitadíssimo! Greta Thunberg, uma das minhas heroínas no presente, vai passar perto de mim, provavelmente apenas a dezenas de milhas náuticas, a caminho de Lisboa e do parlamento português. Usando o meio de transporte amigo do ambiente que eu usaria sempre, se pudesse, um barco à vela. As últimas notícias dão conta de que teve de atrasar a sua marcha pelo Atlântico Norte devido à ameaça de uma perniciosa tempestade radical de extrema direita, um autêntico Chega de bom tempo.  É pena que não pare na Terceira, embora já tenhamos por cá uma personalidade chamada Greta. Não sei se haveria na ilha espaço para duas Gretas famosas. Além disso, sendo Greta uma ambientalista ativa, ela já deve ter ouvido falar da ilha no meio do Atlântico Norte que foi envenenada pelos norte-americanos. Ela é jovem, mas não é nada tola. Sabe que isto aqui é perigoso. É melhor passar ao largo. Coitados dos que cá vivem, pensará ela. Obrigado, querida Greta.

A minha paixão (casta, platónica e toda inteletual) por Greta, praticamente nasceu no dia em que ouvi falar dela. As adolescentes típicas da atualidade, são moças profundamente apaixonadas pelo seu reflexo no espelho, consumidoras compulsivas de telemóveis de última geração e de toda uma série de gadgets eletrónicos, que vivem nas suas cavernas privadas lá em casa, de onde saem de vez em quando, para ir à escola, à explicação, aos treinos de qualquer coisa, às compras e a festas e de onde comunicam com as mães, frequentemente por SMS, para pedir dinheiro, boleia e cenas diversas. Quando são inteligentes, o que acontece ocasionalmente, até entendem que o mundo pode acabar um dia destes. Mas talvez não acabe antes das próximas férias do Verão e, por outro lado, que podem fazer elas quanto a isso? Greta, com 16 anos de idade, preocupa-se com o ambiente, com o futuro da raça humana, anda em viagem ecológica pelo planeta, a chatear políticos sisudos com o tempo muito ocupado e, pecado capital, tem faltado à escola. Insiste em frequentar parlamentos e assembleias cheias de pessoas adultas, sábias e com coisas muito importantes para tratar. Não liga nenhuma aos “mercados”, não respeita os investidores, os uniformes são-lhe indiferentes e não se interessa por vistos dourados. Nitidamente, Greta tem uma forte autoestima e mija fora do penico. Isso deixa muita gente a babar-se de raiva ou inveja.

A minha paixão por Greta atingiu os píncaros quando vi a famosa fotografia em que ela lança aquela olhar enviesado e altamente tóxico a Trump. É um olhar carregado de desprezo, de absoluta superioridade, consciente e natural. É assim que olhamos para uma formiga, que um alienígena evoluído de Sirius olha para um humano, que Deus, se existir, olha para uma testemunha de Jeová. Feio, burro, gordo e mau, terá pensado Greta, não sem umas gotas de piedosa comiseração. Foi aí que me apaixonei, eu, que tenho com frequência sonhos belíssimos e muito divertidos em que traço a perna a Trump, pontapeio-lhe o traseiro gordo, meto-lhe sal fino na lata de Coca-cola light, atiro-lhe com ovos de avestruz podres e o vejo a pisar cocó de cão ou a levar com uma bola de golfe nas partes que o fazem gostar de apalpar. Sim, também passo por aquela fase de desapontamento, ao acordar e perceber que foi tudo um sonho.

Tem sido divertido ler nas redes sociais em português sobre a visita de Greta. O jovem empreendedor, tecnológico, crente da religião start-up, que acha a Web Summit infinitamente mais estimulante que a Feira de Sexo de Barcelona, não suporta quem não entende a absoluta necessidade de ser competitivo no mundo de hoje. O turista do resort, o passageiro da escapadinha de fim de semana ou o viajante frequente, não entendem quem não aprecia comer amendoins a 10 km de altitude e a 900 km/h e não recebe no telemóvel alertas sobre as promoções irresistíveis da Ryanair. Os bem-comportados não lhe perdoam a gazeta às aulas. Os bem-educados não lhe perdoam a irreverência e o desprezo pelo socialmente correto.

 As pessoas, em geral, não são insensíveis nem estúpidas. Claro que não. Quase toda a gente acha que o direito à greve é sagrado, desde que não incomode ninguém e não atrapalhe a sociedade. As pessoas até não são más. Claro que não. A maioria das pessoas até é sensível às questões ambientais e comove-se até às lágrimas com os golfinhos presos em redes de pesca. Muitos até já reciclam o lixo em contentores de um bonito amarelo sintético. A culpa até nem é das pessoas. O problema é que é praticamente impossível viver sem plástico, aviões, fast-food, toalhitas higiénicas, fruta fora de época e algum tipo de emprego. O povo Viking nunca há de ser grande outra vez e é bem feito. Greta deve ser meio doida. Aliás, dizem que é. popeye9700@yahoo.com

BAGA PORTA-AVIÕES AO FUNDO (BB87)

Novembro 19, 2019

Tarcísio Pacheco

Terceira.jpg

imagem em: https://discoverportugal2day.com/ilha-terceira/

BAGAS DE BELADONA (87)

HELIODORO TARCÍSIO

 BAGA RETIFICATIVA – Meti uns mililitros de água na minha Baga anterior, sobre o Angra Sound Bay. Portanto, aqui fica uma retificação da informação incorreta, com um público pedido de desculpas aos afetados. O João Pedro Leonardo adotou o nome artístico de João da Ilha (e não das Ilhas) e ganhou o prémio de Melhor Original, com letra e música da sua autoria. O prémio de Melhor Letra foi entregue a Miguel Nicolau, um desconhecido para mim, a quem deixo felicitações.

BAGA PORTA AVIÕES AO FUNDO – Nestas páginas, já me assumi várias vezes como uma pessoa que ideologicamente se inscreve na área da esquerda democrática, mas que, há muitos anos, decidiu deixar de votar em partidos políticos, única opção possível, não contando com a mascarada dos “independentes” que, ainda assim, são apresentados ao eleitorado numa lista partidária. Haverá outras formas possíveis de viver em democracia, implicando um serviço público sem interesses materiais. Tenho consciência de que isto é utópico porque a esmagadora maioria das pessoas se move por interesses próprios, senão materiais, diretos ou indiretos, então por paixão pela autoridade, pelo reconhecimento social e pela fútil vaidade, entre outros fatores. São traços fortes na raça humana.
Nos Açores, só os néscios ou os muito ignorantes podem não perceber, negar ou ignorar a medonha concentração de poder, estruturas e meios de todos os tipos em S. Miguel e a clara subalternização da Terceira e, por tabela, de todas as outras ilhas. Não me movem interesses partidários, não sou inimigo de ninguém do atual governo e gosto das ilhas todas, incluindo S. Miguel, uma ilha belíssima, cheia de gente fixe, onde passo férias com frequência. Porém, em minha opinião, todos os terceirenses, exceto os que são cúmplices e coniventes com a situação atual, têm razões para se absterem maciçamente em eleições regionais. Apenas a conivência com a situação, a ignorância, o desinteresse e a apatia, podem justificar outra opção. E seria uma tontice, neste contexto, votar em qualquer outra força política pois acredito que todos os partidos, especialmente os do “arco do poder” agiriam de forma semelhante. Todos se regem pela lógica fria dos números e por critérios de base económica. É a morte do Humanismo face ao paradigma capitalista: tudo se reduz à acumulação de riqueza e à competição para conseguir… acumular mais riqueza.

Há vários assuntos de extrema importância para os terceirenses que documentam estas afirmações. À cabeça, com claras responsabilidades também para o governo da República, a tenebrosa questão da contaminação ambiental da ilha pelas Forças Armadas dos EUA, situação que está muito longe de ser resolvida. Depois, vem a questão da certificação civil do aeroporto das Lajes, propositadamente gerida de forma medíocre e incapaz, que se define quase como uma vigarice, um fingimento, um faz de conta, para enganar as poucas pessoas que se preocupam com o futuro da sua ilha. A Força Aérea Portuguesa também tem aqui pesadas responsabilidades pois privilegia sobretudo os interesses militares. Em seguida, vem a óbvia e despudorada concentração de serviços e estruturas em S. Miguel, no aeroporto de Ponta Delgada, no porto e marina, no transporte aéreo de passageiros, no transporte marítimo de passageiros e carga, no armazenamento e distribuição de correspondência postal e nos serviços alfandegários. Até o Bispo que, pessoalmente, não me faz falta nenhuma, já ensaiaram de levar para lá, tendo havido quem sugerisse num passado recente a criação de uma segunda diocese a Oriente.

As restantes oito ilhas açorianas incomodam muito o governo micaelense… reconheço que é bastante mais difícil governar por uma perspetiva equilibrada de verdadeira unidade e coesão regional. Porém, só governa quem quer. E quanto ao povo micaelense, salvo uma ou outra exceção, ninguém quer saber. Ainda em agosto passado, um micaelense que classifico como pessoa de bom caráter e que não é ignorante, exprimiu na minha frente a seguinte opinião: “Que tolice é querer ter um aeroporto e um bom porto em cada ilha, não há dinheiro para isso tudo, são só 9 ilhas, basta ter um bom aeroporto…”. Ou seja, concordância total com a atual política governamental. E a maioria deles pensa assim.

Tenham santa paciência, mas não acredito que uma realidade arquipelágica com 9 ilhas possa ser governada com base no número de habitantes da ilha maior e no resultado de eleições em que participa um número cada vez menor de eleitores. O universo “ilha” tem de ser o foco e o estatuto autonómico dos Açores já não nos serve, foi bom por ser o primeiro, mas necessita de grandes mudanças. Lisboa e Açores só não é Madrid e Catalunha porque por aqui somos demasiado pacíficos, indiferentes, ignorantes e “acaçapados”. Isto não é um apelo à independência e muito menos à violência, mas é um apelo à justiça, à autodeterminação e ao direito a uma autonomia muito mais alargada. Com demasiada frequência, os interesses de Lisboa não são os nossos. E, portas adentro, os interesses de S. Miguel não são os das restantes ilhas.

A Terceira é, objetivamente, cada vez mais, uma espécie de porta-aviões dos EUA, que esta superpotência usa à borla e ativa ou desdenha maliciosamente, de acordo com os seus interesses militares. Trump não conseguiu comprar a Gronelândia, riram-se-lhe na cara balofa, mas tem bastante sucesso no aluguer vitalício, a custo zero ou simbólico, de uma ilha portuguesa no meio do Atlântico Norte.

Mas sabem que mais? Se o povo é soberano, então só é assim porque nós permitimos. Então, que continue a passar a Banda. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGAS DE BELADONA (86) - ANGRA SOUND BAY

Novembro 12, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: https://www.viralagenda.com/pt/events/794772/2-audicao-angra-sound-bay-2019

 

BAGAS DE BELADONA (86)

 

HELIODORO TARCÍSIO

 

BAGA ANGRA SOUND BAY 2 – Concluída a 2.ª edição do Angra Sound Bay, ficámos a saber que há boa música original com epicentro na ilha Terceira e estão todos de parabéns, entidades organizadoras, participantes e público que este ano, ao contrário de outros, foi à Praça Velha, aproveitando também uma excelente noite de S. Martinho. Este texto comenta as audições do concurso, nomeadamente a 2.ª audição, no Havana, onde estive presente, referindo-se a oito dos dez projetos concorrentes, omitindo-se, com as minhas desculpas,  dois dos projetos que se apresentaram na 1.ª audição, por não ter elementos suficientes para análise.

JOÃO DAS ILHAS – Um músico talentoso e um valor seguro, em boa hora regressado ás origens, com uma belíssima voz e uma produção própria muito interessante e com identidade, mas capaz de alternar entre ritmos bastante diferentes, conforme nos mostrou com o seu tema de sabor “regional”. Terá ainda muito para nos dar, ao longo da sua carreira. Foi um dos quatro finalistas apurados, ganhou o prémio da Melhor Composição (com um tema excelente) e ainda arrecadou o prémio da Melhor Letra, com um texto que não é da sua autoria.

ROBERTO “CARRO DE PRAÇA” – Uma presença alternativa, de pendor humorístico, para enriquecer a noite no Havana, aproveitando o enorme talento  do Patrício Vieira nesta área. O púbico divertiu-se imenso, fartámo-nos de rir. Musicalmente, não era para levar a sério nem creio que fosse essa a intenção. Pessoalmente, penso que o Patrício podia apresentar este número em espetáculos do tipo stand-up comedy ou outro, pelas ilhas fora. Há muita música no Patrício, mas há mais humor ainda.

BRUNO ROSA – O moço do Pico, a minha ilha favorita depois da Terceira, apresentou-se em palco com uma energia simpática e muito picarota, oferecendo-nos temas bonitos, com toadas simples, bastante ligados à nossa condição de ilhéus e a uma certa nostalgia insular e norte-atlântica. Poderia ter brilhado mais, mas havia estrelas maiores na noite...

HENRIQUE BULCÃO TRIO – Acompanhado por excelentes músicos, o Henrique entregou-se a uma apresentação que tinha tanto de canto como de declamação. Com efeito, é impossível não reparar na qualidade dos poemas do Henrique, que saiu ao pai, neste campo. Assim como é de notar a entrega e a emoção dele no palco. Foi um dos bons momentos da noite. Gostei particularmente da música em inglês porque tinha um belíssimo poema e resultou muito bem na voz grave do Henrique.

JOÃO FÉLIX – Sempre achei a produção musical do João Félix de grande qualidade e tive oportunidade de lhe dizer isso pessoalmente, no final de um seu concerto na esplanada da Central, há alguns anos. Quanto aos temas que apresentou neste concurso, inscrevem-se todos dentro da mesma linha melódica, muito dolente e melancólica. A qualidade das composições e da execução é indiscutível e seria muito difícil não o selecionar para a final no contexto em que concorreu. Contudo, de um ponto de vista meramente pessoal, esta sonoridade específica não me seduz. Foi um dos 4 finalistas apurados.

JOEL MOURA & NÉLIA MARTINS – Sempre senti admiração pelo Joel Moura, uma presença habitual no antigo Angra Rock e que ainda anda por aqui. Admiro a sua perseverança e resiliência, ao continuar a produzir música original, a que ele gosta e é capaz de fazer, independentemente de quaisquer críticas ou tentativas de desmotivação. É sempre de louvar. Em relação à Nélia Martins, na ilha todos conhecemos a potência e qualidade da sua belíssima voz. Quanto a esta parceria em particular, teriam beneficiado se tivessem tomado outras opções. Quando o projeto foi anunciado, no imediato pensei que o Joel compunha e tocava e a Nélia cantava, uma vez que as vozes não se podem comparar. Seria isso a fazer mais sentido, uma vez que o Joel é sobretudo compositor e músico e a Nélia é uma cantora. Fiquei surpreendido, pela negativa, ao ver a intervenção vocal da Nélia quase reduzida a uma espécie de back vocal ou sublinhados sonoros. Deste modo, a voz da Nélia não brilhou.

UZHOMS – Em qualquer show coletivo, não duvido que esta banda tenha de se apresentar em último lugar pois é inegável o clima de alegria e boa disposição que inspiram. Garantem sempre um final em festa. À parte disso, são todos músicos com qualidade e apresentam um pop-rock com temas que já vão sendo bem conhecidos como o seu brilhante “John d’América”. As suas composições caraterizam-se por um rock alegre e bem ritmado, em que está sempre presente um humor irresistível que perpassa por todos, mas se centra sobretudo na veia cómica do vocalista. Lembram-me bastante bandas icónicas e raras, como os saudosos Fúria do Açúcar. Quanto à qualidade musical dos temas apresentados, considero-a variável, mas sempre interessante e nunca pobre. Foram um dos quatro finalistas selecionados e levaram o prémio do Melhor Projeto, o que me pareceu aceitável e justo.

SAMFADO – Trio formado por amigos e colegas universitários para este concurso, embora já tocassem ocasionalmente juntos. São eles, a Inês Bettencourt, terceirense, o Eduardo Abreu, madeirense e o Pedro Cotti, brasileiro de S. Paulo. Este último é o compositor e letrista do trio. Já conhecia dois dos temas compostos pelo Pedro e tinham-me ficado de imediato gravados na alma, pela grande qualidade de músicas e letras. A Inês, já conhecida na Terceira (musicais Mamma Mia e Gente em Branco, projeto Safira, etc), é dona de uma voz muito bonita e afinada e tem uma excelente presença de palco, temperada pela simpatia pessoal e pela frescura da juventude, embora não devesse cantar sentada, por vários motivos. Com uma execução musical competente e suficiente, numa versão nitidamente pensada para o contexto de pequenos espaços em que este grupo nasceu, os quatro temas apresentados são todos de grande qualidade, em minha opinião. É incrível pensar que pelo menos um destes temas foi composto em cima do joelho. O grupo pode vir a beneficiar no futuro do enriquecimento musical das composições e da inclusão de um percussionista (samba sem percussão é como um jardim sem flores…). Além disso, se quiserem sair do nível da apresentação intimista, terão, obrigatoriamente, de usar instrumentos com amplificação. O seu som era quase inaudível na Praça Velha, o que foi uma pena e os prejudicou. Foram apurados para a final. popeye9700@yahoo.com

 

 

BAGAS DE BELADONA (85) BAGA MENINO OU MENINA?

Novembro 06, 2019

Tarcísio Pacheco

fundamentalismo cristão.jpg

imagem em: https://www.paulopes.com.br/2014/07/fundamentalismo-cristao-brasileiro-tem-se-expandido-na-politica.html#.XcKgJFQRcdU

BAGAS DE BELADONA (85)

HELIODORO TARCÍSIO

BAGA MENINO OU MENINA? Lá no Continente há uma senhora, Maria Helena Costa (MHC), com maus dentes, o que não é bom para a imagem e pode até levar a graves infeções no cérebro. Aliás, leva, de certezinha. MHC adquiriu alguma visibilidade pública nos últimos tempos, mercê da sua cruzada contra aquilo que diz ser “a destruição das famílias” e a “desconstrução da masculinidade”.  A gente pensa que Portugal até está a evoluir, mas depois damos com as estatísticas de violência doméstica e com figurinhas como MHC e ficamos amargamente desiludidos.

 Antes de se dedicar à “sua luta”, MHC tinha abraçado a promissora carreira de chefe de secção de roupa infantil numa loja do antigo Feira Nova. Infelizmente, não se deixou ficar por lá. A páginas tantas, sentiu um profundo apelo uterino e decidiu ficar por casa a cuidar dos filhos. Jamais teríamos ouvido falar dela fora da sua rua se, talvez por ter demasiado tempo livre, não tivesse respondido a um chamamento divino, abraçando com apostólico afã, uma nova carreira na apaixonante área do fundamentalismo cristão.  Pelo meu lado, até gosto disso, no sentido de que já me fazia falta uma causa "fraturante", anos volvidos sobre o meu envolvimento desinteressado na discussão pública sobre o aborto e o casamento gay, por exemplo.

Em entrevista, MHC, perante as questões colocadas, inicia sempre a sua resposta com um “Então,” uma bengala discursiva enfática, arrogante, sapiente e, acima de tudo, sustentada em certezas absolutas. Pois se está na Bíblia, quem é ela, serva de Deus, para discordar… Concordo, sobretudo na parte do “serva de Deus”. Basicamente, para esta senhora, o mundo divide-se em pilinhas e ratinhas. Ela sempre teve uma ratinha e nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ter outra coisa. “Então”, porque é que não há de ser assim com toda a gente?  No fundo, a vida é simples, as pessoas é que complicam. Quer dizer, quantos WC é que vão ser precisos no futuro, em cada lugar? Este atentado à ordem natural das coisas é suspeito de favorecer também um dos piores crimes contra o neoliberalismo dominante: a insustentabilidade económica. Por outro lado, MHC é capaz de ter a bem-aventurança garantida; estou longe de ser um perito mas tenho uma vaga ideia de haver qualquer coisa na Bíblia sobre uma relação entre os pobres de espírito e o Reino dos Céus.

O que esta senhora diz e escreve desmonta-se facilmente pois trata-se de um discurso pobre, fanatizado, mal sustentado, pouco racional e absolutamente crivado de preconceitos. Mas como ela fala e escreve muito, é preciso falar e escrever tanto quanto ela. E para isso não tenho tempo, já que também tenho filhos e sou dono de barco, não de casa.

Desde que se deixou ficar por casa, com muito tempo para matar, MHC deu em “estudar”; diz que a sua “área” é a análise sócio cultural à luz da Bíblia; uma especialidade académica que nem é tão rara assim, promovida que tem sido por Bolsonaro e Trump.  Pressupõe que o Deus bíblico existe, coisa que ninguém conseguiu até agora provar e que, portanto, é tudo ideias divinas, que vêm de cima; pressupõe também que o texto bíblico é a transcrição mais ou menos exata do que o próprio Deus disse a várias pessoas na Antiguidade, algo que é tão suspeito quanto a própria Igreja Católica Romana, uma organização altamente manipuladora, castradora, maquiavélica e hipócrita.

Para já, fica o seguinte comentário: ninguém, nenhum governante, investigador ou psiquiatra inventou nada acerca da identidade de género, que é aqui o tema central e a pulga que causa a comichão em MHC. Essa questão é tão antiga quanto a própria homossexualidade humana que, por sua vez, ao que sabemos, é tão antiga quanto a espécie humana. Simplesmente, além dos inevitáveis estudos científicos sobre o assunto, a Humanidade, apesar dos inúmeros problemas, confrontos e retrocessos civilizacionais, beneficia atualmente de uma abertura imparável de mentalidades. A atenção dada à identidade do género é apenas a forçosa resposta política a um reconhecimento do problema e conduz a uma intervenção efetiva no sentido de proteger e ajudar as pessoas que nasceram com o equipamento errado, nomeadamente as crianças, claro. Cientificamente, sei que existe a perceção de que há uma idade ideal para atuar, inevitavelmente abrangendo o período escolar, mas a lógica diz-me que cada caso tem de ser estudado individualmente. Para terminar, por hoje, não faço a menor ideia se Deus existe e MHC também não, uma vez que nem ela nem ninguém apresentou até agora qualquer prova material da existência de Deus. É como os Gnomos, é quase certo que os há, mas eu cá nunca vi nenhum. Mas, mantendo o espírito aberto a todas as possibilidades, mesmo improváveis, existindo o Deus bíblico em que MHC acredita piamente, o que faria sentido para mim seria que tivesse criado almas, equipando-as com um corpo material temporário a fim de que pudessem viver no planeta Terra. E almas são como anjos, não tem género, aliás, são mais uma síntese dos dois princípios, masculino e feminino. É por isso que nós todos, almas incarnadas, partilhamos ambas as energias. É quase certo que voltarei a este assunto. popeye9700@yahoo.com

 

 

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