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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGA NO CAIS DA CALHETA

Junho 18, 2019

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (78)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA NO CAIS DA CALHETA – No fim de semana do feriado da Autonomia, abalámos até S. Jorge, no meu Nantucket Clipper 30, o Popeye, um veleiro de cruzeiro construído na Inglaterra em 1978 e que é, obviamente, o veleiro mais bonito da marina de Angra.

O nosso plano era simples, amarrar o barco, alugar uma scooter e ir fazer uns trilhos numas fajãs. Sabendo que a minúscula marina de Velas estava repleta, decidimos ficar pela Calheta, um porto sem marina, mas praticável, desde que o mar esteja calmo e não haja muita corrente. Depois de uma noite de sexta agitada (partimos à meia noite logo após um evento de Zumba na Biofeira, na Praia da Vitória), a navegar a boa velocidade apenas com a vela grande, sob um vento norte frescalhote e acima da previsão meteorológica, de manhã ainda tivemos de navegar a motor e a custo contra um vento furioso que rondara, entretanto para oeste, mesmo contrário ao nosso rumo. Entrámos na baía da Calheta por volta das 13h00 de sábado. Inicialmente, pensara em ancorar, mas como vi a maior parte do cais antigo livre e o mar estava calmo, decidi atracar ali. Reparei logo numa enorme tenda montada mesmo no meio do cais e cheia de movimento. Pouco depois aproximou-se um segurança que me informou estar ali a preparar-se, para o dia 10, as cerimónias oficiais dos dias de Portugal e da Autonomia, com a presença dos principais figurões da política regional. E que, na opinião dele, embora não tivesse ainda ordens expressas nesse sentido, o Popeye “não ia poder ficar atracado ali”.  Não dei muita importância ao assunto, amarrámos bem o barquito e fomos à nossa vida, só voltámos noite cerrada, para dormir. No domingo, a mesma coisa, saímos cedo para ir fazer o trilho da fajã da Caldeira de Santo Cristo pela serra do Topo, ida e volta. Estava um maravilhoso dia de Primavera e aproveitámo-lo bem.

Na verdade, nada de especial se passou. Nenhuma autoridade me interpelou. Ninguém falou comigo. Não tenho razões de queixa.  Mas durante o dia de domingo, via telemóvel, recebi vários recados indiretos, veiculados por velejadores da Terceira que estavam atracados nas Velas. Segundo estes, o responsável pela marina de Velas (pessoa muito simpática e correta, que conheço pessoalmente) havia-lhes dito, primeiro que eu tinha de sair cedo na manhã de segunda-feira, dia 10 e num recado posterior, que “tinha de sair de imediato”. Na ausência de contatos formais, continuei a não ligar nenhuma ao assunto e a conviver pacificamente com a luxuosa tenda na vizinhança, agora já cheia de cadeiras, microfones e equipamento de comunicação. Mantive o meu plano original que era largar na 2.ª feira bem cedo para a Terceira, pois trabalhava na terça. Larguei às 6 da manhã. Até hoje, não sei qual era a ideia. Mas não gostei das pressões indiretas para sair mais cedo do cais da Calheta. Um barco não é um automóvel que, se não estacionar aqui, estaciona acolá. Os barcos precisam de atracar em segurança nas marinas, num cais ou, na pior das hipóteses, de ancorar, desde que seja em fundos de boa tença e não haja demasiado vento ou corrente. Pago os meus impostos para poder usufruir das estruturas e serviços públicos. Também contribuo para os ordenados dos políticos. E não entendo como que é que o meu humilde veleiro poderia incomodar suas excelências ou colocar em risco a sua segurança. Querem fazer política à beira-mar pois que façam. Devem achar giro. Mas deixem os barcos em paz. Já basta o que um desportista náutico português tem de suportar, de custos, impostos, taxas, burocracia e problemas de toda a ordem, num país que é hipocritamente designado como “de marinheiros”. POPEYE9700@YAHOO.COM

BAGA POR DENTRO DA CASA BRANCA

Junho 12, 2019

Tarcísio Pacheco

 

 

 

 

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imagem em: https://www.semana.com/mundo/galeria/las-caricaturas-de-donald-trump-en-revista-semana/523606

BAGAS DE BELADONA (77)

HELIODORO TARCÍSIO   

BAGA POR DENTRO DA CASA BRANCA -  Sou completamente viciado em literatura; não durmo sem ler e transporto sempre o livro do momento na minha mochila; histórias de quem teve a sorte de crescer sem televisão até aos 15 anos; fiel leitor da Biblioteca Pública de Angra desde tenra idade, comecei a ir lá quando esta funcionava no primeiro andar da câmara municipal de Angra.

A minha última leitura é Fogo e Fúria, de Michael Wolff, obra que recomendo vivamente. Trata-se de um conhecido autor norte-americano, que escreve para publicações tão ilustres como a Vanity Fair, New York, USA Today ou The Guardian; já recebeu diversos prémios, incluindo dois National Magazine Awards; é autor de seis livros, incluindo dois bestsellers.

Com publicação em 2018, neste livro, Wolff analisa, de forma irresistível, o primeiro ano da presidência de Trump. Com acesso privilegiado à Casa Branca, Wolff conta-nos como as coisas realmente se passaram. E o resultado é de estarrecer. Sabíamos que a presidência de Trump é um circo. Mas não sabíamos que o circo era só de palhaços e animais ferozes e conspirativos, com destaque para os répteis. É sintomático que a Wolff, já muito conhecido por expor os bastidores da vida de personalidades norte-americanas controversas, tenha sido dado livre trânsito pela Casa Branca. Isso resultou da total impreparação de Trump e da sua equipa para assumir a presidência do país mais poderoso do mundo e do ambiente caótico e confuso desta presidência. Quando se aperceberam da asneira já era tarde demais. Claro que tentaram de tudo para impedir a publicação do livro, ataques difamatórios, manobras traiçoeiras, anúncios de procedimento judicial e ameaças pessoais. Mas falharam por completo, Wolff aguentou-se nas canetas, o livro foi publicado e, inclusivamente, Wolff continua ativo e no terreno, a dar entrevistas tóxicas, à CNN, por exemplo, prognosticando que a presidência Trump acabará em lágrimas. As de Trump. Temos pena.

Nesta obra fascinante, que resultou de largas centenas de horas de entrevistas no manicómio da Casa Branca, off e on the record, incluindo ao próprio Trump, Wolff traça o verdadeiro retrato desta criatura, um homem de negócios rico, bronco, ignorante, sem cultura, básico, grosseiro, intempestivo, precipitado, impulsivo, imprudente, um verdadeiro truão, com um ego descomunal perfeitamente injustificado, sem qualquer qualificação para o cargo, levado ao poder sem saber como pela América profunda, que tão bem representa e pelos círculos mais conservadores e reacionários da direita e extrema-direita, incluindo grupos neonazis. Um presidente que anuncia medidas oficiais pelo Tweeter, que utiliza diariamente o telefone para frenéticas conversas queixosas com os seus amigos e pseudo-amigos, que sofre de um complexo de perseguição e vitimização e que, para compor o ramalhete, exibe uma patética fragilidade emocional, do género “eu só quero que gostem de mim”, muito próprio de quem jamais sonhou ganhar as eleições. Só consigo lembrar-me de alguma coisa jeitosa em Trump, para além da Melania e da Ivanka; os discursos dele, tresloucados, dissonantes, dispersivos, queixosos, autoelogiosos,  sem nexo e fundamentalmente estúpidos,  acabam por ser divertidos. Ricardo Araújo Pereira ou Herman José deviam estar atentos a este verdadeiro manancial.

Num ambiente opressivo e confuso de piranhas agressivas e ambiciosas, com um ou outro Bambi ingénuo pelo meio, ficamos a saber que o fenómeno Trump foi em grande parte fabricado por Steve Bannon, um radical de direita, chefe de estratégia da campanha Trump, ex-tenente da US Navy, posteriormente financeiro da Goldman Sachs, produtor de Hollywood e rei dos media de direita, dantes classificado como “o operacional político mais perigoso da América”. Bannon acabaria por demitir-se no final do primeiro ano, esgotado pela guerra intestina contra a dupla Jared Kushner / Ivanka Trump (genro e filha do presidente) que, ao colo de Trump, sem qualquer motivo aparente e sem cargo oficial, andavam a dar ordens por todo o lado, tendo sido pitorescamente designados por Bannon como Jarvanka.  Agora, Bannon, com a sua feia papada e os seus eczemas radicais arrasta-se pelo país, com a boca no trombone, numa curiosa e doentia récita de amor/ódio por Trump. Algo como “eu fabriquei o Trump Presidente e ainda o amo, mas é impossível fazer alguma coisa de jeito daquela alminha”. Podiam ter sido tão felizes, não era, Bannon? Tanta coisa que havia ainda a fazer para lixar o ambiente e tornar a América grande de novo e feliz como sempre.

Se George Orwell fosse vivo, talvez escrevesse uma sequela, o “Triunfo dos Vermes”.

Longa vida a Michael Wolff, a ler, absolutamente. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

BAGA (A DO COSTUME)

Junho 04, 2019

Tarcísio Pacheco

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imagem em: http://blogviniciusdesantana.com/abstencao-no-brasil/

BAGAS DE BELADONA (76)

 

HELIODORO TARCÍSIO   

 

BAGA (A DO COSTUME) -  Nas últimas eleições, para o parlamento europeu, foi pior do que nunca, em termos de abstenção. A reação dos políticos dos partidos foi a saída hipócrita do costume: ficam muito preocupados com a abstenção eleitoral, consideram urgente fazer alguma coisa, prometem tirar ilações e entregar-se a profundas reflexões e meditações sobre o assunto. Se eu juntasse as vezes em que os políticos dos partidos ficam muito preocupados com a abstenção e prometem meditar sobre o assunto e tirar ilações, já dava para abrir um grande mosteiro meditativo no Tibete e a raça da ilação estaria em risco de extinguir-se. Suma hipocrisia dos políticos, eles estão a borrifar-se para a abstenção, o sistema continua a permitir-lhes o acesso ao poder e é isso que eles querem, acima de tudo. Eleitos por 10% ou por 100%, é-lhes igual, são eleitos na mesma.

Vejo várias razões para o desinteresse dos cidadãos pelo seu futuro. Mas a verdade é que os partidos políticos, sobretudos os tradicionais, do “centrão” ou “arco do poder” (uma expressão bestialmente estúpida, muito querida de Cavaco Silva), não têm, há muito tempo, nada de novo para oferecer aos eleitores. Propõe mais do mesmo, um mundo em que, sob o engodo vago e fácil do “progresso” , do “desenvolvimento económico” e da “liberdade”, se manipula as pessoas de forma abjeta; cria-se um rebanho alienado e apático, viciado em novelas, concursos, carros, futebol, moda, shoppings, fast-food, e jogos de vídeo que, na sua maioria, sai para trabalhar todos os dias, para sustentar a riqueza dos donos do mundo, um punhado de vermes capitalistas, agora já não gordos porque frequentam o Holmes e têm saunas finlandesas em casa. Os ricos agora são magros. Outros partidos, mais pequenos, vão aparecendo com mensagens diferentes, mas não é, frequentemente, nada que preste.

Acredito que os Açorianos não foram votar por vários motivos: desinteresse e desilusão com o sistema político-partidário; sentimento de impotência para alterar alguma coisa, uma vez que o sistema só admite que se vote em partidos e está firmemente blindado contra qualquer alteração; desconfiança das instituições europeias; ignorância simples, alienação, apatia, falta de educação e de cultura; falta de noções de cidadania e de participação cívica. O caso dos simpáticos e festivos Terceirenses, dos quais faço alegremente parte, é especialmente paradigmático. Tudo parece passar-nos ao lado e está tudo bem desde que seja ao som de foguetes. Quatro exemplos interessantes: a) soubemos há algum tempo que Força Aérea dos EUA andou, desde os anos 50,  a envenenar o nosso ambiente de forma nojenta e totalmente amoral, com total desprezo pela ilha que os acolheu  e que há hipóteses disso ter relação com incidências anormais de cancro; b) dependemos totalmente dos aviões para sair daqui e para receber visitantes e foi preciso andar anos a rastejar,  a ver o aeroporto de Ponta Delgada a crescer para todos os lados menos o do mar, para que os políticos se dignassem a iniciar o processo de certificação civil das Lajes, processo sempre conduzido, até agora, devagar, com incompetência e com má vontade; c) o Governo da República prepara-se para fazer o que quiser do mar dos Açores, precioso para nós, ilhéus,  aqui isolados no meio do Atlântico Norte,  sem dar qualquer cavaco à Autonomia; d) assistimos há 20 anos ao estabelecimento de um projeto político regional centralizador, com epicentro na ilha de S. Miguel, em que o mantra do “desenvolvimento harmónico” não passa de uma paródia para enganar tansos. Pois bem, tirando os políticos oposicionistas, meia dúzia de opiniosos e o Diário Insular, os Terceirenses nunca pareceram especialmente incomodados com nada disto. Não que eu não goste de festas, atenção, sou muito festeiro. Mas iria apoiar, de certeza, qualquer projeto que propusesse mandar os EUA pastar para casa, tornar as Lajes um aeroporto CIVIL, sermos nós a mandar no nosso mar e mudar a Constituição Portuguesa e o nosso Estatuto Autonómico, de forma a que passássemos a ser uma federação de ilhas com uma forma de gestão completamente diferente e uma autonomia muito mais alargada.

Desempenhando o papel de advogado do Diabo, se eu estivesse do lado do sistema, pensaria seriamente em tornar o voto obrigatório, como já acontece em outros lugares. Isso significa ameaçar com represálias severas os abstencionistas, só funciona assim. Funcionaria com a maioria das pessoas. Até comigo funcionaria. Sendo eu um abstencionista muito antigo, absolutamente convicto e ideologicamente sustentado, que jamais voltará a votar num partido político, se ameaçado, votaria. Nulo, mas votaria. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

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