BAGAS DE BELADONA (12)
Março 14, 2016
Tarcísio Pacheco
imagem em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222271/
BAGAS DE BELADONA (12)
HELIODORO TARCÍSIO
BAGA SPOTLIGHT – Quando fui ao cinema no domingo à noite no CCAH, ver O Caso Spotlight, ainda não sabia que estava a assistir ao filme que receberia o Oscar de Melhor Filme 2015. Mas sabia ao que ia. Passado em Boston, em 2001/02, o filme conta-nos como o jornal Boston Globe, através da sua equipa de investigação – Spotlight – inicia o processo que iria desembocar num dos maiores escândalos do nosso tempo, a descoberta de que inúmeros casos de pedofilia, envolvendo padres católicos na diocese de Boston, haviam sido sistematicamente ocultados, através de períodos de “baixa médica”, da transferência dos envolvidos para outras paróquias e de acordos extrajudiciais com as vítimas e seus familiares. O responsável directo pelo encobrimento, praticado ao longo de muitos anos, era o Cardeal Law, príncipe de Roma, pilar da comunidade e protagonista de apelos frequentes aos “elevados valores e ideais americanos”. A investigação da Spotlight é prejudicada porque, entretanto, acontece o atentado ao World Trade Center e tudo passa para segundo plano. No entanto, eles não desistem, apenas se detêm um pouco, depois prosseguem com a investigação e acabam por publicar um artigo devastador para a Igreja Católica em geral e para a Norte-Americana em particular. Curiosamente, para nós, uma das personagens principais, um jornalista, Rezendes, é de origem portuguesa (facto verídico, como quase tudo no filme), mais concretamente, açoriana, de Água Retorta, S. Miguel.
O escândalo subsequente forçou o Cardeal Law a demitir-se. O escândalo de Boston viria a tornar-se paradigmático e referencial. Foi um catalisador. Nada voltou a ser como dantes. Nos anos seguintes, inúmeros casos foram revelados nos EUA e um pouco por todo o mundo, incluindo Portugal. Foi um fenómeno contagioso. Muitas vítimas que, até então, estavam caladas, por vergonha, medo e uma arrasadora sensação de impotência perante o poder da IC, a hipocrisia social dominante e a conivência e cumplicidade de outras instituições, acabaram por falar.
Completamente desmascarada, acossada, a IC não teve outro remédio senão assumir as suas culpas e reconhecer as evidências. Chegou a ponto do Papa pedir formal e publicamente perdão às vítimas e seus familiares. Não posso dizer que isso seja negativo. Mas, passados 14 anos, as coisas não mudaram assim tanto. A IC continua a laborar nos mesmos erros. A insistir na historieta de que algumas maçãs podres não representam a macieira. Mas representam sim senhor. Porque sabemos que há muitos mais casos do que aqueles que vieram a público. Porque a pedofilia na IC não acabou nem vai acabar. Porque a raiz do problema está na matriz da IC. A maldade e a crueldade são próprias da raça humana. E a pedofilia não é exclusiva do clero, evidentemente. Mas a origem do problema está a montante, na forma torta, inumana, repressiva e antinatural como a IC encara o sexo e o demoniza. A IC cria os seus próprios monstros. E a investigação revelou que muitos dos abusadores foram também abusados, um factor bem conhecido da psicologia criminal.
Sou agnóstico por natureza, não sei se Deus existe e acredito que ninguém sabe. Acho que qualquer fé cega é uma atitude pouco inteligente. Mas de uma coisa tenho a certeza: não há nada de divino na IC. E mesmo um Papa diferente, como o actual está ainda muito longe do que é preciso, se a IC quiser sobreviver.
Enquanto a IC não resolver definitivamente os seus problemas e preconceitos sobre o sexo (incluindo neste pacote, o celibato, a ordenação de mulheres, a homossexualidade e a contracepção) os pedófilos vão continuar a surgir com naturalidade no seu seio. E agora ficou mais difícil esconde-los. Graças, em boa parte, à Spotlight.
