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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

OS EQUÍVOCOS DE MARANATHA

Maio 31, 2012

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM: http://www.maranathamrc.com/

 

 

Já tinha percebido que em “Maranatha” as mulheres são devolvidas à sua condição natural de fêmeas reprodutoras e ao seu sagrado papel de mães. Prolongado por muitos anos, tantos quantos os do seu período fértil pois foi dito “crescei e multiplicai-vos”.  Quando lhes secarem as trompas de Falópio, poderão sempre desempenhar o papel de avós, uma espécie de mães reaproveitadas. Nada há a temer, por todo esse tempo, os seus machos proverão o sustento da família, a menos que sejam alcoólicos crónicos ou repatriados. Mas nesse caso, entrará em acção a Caritas, para matar a fome às pessoas. Seja como for, todos se encontrarão aos domingos na santa missa, onde entoarão em coro hinos mais ou menos afinados. E se desafinarem, isso não terá importância pois perdoar é divino e nem consta que Jesus cantasse.

Também já tinha inferido, aqui há tempos atrás, que em “Maranatha” recuaríamos uns quantos séculos  e o ensino voltaria a estar nas mãos de entidades religiosas. Não fica claro quais seriam mas algo me diz que muçulmanas não (definitivamente), nem budistas, nem evangélicos nem hindus… Algo me diz que se trataria de colégios católicos e que teriam o medonho crucifixo pendurado na sala, por detrás da secretária do Mestre. “Do Mestre” porque se as mulheres, essas tentadoras, não servem para sacerdotes, também não devem dar para professores. Além disso, quem cozinharia o caldo de couves, varreria o chão do lar e limparia o rabiosque da petizada ? Enquanto os homens fazem essas coisas chatas de homens, governar, caçar, jogar futebol, beber…

Agora fiquei também a saber que o primado da razão, nascido no calor da Revolução Francesa não passa de uma série de “equívocos”…Quando olho para a história da Humanidade,  consigo ver um percurso evolutivo, do qual faz parte, indubitavelmente, a Revolução Francesa, com todos os seus excessos e até contradições. Ao decepar os alvos pescoços aristocráticos  , a Revolução Francesa cortou também com as tradições do Antigo Regime.

Passemos aos “equívocos” de “Maranatha”: “Não é óbvio que antes da Revolução Francesa só haja ignorantes”. Eu teria usado a forma verbal “houvesse” mas o cerne da questão é que no Antigo Regime, a maior parte das pessoas era mantida na mais negra ignorância e a Educação era ainda dominada pelo clero, que a usava sobretudo para se auto perpetuar,  transmitir os seus valores e… para dominar a sociedade, de parceria com as elites governantes. E já que falámos de Revolução Francesa, é justo referir que as autoridades católicas não cortavam as cabeças aos investigadores heréticos. De forma muito mais natural e até higiénica, preferiam queimá-los vivos.

“Não é óbvio que as habilitações académicas façam uma pessoa melhor”. Pois não… ainda assim, eu prefiro um malandro culto e educado. Se tiver de ser assaltado, prefiro que não me magoem e me peçam desculpa pelo incómodo, apelando para a minha compreensão. Precisamente o que está a acontecer com Sócrates e o seu Ministro das Finanças. Lá está, assaltam-nos mas são bem educados e tentam explicar-nos as suas razões, ao mesmo tempo que nos aparecem na TV limpinhos e penteados. Através de uma educação universal, aberta e imparcial, podemos, pelo menos, evitar os muitos crimes cometidos por ignorância, parente próxima do fanatismo.

“Já passaram duzentos anos e não é óbvio que os modernos tenham sido bem sucedidos”.

Dêem-lhes tempo. Os Antigos tiveram milhares de anos e não criaram nenhum paraíso, antes pelo contrário, tivemos que lhes cortar as belas cabeças para pararem de vampirizar o povo.  Duzentos anos é um grão num arrozal chinês.

A Humanidade está a mudar. Os erros ainda são muitos e não sei se vamos a tempo. Mas há muita consciência a germinar. E esta, apesar de tudo, foi semeada na Revolução Francesa e na liberdade ensaguentada que as suas guilhotinas nos legaram.

Na verdade, eu sou um reles plebeu, nascido no século XX,  que teve acesso à Educação, sem ter que vestir uma sotaina. Desenvolvi a minha capacidade de análise, o meu espírito crítico e o meu livre arbítrio. É por isso que, raios e coriscos, tenho de confessar, há coisas em “Maranatha” que me atraem. Se por lá não se aprecia esta civilização tecnológica, vazia de fé, escravizada pelas teorias neo-liberais, metida em shoppings, intoxicada pelo espírito competitivo e dominada pelos senhores do mundo que negoceiam petróleo, armas, drogas, dinheiro, poder e influência, então, contem comigo. Isto é, se prometerem que não me crucificam e que não tentam converter-me, pois a minha curiosidade faz-me manter aberto a todas as verdades que me aparecem pela frente. Daí ser inconversível.

Agora, se em “Maranatha”, eu puder passar os dias, com tempo aprazível, sem alterações climáticas, vestido com uma simples toga branca por cima de uns boxers, vagueando placidamente, de praça pública em praça pública, sem horários,  a discutir filosofia e depois houver alguém que, na hora da refeição, me sirva uma sopinha, uma frutinha, um iogurte,  sem me exigir que trabalhe, então, meus caros, “Maranatha” é bom e eu quero mais. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

HAJA VERGONHA! (JÁ QUE NÃO HÁ ÉTICA E MUITO MENOS PSICOLOGIA)

Maio 31, 2012

Tarcísio Pacheco

 

IMAGEM: http://ehmarinho.blogspot.pt/2012/03/afinal-o-que-e-pedofilia.html

 

Nunca comentei qualquer artigo do Padre Caetano Tomás na Imprensa local, apesar da sua produção intensiva. Senti-me tentado, há tempos, quando ele escreveu sobre essa magistral obra, O Código Da Vinci  mas, na altura, faltou-me tempo e a oportunidade passou, embora não definitivamente.  Nos últimos tempos, os temas que o bom do sacerdote tem abordado, o Ano Paulino, a inspiração divina dos padres e a defesa da ortodoxia católica, não me despertam qualquer interesse nem provocam o meu espírito crítico.

Todavia, isso mudou, desde ontem,  4 de Maio, dia em que o Pe. Tomás publicou um artigo sobre a pedofilia na Igreja. Respeito o homem e sua provecta idade mas o vomitório com que ele nos aspergiu nesse artigo, não ficará sem resposta adequada. Tanto mais que este sacerdote tem especiais responsabilidades, já que, embora “reformado”, sempre se reclamou da condição de “psicólogo” e desempenhou esse papel junto da comunidade, durante imenso tempo, até chegarem os verdadeiros psicólogos. E quase todos os dias nos aparece a escrevinhar em ambos os jornais locais. Não sabemos se o curso de psicologia do Pe. Tomás foi tirado no âmbito de algum retiro pascal num colégio romano. Mas podemos ver o mau uso que faz dele.

Neste incrível artigo o Pe. Tomás faz questão de, bastas vezes, nos afiançar que não aprova a pedofilia nem a desculpa. Talvez por sentir a consciência pesada. Mas, na verdade, todo o seu artigo, do princípio ao fim, é um claríssimo discurso de desculpabilização, da Igreja Católica, dos padres pedófilos e, pasme-se, até dos próprios pedófilos em geral.

Para começar, já é tempo da alguém desmontar a história da “formação reactiva”, com que ele nos brinda amiúde. Não sou psicólogo mas informei-me sobre o assunto. O conceito existe e trata-se de um bem conhecido mecanismo psicológico de defesa. Esse mecanismo substitui comportamentos e sentimentos que são diametralmente opostos ao desejo real. Trata-se de uma inversão clara e, em geral, inconsciente do verdadeiro desejo. Até aqui, tudo certo. O problema é que o Pe. Tomás, pensando que somos todos tolos, lá do alto da sua cátedra de Psicologia, manipula descaradamente este conceito, para justificar os seus preconceitos e as suas ideias feitas. Nesta linha, segundo ele, neste caso exemplificando a respeito de quem luta activamente contra os vícios do fumo e do álcool “(…) passado algum tempo, tais pessoas aparecem a fazer o que combatiam. Por exemplo, fumar desalmadamente (…)”. É claro que com esta esperteza saloia, ninguém escapa, ninguém pode combater seja o que for, porque não passará de um pobre viciado em qualquer coisa,  que sublima assim as suas próprias baixezas. Bom, não vejo porque não hei-de, muito cristãmente, dar uma ajudinha ao Pe.Tomás e alargar ao infinito este conceito tão operativo. Hitler, provavelmente, tinha o secreto sonho de ser judeu, usar umas melenas esquisitas, dançar no seu bar mitzvah e ser dono de um banco inteiro; teve azar, só chegou a cabo na tropa, acabou com aquele bigodinho ridículo e recebeu guia de marcha para o Inferno, onde deve encontrar-se ainda. Martin Luther King nunca nos falava dos sonhos que realmente ele tinha, de ser branco, louro, de olhos azuis e de fazer um filho ilegítimo à mocinha negra que lhe engomava a roupa lá em casa. E finalmente, porque não, todos esses padres que arengam pelos templos, condenando o preservativo e a pílula e apelando à castidade, lá bem no fundo, estão loucos por uma orgia sexual, onde possam cevar os baixos instintos que secretamente os torturam. Eu sei que isto é radical, mas que posso fazer ? É a tirania da “formação reactiva”. Eu próprio, que ando envolvido numa cruzada contra a pedofilia,  um dia destes, assumo os meus demónios e entro ali pelo  Colégio de Santa Clara dentro, para fazer estragos.

Por falar em tirania, que tal a dos números ? Se todos os pedófilos do mundo fossem padres, seria muito grave. Mas parece que a relação anda abaixo do 1%. Ah, assim é outra coisa, só de vez em quando é que um miúdo é papado por um padre, não é todos os dias. Por falar, em miúdos, está na hora de nos referirmos às “vítimas”, que o Pe. Tomás fecha entre aspas. A coisa não lhe cai bem porque “(…) até andam na TV, com grande publicidade”. Mas, com quem queria o Pe. Tomás que as pobres vítimas fossem falar? Queria que procurassem um padre?! Isso seria como dizer à minhoca infeliz que fosse desabafar com um pescador. Ele diz também que nas suas actividades religiosas, nunca encontrou “(…) as «tragédias» que se dizem por aí”.  É estranho, por uma incrível coincidência, terá o Pe. Tomás lidado sempre com uma espécie peculiar de vítimas light ? Que só precisavam de “uns diálogos repetidos” para viverem felizes para sempre ? Ou quem sabe, se ele tivesse passado pelo azar de ser sodomizado debaixo de uma batina negra lá nas Flores da sua infância, teria o mesmo discurso mole acerca da “tragédia” ?

Mas o pior ainda está para vir. O Pe. Tomás demonstra uma infinita compreensão pelos rapazes florentinos mais velhos que, em época sem “grande acesso a mulheres”, recorriam a rapazitos de escola. Ele conheceu bem uns e outros. Curiosamente, essas vítimas, que na altura não tinham direito a TV nem a aspas, não apresentaram nunca “qualquer problema psicológico”. Enfim, são pormenores etnográficos pitorescos, lá da ilha das Flores, não me compete analisar isso.

E  então, as “vítimas” que aparecem na TV ? Ah, essas são mediáticas, “querem receber dinheiro”. Parece que a pedofilia é lucrativa como notícia. Mas, para ser justo, o Pe. Tomás, reconhece que alguns apresentam “expressões neuróticas”, embora seja de pensar-se que “tais expressões tenham outra origem”. Pois, com certeza, talvez uma doença de pele, daquelas que dão comichão ou um caroço de nêspera acidentalmente engolido. Essas coisas acontecem.

E a propositada confusão entre pedofilia e homossexualismo ? Qualquer psicólogo, com curso por correspondência, sabe que o único ponto de contacto é que uma grande parte dos pedófilos é homossexual. E acaba aí. Pedofilia é uma perversão, doentia, gravíssima e juridicamente incriminatória, especialmente agravada quando os protagonistas são educadores. Homossexualismo, na actualidade,  é apenas um comportamento sexual, uma opção individual e mais nada. Como ninguém é tão burro assim, só posso concluir tratar-se de malícia pura.

Talvez a cereja no topo do bolo seja a afirmação de que “também há crianças que provocam”. O Pe. Tomás até “conhece casos”. Se calhar, é tempo da sociedade rever os seus conceitos nesta área. Não sei se é justo fazer recair todo o dolo sobre o pedófilo. Quer dizer, vai um bacano pela rua, descansado, a fazer a sua vida, e dá com um rapazinho esquisito a fazer-lhe olhinhos e sinais duvidosos. Estão à espera de quê ?! Um homem não é de ferro, mesmo que já tenha ido a pé a Fátima…Não sei mesmo se não haverá aqui matéria para legislar sobre cumplicidade no crime. E, consciencioso, o Pe. Tomás ainda alerta para o extraordinário perigo das crianças “esclarecidas em educação sexual”. São os piores, são os piores, sabem-na toda… Provavelmente, só a este respeito é que o Pe. Tomás pode ficar descansado. Há mais de 20 anos que Portugal anda a tentar implementar uma educação sexual séria nas escolas e ainda estamos praticamente a zero. Entretanto, as crianças vão engravidando, contraindo SIDA e, claro, seduzindo os inocentes adultos das redondezas que lhes caem na rede.

Isto tudo pode parecer complicado. Mas nada como uma  mente brilhante e um psicólogo genial, para reduzir as coisas ao seu verdadeiro nível. Por detrás de tudo, está “uma cruzada nitidamente apontada” para o Papa e os seus Bispos,  infelizes e perseguidas criaturas, essas sim, verdadeiras vítimas sem aspas. E, por outro lado, há a questão das “(…) relações complicadas com a figura paterna. E por outro, com a materna (…)”. Terei que perguntar ao meu pai, em Junho, quando ele vier do Canadá, de férias, porque sou assim. E depois, metemo-nos no meu barco e vamos pescar, como de costume. E, mais tarde, vamos grelhar o peixe na brasa, devorá-lo, regar tudo com um bom tinto e ficar a conversar pela noite dentro.

Parece que a ETAR da Atalaia cheira mal. Mas há coisas que cheiram pior. Haja vergonha. E cursos de Psicologia.

Este texto foi escrito e enviado para publicação a 5 de Maio.

POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 

 

DESCONTROLE E MOTIVAÇÃO NA CLASSE MÉDICA

Maio 30, 2012

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM: http://confessium-mandrag.blogspot.pt/2010/10/dia-do-medico.html

 

 

Esta manhã tive um súbito acesso de solidariedade. Não tenho nada de santo e se vivesse em Calcutá, como Madre Teresa viveu, provavelmente fazia a minha vidinha, trabalhava, jantava fora, namorava uma atriz de Bollywood, jogava um críquete e não ligava nenhuma aos deserdados da sorte. Mas, de vez em quando, sinto genuína pena dos que sofrem, como no caso do recente tsunami no Japão. Esta manhã calhou-me sentir pena dos médicos, coitadinhos, que têm sido vítimas de feroz perseguição, pela parte da tutela, chegando a ser tratados como cães.

O Dr. Adriano Paím, diretor do Serviço de Cirurgia do Hospital de Angra do Heroísmo, defende publicamente que os médicos controlados podem desmotivar-se. Naturalmente, pelas regras da boa Lógica, posso daqui inferir a preposição contrária, que os médicos precisam de estar descontrolados para se motivar.

Arrepiou-me sobremaneira saber que um médico desmotivado pode não atender o telefone ás 3 da madrugada. Entendo perfeitamente, eu também prefiro estar a dormir ou a fazer amor com a minha amada a essa hora. Mas, na minha simplicidade de raciocínio, quer-me parecer que, se um médico não atende o telefone ou telemóvel às 3 da manhã (ou os desliga, o que dá no mesmo na prática), está, de alguma forma, a trair o seu juramento de Hipócrates.  Não sabemos se Hipócrates era de confiança nem se o seu juramento não foi apenas uma peça de concurso a uns Jogos Florais ou algo do género, uma  coisa bonita de se dizer  mas meia vaga, generalista e pouco sincera… E  eu sou um leigo na matéria mas, arriscaria a dizer que  vai ser pouco saudável para um acidentado, para um  tipo que teve um AVC ou para um hospitalizado que piorou repentinamente, que o médico de que ele urgentemente precisa, esteja em casa, desmotivadíssimo, a dormir profundamente na sua caminha e não atenda o telefone…Há aqui qualquer coisa que não joga…

Há pessoas que abraçam a carreira da Medicina por genuína e intrínseca motivação. Não me parece que deva ser por qualquer outra razão. É por isso que defendo que a habilitação para o acesso aos estudos médicos não deve assentar apenas nas notas da escola. Essa cretinice, com explicações bastante maliciosas, faz com que estejamos sempre à míngua de médicos e tenhamos que importá-los da Espanha e da Colômbia,  onde não são recrutados, necessariamente, entre os marrões da escola. Encontramos frequentemente maus médicos em Portugal e todos tiveram altas notas. Infelizmente, há muita gente que escolhe Medicina pelos proventos materiais e pelo status social. E, como se acham uma classe à parte, intocável até bem recentemente, num Portugal pacóvio, corrupto e atávico, esperneiam e vociferam,  quando se começa a colocar em causa aquilo que eles consideram justíssimos privilégios de classe. Como não serem sujeitos a qualquer controle, por exemplo. Aparentemente, isso fá-los sentir motivados, o que não deixa de ser curioso. E eu a julgar que a desmotivação do trabalhador português tinha sobretudo a ver com os baixíssimos salários e o fraco poder de compra…Sabendo que o controle biométrico é uma realidade do mundo do trabalho e está presente atualmente por todo o lado, nas empresas, nos serviços públicos, agora entendo porque os trabalhadores andam tão desmotivados. Pensar que o patrão, o chefe, a tutela, vão saber, todos os dias, exatamente quando chegámos ao trabalho ou o largámos, é realmente de desmotivar qualquer um…Com efeito, antes era bem melhor. Chega-se quando se chegar, parte-se quando se partir. Tem alguém à espera ? Pois que espere sentado e confortável, para isso é que existem cadeiras e ar condicionado. Ai que saudades dos velhos tempos…”O Sr. Doutor já chegou? Não, ainda não chegou… Mas já são 16h e a minha consulta era às 14h…Tenho coisas a fazer, o Sr. Doutor não poderia cumprir o horário? Não senhor, não pode, senão fica desmotivado, cumprir horários é para operários fabris e pilotos de linha aérea. Ah tá bom, obrigado, entendi, só mais uma coisinha, não tem nenhuma revista deste ano?”.

Na minha opinião, só se pode ser médico (a propósito, não estará na altura de mudar esse designação para “técnico de saúde”…?) por sincera vocação, desde que se garanta que pessoas sem o perfil indispensável não chegam lá, mesmo que tenham altas notas. É preciso muito mais que ser inteligente e bom aluno. Um médico tem de ser devotado à sua profissão, aceitar de boa fé as suas condicionantes e caraterísticas únicas. Tem de ser compassivo, solidário, empático e, sobretudo, muito disponível. Tem de ser emocionalmente muito forte e estruturado, para poder lidar da melhor maneira possível com o sofrimento das pessoas e com a dura realidade da morte. Se um médico se sente desmotivado, colocando assim em risco a vida e saúde dos seus pacientes,  porque o sistema que lhe paga quer saber a que horas ele entra (e sai, já agora), então se calhar devia pensar seriamente em mudar de profissão. Não digo ir para operário mas, quem sabe, talvez para gestor de uma fábrica de pregos. Ser piloto de aviação civil também dá muito dinheiro e status. A farda é bonita e chama a atenção. Mas a TAP precisa de saber a que horas chegam os pilotos e por onde andam os aviões. É chato mas tem de ser.

Diz ainda o Dr. Adriano Paím que tem um serviço motivado e controlado por ele próprio. Dou-lhe os meus sinceros parabéns. Mas será defensável que a gestão de horários e a assiduidade dos trabalhadores sejam controladas por uma pessoa ? O Dr. Adriano Paím pode até ser um gestor muito eficaz mas não é eterno. E se lhe aparece a prima Alzheimer aos 63 anos ? E pode garantir que o seu sucessor tenha a mesma eficácia, rigor e capacidade de motivação? É claro que não.

Com estas declarações, o Dr. Adriano Paím, independentemente da sua competência técnica, que desconheço, não vêm ao caso e, de qualquer forma, não poderia avaliar, vem mostrar, com evidência, o que NÃO deve ser um médico dos nossos dias. Nesse sentido, as suas declarações são muito úteis. Muito obrigado. Felizmente, não são todos assim. Recentemente, um conhecido médico de Angra (muito obrigado por aquela simpática boleia na Graciosa, há muitos anos), abordou-me na rua da Sé para me cumprimentar pelo meu artigo “Sr. Doutor Bobi?” e para me dizer que concordava inteiramente comigo. O que me tranquiliza minimamente é que também há médicos destes. POPEYE9700@YAHOO.COM

CALDEIRADA DE BUGALHOS

Maio 29, 2012

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM:  www.correiodeuberlandia.com.br 



Este fim de semana andei somenos, um bocadinho aborrecido. Devem ter sabido que a Juliana Paes (sim, a minha Jujuzinha), se descascou toda nos primeiros episódios de “Gabriela”… Que teimosa, ela tinha-me prometido que não fazia, é mesmo a mãe escarrada...Brigámos, claro e foi feio. Mas já fizemos as pazes e ela disse-me que o dinheiro extra é para irmos de férias às Maldivas, enquanto aquilo não é só para mergulhadores e o avião tem onde aterrar. A propósito, isto das alterações climáticas anda terrível…há países insulares que podem desaparecer, não consigo ir à praia, há touradas que têm sido canceladas e a roupa não me seca…

Mas não é isto que me trouxe aqui hoje, foi só um desabafo. Abri o postigo por vários motivos. Recentemente, li em “A União”, um artigo pobrezinho, sobre o divórcio, da autoria de um professor e investigador de História, que necessita, urgentemente, de diversificar as suas fontes. Ele ficou-se pelo jornal Le Monde que é, como todos sabem, a autoridade mundial ao nível das relações sociais…Nesse artigo, este “investigador” pretende, claramente, insinuar e deixar no ar uma série de “verdades” dogmáticas, que não escondem o desejo de regressar a uma sociedade aprisionada por normas e regras fabricadas e impostas à força…Por exemplo, que o casamento monogâmico é indissolúvel por natureza (?) , que o amor não deve ser livre, que o divórcio significa solidão, que a procura da felicidade e do amor é perversa, que os filhos servem para cuidar dos pais na velhice, que é melhor ser uma doméstica no meio rural,  que as mulheres urbanas com uma carreira activa estão lixadas porque são sempre abandonadas e que a “família tradicional unida” é a única que verdadeiramente satisfaz o espírito humano… Bom, só se for o espírito dele…Já escrevi muito sobre este assunto, por isso, agora direi apenas que o casamento monogâmico e indissolúvel não tem nada de natural, pelo contrário, é uma criação humana, que tem variado bastante, no tempo e no espaço geográfico e cultural. O amor deve ser livre, como tudo na vida, limitado apenas pelo sentido de responsabilidade e pela protecção legal da integridade física, psicológica e emocional das pessoas e dos direitos dos menores. A solidão é um problema das sociedades desenvolvidas da atualidade, que extravasa por completo a questão do divórcio, estando pelo lado negativo ligado ao egoísmo individual e à falta de solidariedade social e pelo lado positivo ou, pelo menos, neutro, à mudança espontânea dos parâmetros sociais, no que respeita a critérios de conforto e felicidade. Os filhos não “servem” para cuidar dos pais, não são um investimento; um filho bem formado, de bom caráter, fá-lo-á com naturalidade, se for preciso; de resto, que tem isso a ver com divórcio? Pais e filhos são-no para sempre, suceda o que suceder. Há menos divórcios nas comunidades rurais porque, nestes lugares, se seguem ainda, muitas vezes, modelos sociais arcaicos e as pessoas têm menos educação, cultura, informação e autonomia, especialmente as mulheres; é só por isso que elas se divorciam menos. É impensável que, nas sociedades desenvolvidas de hoje, a mulher não seja colocada exatamente ao nível do homem, em todos os aspetos, salvaguardando apenas as particularidades da sua diferença natural, no que diz respeito aos períodos de gravidez, pós-parto e amamentação. São, por isso, de evitar, quaisquer insinuações sub-reptícias no sentido de relegar as mulheres para a sua condição atávica de fêmeas e reprodutoras sob a alegação que correm o risco de “ser abandonadas”…

Este senhor investigador talvez se desse bem em países como o Afeganistão, onde as relações sociais se estabelecem pela tradição e pela lei do mais forte. Mas, mesmo aí, a lei islâmica prevê o divórcio, embora seja infinitamente mais fácil para o homem, claro.

Mudando de assunto, corre por aí no facebook, a notícia de que a senhora diretora do FMI não paga impostos sobre o seu chorudo vencimento anual e teve o descaramento de mandar os gregos pagar os seus impostos…Não sei se é isto é exatamente assim quanto à primeira parte da acusação, corre muito boato pelo facebook mas… diria que não me custa nada a acreditar…há muito tempo que percebi que esse gente que nos impõe austeridades, diminuição de salários, aumentos de impostos e taxas, que aprova coimas no âmbito do Código da Estrada que COMEÇAM em valores superiores ao ordenado mínimo nacional, é tudo gente muito bem servida na vida, que ganha muito bem, que quase não dá por crise alguma abaixo de uma guerra mundial e que, por isso, não hesita em aprovar medidas “difíceis”…Recentes notícias tem-nos revelado que os políticos praticamente nada sofreram com a crise e que até aumentaram de rendimentos nalguns casos, graças a manobras maliciosas. O que me deixa verdadeiramente atónito é a apatia masoquista das populações… o que é preciso fazer-lhes para acordarem? Safa, que o povo é bem ignorante…

Fui surpreendido na semana passada com a cruel notícia de que o senhor Padre Caetano Tomás já não ia ser condecorado, graças a uma intervenção do Bloco de Esquerda. Embora totalmente alheio ao facto, tenho opinião sobre este assunto. A razão para atribuir uma condecoração ao Padre Tomás tinha a ver com a forma como se destacou na comunidade, em diversos níveis. Ou seja, o Padre Tomás tornou-se uma figura pública e, durante muitos anos, sempre que era necessária uma opinião na área da psicologia, era ele o requisitado. Isto durou anos a fio, até aparecerem os verdadeiros psicólogos. Além disso, ele teve sempre e continua a ter, o seu púlpito permanente em “A União”. Ora, ser figura pública implica que tudo o que se diz é lido ou escutado com atenção. As figuras públicas tem público. O que eles pensam e dizem tem impacto. Esta é parte boa. Por outro lado, se dizem disparates, têm que arcar com os custos. Essa é a parte má de ser mediático. Ministros importantes têm sido sumariamente demitidos por gracinhas tontas e impensadasem direto. Opadre Tomás deve ser responsabilizado por aquilo que escreveu. E ele desculpabilizou (não defendeu, claro) publicamente a pedofilia em geral e a pedofilia no seio da igreja católica em particular, com argumentos como “o acesso difícil a mulheres” e “ haver crianças que provocam”…Não é preciso mais que isto, só por aqui ele já teria perdido o direito a condecorações. Palavras idiotas fazem cair ministros, estragam carreiras políticas (nunca me engano, o desemprego é uma oportunidade, etc) e… lixam condecorações. Com isto, terá estragado o reconhecimento de uma vida inteira de doação aos outros? Talvez e temos pena mas a vida é assim. E esse artigo dele era mesmo um vómito, não devemos ter medo das palavras. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

 


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