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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

O SISTEMA

Março 01, 2011

Tarcísio Pacheco

 

 

imagem: http://expresso.sapo.pt/manifestacao-geracao-a-rasca-chega-ao-rossio-com-mais-de-200-mil-pessoas-fotos-e-video=f637298

 

 

Pobre povo português… tão inculto, ignorante, inconsciente, desinformado, tão inerte…

Quando penso na situação atual do nosso país, lembro-me de Dias da Cunha, antigo presidente do Sporting Clube de Portugal. Na época do seu exercício, era comum vê-lo a denunciar a existência de um “sistema” no futebol, uma organização sombria e tentacular, agindo no mundo do futebol profissional  e que estava por detrás de numerosos crimes de corrupção, passiva e ativa, de subornos, de tráfico de influências e de tentativas de manipulação do fenómeno desportivo em benefício de determinadas equipas e em prejuízo de outras. Na altura, Dias da Cunha não tinha muito crédito e riam-se dele, não só porque o Sporting já tinha iniciado a descida que havia de o levar, inexoravelmente, ao profundo abismo em que se encontra agora, mas também devido aquele ar vagamente alcoolizado, de nariz apimentado e voz entaramelada , que ele exibia em permanência. O caso é que, algum tempo depois, os factos deram-lhe razão. Veio o processo Apito Dourado e a caldeirada  que todos conhecemos, dinheiro a rodos, relógios suíços, viagens e meninas que faziam companhia.  Existia mesmo um “sistema”, do qual as faces mais visíveis, mas não únicas, eram Pinto da Costa e o clã Loureiro. Lavou-se muita roupa suja, os media deliraram com o tema e, no fim, a montanha pariu um rato, como de costume, muito por culpa da medíocre justiça portuguesa.  Pinto da Costa por cá anda, contente da Silva, um pouco mais velho, já que há coisas que nem ele consegue manipular. Depois de uma efémera passagem pelos braços da legítima, acabou de conhecer a sua segunda sogra brasileira. E sobre esta matéria cor-de-rosa já me calo, o Cláudio Ramos estará muito melhor informado do que eu, felizmente

A questão é que no nosso país existe um outro “sistema”, este muito mais grave, porque mexe com os interesses de todos nós e não só da tribo do futebol. Este “sistema” foi-se instalando devagarinho, depois do 25 de Abril, depois de passada a euforia revolucionária, em que coisas realmente grandiosas se passaram e alguns homens mostraram o seu melhor e o seu pior. Isto de derrubar um governo e conquistar um país com cravos a entupir as espingardas e uma frota de tanques que parava nos sinais vermelhos de Lisboa, é de morrer a rir , por um lado mas, por outro é profundamente comovente e bem português. Foi uma revolução à Raul Solnado. Regressada a soldadesca aos quartéis, secos os cravos vermelhos, acabaram-se os idealismos e, pouco a pouco, as ideologias foram cavando a sua própria sepultura, ao longo do processo, muito mais prático e complicado, de construção de uma sociedade que, dizia-se, seria democrática, livre e justa.

Passados todos estes anos, a sociedade portuguesa será, talvez, democrática, nos princípios mas não o é na sua prática. De forma insidiosa mas segura e imparável,  foi-se montando um sistema que foi contaminando toda a vida pública da sociedade portuguesa, como se de um envenenamento por chumbo se tratasse. Montaram-no os políticos portugueses, especialmente os dos partidos social-democrata e socialista. Esta não é uma visão partidária já que, nesse aspeto, sou profundamente democrático. Desprezo, por igual, todos os partidos. Refiro-os porque, inegavelmente, estes partidos dominaram a actividade política nacional, desde o 25 de Abril até aos nossos dias.  Os partidos do poder e os seus líderes, deputados, primeiros-ministros, governantes, presidentes da República, presidentes de Câmara e de juntas de freguesia, todos esses, uns com maiores responsabilidades do que outros, criaram o Portugal que temos hoje, no início do século XXI: um país de corruptos, de analfabetos, de ignorantes e incultos, com uma agricultura arrasada, uma fraca pecuária, uma pesca que vive dias de amargura, uma indústria na bancarrota, um comércio falido e uma sociedade pobre e exaurida. O sistema assenta na exploração da maior parte da sociedade portuguesa, que aufere baixíssimos salários e é sobrecarregada com impostos e taxas, que uma maquiavélica administração fiscal refina e alarga cada vez mais. O sistema foi montado para beneficiar os políticos e os seus amigos, familiares e parceiros, que são empresários, banqueiros, juristas, manda-chuvas de toda a ordem. É por isso que, enquanto a maior parte da população ia vegetando, ia-se “desenrascando”, muito à portuguesa, grandes fortunas foram crescendo e todo o tipo de esquemas e fraudes se foram montando, sob uma aparência “democrática”. Foi-se montando assim o país dos elevados vencimentos dos políticos, das reformas douradas, das negociatas obscuras, da destruição da costa portuguesa pelos lobbies da construção civil, da escravização das pessoas aos lobbies da indústria automóvel e petrolífera, do cortejo interminável dos amigos dos políticos e dos ex-políticos colocados em empresas públicas com ordenados principescos, dos submarinos de Paulo Portas .Lá de vez em quando, a Justiça faz de conta que funciona, para manter as aparências e homens como Dias Loureiro, Isaltino de Morais, Amando Vara e outros “inocentes” que tais, saltam para a ribalta. Mas, inevitavelmente, as coisas acabam por se acalmar, até porque há muitas manobras que o permitem, com a conivência do nosso sistema judicial. Isto funciona porque o povo português, como se soube recentemente, conta com a maior percentagem de analfabetos da Europa e é tradicionalmente amorfo, inerte, desinteressado e fácil de enganar. É com essa apatia que os políticos contam, para continuar a desenvolver os seus esquemas. É claro que o povo português não é estúpido, de uma forma geral. Mas é crédulo e relaxado e, mesmo quando se apercebe das maroscas  (graças ao poder atual dos media), reage preferencialmente de duas formas: desinteressa-se e concentra-se em sobreviver e “desenrascar” a sua vida ou, tenta perceber como pode, ele também beneficiar dos esquemazinhos e ganhar a “sua parte”. E assim vai andando a democracia portuguesa, quase dez milhões a trabalhar para sustentar uns poucos milhares de chicos-espertos.

E como pouco foi feito, ao longo do todo este tempo, para educar a população e desenvolver material e socialmente o país, quando este bate no fundo, por sucessiva administração danosa, os políticos, mentirosos e pérfidos, fingem que estão dispostos a reformar e têm o cinismo de baixar salários que sempre foram baixos e que há muitos anos vinham a ter aumentos praticamente nulos ou falsos e aumentam a carga fiscal, que já era uma das mais pesadas do mundo. Recusam a intervenção do FMI, apelando, com toda a hipocrisia ao orgulho nacional, quando, na verdade, sabem que esse último recurso, que cada vez mais reputados especialistas em economia classificam como inevitável, muito provavelmente os derrubaria do poleiro.

Hoje, 9 de Março, a minha última esperança chama-se 12 de Março. Que esse movimento, com origem em estudantes sem futuro, recém-formados sem emprego e desempregados  de todos os tipos possa capitalizar  o descontentamento que grassa no país e possa, finalmente, levar os portugueses a protestar em força, mostrando que têm capacidade crítica, amor próprio e que não têm sangue de barata.

Não sei que sistema pode funcionar. Mas tenho a certeza absoluta que este não presta para nada. De um ponto de vista civilizacional e filosófico, acredito num sistema completamente diferente, sem partidos políticos, sem políticos profissionais, sem barões . Mas o mundo ainda não está preparado para isso. Por ora, basta-me acreditar que, para criar um mundo novo, é preciso destruir o velho. É um processo de renovação, só aparentemente é mau. Para instaurar a democracia possível em França (um dos países mais democráticos do mundo – veja-se o problema atual de Jacques Chirac…), foi preciso o povo revoltar-se e cortar o pescoço aos aristocratas do mundo que então se extinguia… Se fosse eu a Sócrates, nos próximos dias não saía muito de casa e, se saísse, andava com uma coleira daquelas das operações à coluna. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

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