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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

MEUS QUERIDOS INIMIGOS

Abril 20, 2010

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM: http://valruas.wordpress.com/2012/09/26/inimigos-queridos/

 

 

Como pessoa excelente que sou, até aos meus queridos inimigos gosto de fazer um mimo. E então, para aqueles que são atacados de ardências estomacais cada vez que têm de ler os meus cáusticos artigos, posso vir a ter boas notícias, a médio prazo. Pode se que esteja para breve a minha partida, o fim do meu longo ciclo açoriano. Talvez vá fazer a trouxa e zarpar, dar de frosques, arejar as ideias, pôr o pé na estrada. “Hit the road,  Jack”. Já estou a ver o economista super católico João César das Neves a suspirar de alívio, finalmente livre de um adversário deste calibre, agitador, vagamente esquerdista, totalmente apolítico, livre pensador, relativista, defensor dos casamentos gay, inconversível, com ideias no mínimo esquisitas, um crítico acérrimo da Santa Madre Igreja e um descrente dos Três Pastorinhos, que viajou muito mas nunca pôs os pés em Fátima e só guardou uma imagem do Papa: aquela em que um cartoonista inspirado e com sentido de humor retratou João Paulo II com um preservativo enfiado no narigão.

Já foi bom viver nos Açores e ainda é interessante. A minha família, os meus filhos e a maior parte das minhas memórias são açorianas. Amo os Açores e estou convencido que os cagarros me conhecem e até me viriam bicar a mão se lhes oferecesse peixe ainda a saltitar. Mas os Verões já não são o que eram. Até os meteorologistas estão intratáveis. Há cada vez mais nuvens no horizonte e são muito escuras. Podem mesmo ser de trovoada… Não há peixe no mar e no futuro será cada vez mais peixe de plástico proveniente da aquacultura. As touradas à corda estão cada vez menos interessantes, resumindo-se a um touro que corre para trás e para a frente, num arraial cheio de muros altos, para resguardar as piscinas dos olhares alheios, de taipais cada vez mais elaborados e hostis e de gradeamentos com o aviso “cuidado com as setas”. Na maior parte do tempo, tudo o que se pode ver é os capinhas a andar de roda com o animal, uma cena que se torna rapidamente muito aborrecida, de tão repetida. Cada vez há menos eventos interessantes, algo para o animal marrar e partir, um muro baixo para ele saltar ou assomar o focinho e assustar as senhoras. O “64” do Humberto Filipe confirmou a crença de que os bons morrem mais cedo. O resto da  tradição mantém-se, a ida ao mato, o foguetório, a emoção no ar, o colorido e o pitoresco, as tascas, as bifanas, as frescas, os amigos, os homens dos cestos e o pregão do Isbá. Mas para quem pode comparar com o passado… está tudo muito diferente, para pior…
Ninguém pode já com o nosso 1.º Ministro, o Eng.º Pinóquio. Nem ninguém entende como é possível desenvolver a economia de um país em que os seus cidadãos têm cada vez menos dinheiro para gastar. Ou como se pode esperar um bom desempenho de trabalhadores a quem se pede que trabalhem cada vez  mais tempo e de forma mais competente por menos dinheiro e menos regalias. Ou como se pretende mão de obra qualificada e empenhada, por baixissimos salários e uma acção de formação de dois em dois anos.

Na cidade de Angra do Heroísmo, cada vez mais entupida de trânsito automóvel, mais feia, barulhenta e poluída, ficámos a saber que as suas autoridades municipais não tencionam tomar qualquer medida nesse campo. Isto porque ainda comungam da cabotina ideia de que muitos automóveis a circular é sinal de progresso e bem-estar. Faz-lhes falta um passeio em Jakarta em hora de ponta. Para alguém como eu, que tem frequentes alucinações em que sonha com uma cidade livre de automóveis, percorrida a toda a hora, desde S. Bento a S. Pedro por um moderno, rápido, silencioso e ecológico comboio, talvez esteja mesmo na hora de ir embora. O mundo é muito grande, há muito para ver. E todos os dias morre gente por aqui, que cada vez é mais da nossa idade, coitada, e isso é muito mau sinal.

Mas a gota de água acho que foi mesmo a história dos aviões de combate americanos e dos seus treinos no mar dos Açores. Fiquei arrepiado com as opiniões de cidadãos praienses, sobre este assunto, que ouvi na rádio. “Que venham os aviões de guerra, se isso for uma mais valia para o nosso concelho”, foi a nota dominante. Mais valia ? Num mundo que se pretende cada vez mais pacífico, ainda se insiste em equilíbrios de terror em que quem tem as melhores máquinas de matar é que mete mais medo e ganha. A única mais valia é para os fabricantes de material militar e de armamento, um dos lobbies mais poderosos dos EUA e do mundo.  Se ter aviões de combate a largar bombas no mar à nossa porta fosse bom, então os americanos fariam isso ao largo das suas extensas costas marítimas. Os praienses querem contrapartidas ? Reivindiquem cooperação e parcerias  nos  domínios científico, cultural e recreativo. Aviões de combate não são bons para ninguém, a não ser para quem os vende….

Ná, isto está a ficar feio. Talvez esteja na hora dos ratos começarem a abandonar o navio. E Rato é o meu signo chinês. Um Rato Sagitário, que gosta de viagens e aventuras.

Meus queridos inimigos, dar-vos-ei boas notícias, tão cedo elas sejam do meu próprio conhecimento. Aguardem sem impaciência. POPEYE9700@YAHOO.COM

DOUTOR BOBI

Abril 15, 2010

Tarcísio Pacheco

 

IMAGEM: http://www.kimballstock.com/results.asp?db=a&image=DOG+03+RK0481+01

 

 

Fiquei deveras surpreendido ao abrir o Diário Insular de 5 de Abril e deparar com declarações do presidente da Ordem dos Médicos nos Açores, a respeito da entrada em funcionamento do serviço biométrico no Hospital de Angra. O meu limitado inteleto não acompanhou os raciocínios dele. Não admira, ele deve ser médico, doutro universo, um crânio, eu não tive médias de 18 e 19 no secundário. Diz ele que a tutela trata os médicos “como cães”. Eu entendo pouco de Medicina, mas dá-me ideia que não…O que será que o senhor doutor quis dizer com aquilo?! Será que lhes andam a servir carne com demasiado osso nas cantinas dos hospitais? Coitados, não quero crer…Alguém terá mesmo partido um dente? Terá ocorrido alguma infestação por pulgas, com origem na tutela? Há surtos de esgana entre eles? Obrigam os médicos machos a urinar contra a parede ou contra alguma árvore? São atendidos por veterinários quando a doença os atinge? Alguém quis, alguma vez, obrigá-los, a usar uma coleira, fora do âmbito de jogos sado-maso? Obrigam-nos a usar chip? Avaliam-lhes a saúde pelo estado dos caninos quando os contratam? Têm de disputar as fêmeas no cio com todos os colegas? Cheiram o rabo uns dos outros, como cumprimento? Têm a mania de se pôr numa posição impossível e fazer sexo oral a si próprios?  São promíscuos e pouco asseados? O senhor doutor não nos concedeu a gentileza de partilhar com o público as suas ideias. Disse mas não explicou. Ficámos nas trevas, tal como toda a gente no Estádio da Luz, domingo passado.

Contudo, adiantou também que a tutela trata os médicos como o Marquês de Pombal tratou os Jesuítas. E sobre esta execrável criatura, eu já sei algo mais…E já consigo entender um pouco do que estaria na iluminada cabeça do senhor doutor. As políticas de D. José I foram claramente influenciadas pelo despotismo esclarecido e pelo absolutismo francês. Confesso que não acho os nossos déspotas nada esclarecidos. Mas,  mais que influenciados, somos comandados pela Europa. E se não é pelos franceses, é pela Alemanha, o que é, realmente, muito semelhante. Também me parece bem possível comparar a ascendência que tinham os Jesuítas do séc.XVIII com a enorme influência que sempre tiveram os médicos na sociedade portuguesa. Daí, até à cruel tutela, decidir persegui-los, expulsá-los e até exterminá-los, vai um passo. A gente sabe como essas coisas começam. Com pezinhos de lã,  começam por impor coisas duras mas minimamente razoáveis, como tetos salariais e regimes de exclusividade e, quando os pobres dos médicos menos esperam, pimba, saltam-lhes em cima com coisas hediondas e exigências desmesuradas, como, por exemplo, picar o ponto. Como é que isto é possível? Picar o ponto?! Como se atreve uma tutela, qualquer que seja, a querer saber quando chegam e quando abandonam o serviço, os profissionais que paga, muito bem pagos, ao fim do mês? Onde é que já se viu ?! Então um médico, não pode dormir até mais tarde? Demorar-se no café, a conversar com os amigos? Dar um mergulhinho na piscina (que há-de ter uma lá em casa, de certeza…)? Encontrar-se com a/o amante? Intolerável esta intrusão na vida privada dos médicos…Não é para admirar que, com atentados deste calibre, os dirigentes, coitados, percam a cabeça e venham para os jornais dizer disparates.

Não sei escrever em regime de seriedade, mas, sinceramente, fora de brincadeira, não resisto a dizer o seguinte: é por ter havido sempre e por haver ainda muita gente assim, em Portugal, gente que se julga melhor que os outros, com direito a um sem número de privilégios, a regalias e tratamentos especiais, que o nosso país se transformou nesta pobre miséria atual, que é a chacota do mundo, a pedir esmola ao Brasil.

Portugal foi ao fundo. É por isso que nem consigo criticar as opções estratégicas de Paulo Portas. Ele sabia, por isso comprou os submarinos. POPEYE9700@YAHOO.COM

CRUCIFIQUEMO-LOS, SÓ UM BOCADINHO

Abril 09, 2010

Tarcísio Pacheco

 

IMAGEM: http://informarepropagar.blogspot.pt/2013/02/videos-de-pedofilia-dentro-da-igreja.html

 

 

Nos últimos dias, têm surgido pelos jornais e revistas, diversos artigos de opinião que pretendem fazer a defesa da Igreja Católica, no actual cenário de denúncia universal dos crimes sexuais dos seus sacerdotes. Parece que a culpa é de um conjunto de perversos jornais, envolvidos numa infame campanha de difamação da Santa Madre Igreja. Os directores, chefes de redacção e editores destes jornais formaram uma sociedade secreta e juraram dedicar as suas vidas à destruição da Igreja Romana. Interrompem esta sagrada missão apenas para ver jogos de futebol. Fazem reuniões clandestinas, numa sala de cortinas negras, sob um crucifixo de pernas para o ar. Todos usam máscaras diabólicas à Darth Vader e prestam culto a um ídolo infernal, cujo rosto lembra vagamente um cruzamento entre a parte da frente de um desastre automóvel e o traseiro de uma fêmea babuína no cio. É preciso uma senha para entrar (consta que a última era “Heil Bento”). Para além dos jornalistas, com excepção dos que trabalham na Rádio Renascença e no programa Ecclesia, fazem parte ateus, pedreiros-livres, jacobinos, maçons, agnósticos, comunistas, socialistas a sério, talibans, polibans (talibans alentejanos), homossexuais, divorciados, cantores de rock, escritores, poetas, prémios Nobel, toxicodependentes, bancários não cristãos, enfim, todo o tipo de escumalha. E aquela gente maléfica, amaldiçoada pelos poderes das trevas, congemina então toda a sorte de planos tenebrosos para envolver inocentes sacerdotes católicos em sórdidos episódios de sedução. Inventam histórias, vítimas, datas, factos, mentiras coloridas sem fim, que depois publicam nos seus ordinários pasquins. Nos intervalos, bebem RedBull e com as asas que aquilo lhes dá, voam de um lado para o outro, entregando-se a orgias inenarráveis, farfalhando luxuriosamente ao som do Quim Barreiros na garagem da vizinha.

É claro que, perante isto, a Igreja Católica, coitadinha, e os seus novos Cavaleiros do Templo têm de se defender. Qualquer um entende isto, no mundo de hoje somos todos muito sensíveis às perseguições e aos ataques aos fracos e oprimidos.

O problema é o discurso escolhido. Ainda bem recentemente, um desses defensores, em peça jornalística, acusa os jornais de quererem convencer a opinião pública de que os padres comem criancinhas. Se ele estava a referir-se a canibalismo, então realmente não conheço nenhum caso. Os padres comem coisas comuns, há magros e gorduchos. Agora, se ele se referia a outra coisa, então, lamento muito mas discordo, literalmente, padres têm comido criancinhas, desde sempre, revelando até um apetite insaciável e voraz. Nesta matéria, temos padres gourmet. Perante as inúmeras evidências, fica assim desmentida, categoricamente, a afirmação contrária.

Diz também que a Igreja Católica tem regras muito claras para lidar com um padre pedófilo. Tem mesmo? Quais? O Bispo dele aplica-lhe tautau no rabinho? Duvido, seria contraproducente. Talvez lhe diga “Seu maroto, incorrigível, não tens emenda, de novo na brincadeira, não é? Vai já rezar 700 Avés-Maria e 1000  Pais-Nosso e fica sabendo que para a semana, já mudas de paróquia…”. E lá vai o pobre do padre, para longe da terra cujos filhos tanto amava, transferido para uma paróquia longínqua, onde talvez os meninos de coro sejam mais feínhos, menos louros, quiçá mais esquivos…Ou pior que tudo, ó horror dos horrores, para uma paróquia onde nem haja meninos de coro, uma daquelas cheias de beatas velhas, carne magra e seca, aromatizada  a naftalina.

Ainda por cima, aos jornalistas, esses facínoras, agora deu-lhes para pedir contas ao Papa, aos cardeais e bispos, em vez de crucificarem os padres pedófilos. Que é isto, que culpa têm esta gente, coitada ? Eles são apenas os seus líderes , não são pais deles, que os padres católicos não podem ter filhos, embora os tenham amiúde. Quando muito, podiam ser padrinhos ou tios deles…

Depois há a questão dos “truques estatísticos”… Clama-se que se juntam coisas diferentes no mesmo saco e que, desta forma se demonstra seja o que for. A estatística aborrece-me e, provavelmente, o mesmo aconteceria aos meus leitores. Mas qualquer pesquisa básica na  Internet, com base em critérios simples, associando apenas religiosos cristãos (não exclusivamente católicos) que abusaram sexualmente de, pelo menos, um menor, tendo sido denunciados, mesmo que muitos anos depois, retornará largas centenas de casos comprovados em todo o mundo  E não é preciso  uma pesquisa exaustiva, caso contrário teríamos de expandir a memória do computador. Com certeza que terá havido detalhes diferentes: antes ou depois da Missa, na sala da catequese ou no jardim da residência paroquial, menino ou menina, assim ou assado. Mas esta pesquisa simples basta-me perfeitamente. Quanto ao facto das denúncias terem começado a surgir em catadupa nos últimos anos, a resposta é de tal forma básica, que me dispenso de a explicar. Todos sabem que, antes, as vítimas não falavam, com raras excepções. E, quando falavam, raramente eram levadas a sério ou tinham qualquer eco. Acontece que agora há um clima geral de liberdade e toda esta tribo de diabólicos jornalistas, ansiosos por notícias que vendam bem…Acabaram-se as malfeitorias no escurinho das sacristias, abafadas depois nos salões episcopais.

Fala-se também nas “percentagens”. Querem assim branquear os crimes sexuais na Igreja Católica, alegando que a percentagem de sacerdotes pedófilos é irrisória, quando comparada com o número dos outros pedófilos. Eis aqui um bom exemplo de como o fanatismo pode manipular as ideias, para defender teses pobres. Como se a percentagem tivesse alguma importância num caso destes… Tudo o que interessa é que são muitos casos, descobrindo-se mais a cada dia, em todo o mundo. E que se passam no seio de uma instituição que é mais política e temporal do que religiosa e que sempre sonhou dominar o mundo, mesmo à força. E que se arvora em farol do Terra, dona da Salvação da Humanidade, detentora da única Verdade, formadora da Consciência, fonte do Bem, arauto da Virtude, distribuidora do Amor, tesoureira do Perdão, armazenista da Indulgência.. Supostamente, os sacerdotes são representantes de Jesus Cristo na Terra, herdeiros dos Doze Apóstolos e deviam amar, acarinhar, guiar e proteger as crianças que lhes são confiadas. E, sem ninguém os obrigar a isso, renunciaram ao mundo e juraram manter-se castos. Um crime sexual cometido por um sacerdote é hediondo e vale, no mínimo, por 100 crimes idênticos de treinadores desportivos. A estatística não é tão cega como se pensa mas há quem goste de lhe por uns óculos escuros.

Onde é melhor que não mexam comigo, é na minha área de trabalho, que é a História. O artigo que li, com todo o despudor, tenta fazer o branqueamento das Cruzadas e, pasme-se, da Santa Inquisição. Dizem que seria um “mito” ver uma “igreja sanguinária” em ambos os casos. Mito é o que dizem os neonazis do Holocausto. Vou deixar aqui apenas dois brevíssimos apontamentos, que bastarão para elucidar os leitores que ainda precisem disso.

As Cruzadas aconteceram num período ainda muito atrasado da história da Humanidade e agrupam uma série de expedições militares europeias, em diversos períodos distintos, com o pretexto de “libertar” os lugares santos do Cristianismo no Oriente, então ocupados por turcos muçulmanos. Aconteceram entre os séculos XI e XIII. Em boa verdade e para sermos justos, não se pode dizer que eram empresas da Igreja Católica. Mas esta estava profundamente envolvida e negar isso seria o cúmulo da hipocrisia. Os cruzados consideravam-se soldados de Cristo e envergavam vestes com a cruz de Cristo a vermelho, tendo vindo daí a designação de Cruzadas, que não existiu na época. Consideravam que faziam uma guerra santa e que eram autênticos peregrinos. A Igreja Católica apoiou sempre entusiasticamente as Cruzadas, a todos os níveis. Inclusivamente, algumas Cruzadas foram de iniciativa papal. Algumas das mais conhecidas, ricas e poderosas ordens militares, nasceram no âmbito das Cruzadas, comos os Templários e os Hospitalários. Estas eram constituídas por monges guerreiros, temíveis combatentes, muitíssimo bem preparados e altamente fanatizados. Esta gente era de uma crueldade atroz e cometeram as maiores barbaridades, chacinando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças nas cidades que conquistavam. Dois factos históricos não suscitam quaisquer dúvidas: as Cruzadas foram extremamente sanguinárias e estavam intimamente ligadas à Igreja Católica.

No que diz respeito à “Santa” Inquisição, aí então, qualquer tentativa de branqueamento é quase criminosa, ela própria. A maior parte das pessoas (mas não os novos Templários) tem apenas um vago conhecimento sobre a Inquisição. Esta instituição jurídica foi criada pela Igreja Católica e embora os seus crimes mais conhecidos sejam os dos séculos XV a XVII, ela teve o seu início nos finais do século XII e prolongou-se até ao século XIX. A sua intenção primordial era combater qualquer heresia, qualquer fuga à norma, mantendo, pela força, a pura ortodoxia cristã. Todavia, em muitos casos resvalou para o abuso total, permitindo toda a sorte de assassinatos, torturas, prisões arbitrárias e apropriação indevida de bens. Nas suas fases mais extremas, em que o apelo geral à denúncia era fortemente incentivado, as pessoas eram presas pelos motivos mais fúteis, acusadas por um sismo ou tempestade que tinha ocorrido, por terem blasfemado durante um jogo de cartas numa taberna ou, simplesmente, por gostarem de se lavar (almas limpas não precisam de higiene…). As penas iam desde à prisão temporária à pena de morte, muitas vezes na fogueira, passando pela prisão perpétua e confiscação de todos os bens e propriedades, sendo extremamente frequente a tortura requintada, em qualquer caso. Ninguém estava a salvo, pessoas importantes também foram vítimas. A Igreja Católica enriquecia imenso com estes processos e muitas vezes a cupidez e cobiça de um dignitário eclesiástico levavam a que fosse “fabricada” uma acusação contra algum proprietário, para lhe ficar com os bens e as terras. As famílias eram envolvidas e caíam na mais negra miséria. Perdiam tudo e era proibido auxiliar ou mesmo dar trabalho a familiares de um condenado pela Inquisição. Nem 20 páginas do Diário Insular seriam suficientes para descrever todo o horror da Santa Inquisição, todo o incrível sofrimento causado às vítimas e famílias durante séculos. O total das vítimas, directas e indirectas, ascende a muitos milhares, tendo sido na Espanha dos Reis Católicos, o cúmulo da hecatombe.

O que muita gente não sabe, é que a Inquisição, na verdade, nunca acabou. Só mudou de nome e aparência. Hoje em dia chama-se “Congregação para a Doutrina da Fé” e está sedeada no Vaticano. O seu penúltimo responsável é bem conhecido. Chama-se Joseph Ratzinger e agora é papa.

Quanto aos padres pedófilos… Errar é humano, perdoar é divino. Aceito isso. Mas, antes de os perdoarmos, não podemos crucificá-los só um bocadinho ?

POPEYE700@YAHOO.COM

 

 

 

LENCINHOS DE PAPEL PARA O PAPA

Abril 02, 2010

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM: http://copiaperfeita.blogs.sapo.pt/129143.html

 

 

Até eu próprio já acho que é demais, escrever sempre sobre o mesmo tema. É que para além desta lucrativa actividade de difamação da Igreja Católica, que os poderes das trevas e a conjura internacional me pagam principescamente e me permite levar uma vida secreta de nababo, tenho outra vida, mais comum, para disfarçar, de funcionário público, marido, pai e mais umas coisinhas. E isto está a roubar-me tempo para actividades bem mais interessantes, como assistir a uns filmes com pipocas no sofá, entre família.

Porém, não está a ser fácil enterrar o míssil da guerra (o machado era no tempo dos Índios) e comer o chocolate da paz (perdoem-me, não fumo cachimbo – nem nada que se fume, para além do monóxido de carbono nas ruas de Angra). O que se há-de fazer se a Igreja Católica põe a cabeça no cepo com tanto gosto e tão assiduamente…

Ainda há poucos dias, vinha eu pacificamente no meu trajecto matinal do costume, entre o caminho da Belavista e o centro de Angra, escutando, no meu telemóvel, a música da RDP 2, a única estação que não me fala da loucura dos móveis no Borja Reis e dos frigoríficos praticamente de borla, a 800 euros, na Susiarte (ninguém vende mais barato). Nisto, o locutor de serviço tem o mau gosto de interromper a emissão de musica clássica para perguntar à colega  qual era a notícia mais relevante do dia. E eram as declarações de D. José Saraiva Martins, nobilíssimo bispo português em relevante missão no Vaticano. E eu, ainda de estômago vazio, a ouvir aquilo. Desta vez, foi este notável clérigo, a colocar amavelmente a purpúrea  cabeça no cepo. E como pode o meu desassossegado cutelo resistir a tamanha provocação?

A princípio, pelo tom de voz e pelo discurso deste senhor, grave, doutoral, pausado, mas com um acentuado toque saloio, ainda pensei que fosse uma rábula do Herman José ou dos Gatos Fedorentos. Mas não, era mesmo a sério, directamente de Roma para o mundo.

D. José Saraiva Martins é Prefeito Emérito da Congregação para as Causas dos Santos, uma instituição verdadeiramente fundamental para a evolução da Humanidade, que o Papa João Paulo II, esse simpático velhinho, transformou numa autêntica máquina de produção intensiva de santos, o MacDonald’s da beatice. Sendo o processo naturalmente demorado, João Paulo II deu-lhe uma boa aceleração e parece que ele próprio é bem capaz de ser santificado lá para 2011, depois de serem devidamente autenticados os milagres que lhe são atribuídos, nomeadamente o de uma freira francesa que não se resolve, se há-de curar-se do mal de Parkinson ou não. E pronto, lá teremos mais um santinho e a máquina do Vaticano produzirá novos altares, capelas, procissões, livros, novenas, terços, medalhas, postais, vídeos, cds, o marketing do costume, quiçá até uma nova catedral em Varsóvia, se é que não existe já.

Para o nosso inspirado religioso, a actual catadupa de notícias nos media de todo o mundo sobre os crimes sexuais de padres católicos, não passa de ataques contra a Igreja Católica, por ser a única instituição que defende os valores da vida e da família e por ser contra o aborto, o casamento homossexual e a eutanásia.

A Igreja Católica é a única que está certa neste mundo, entre tantas correntes de pensamento. Lembra aquela anedota dos pais que vão ver o filho, novel recruta, na cerimónia do seu Juramento de Bandeira e o pai, babado, comenta “Maria, olha, tanta gente e só o nosso filho é que marcha com o passo certo…”. Ainda hoje, de manhã, lia em “A União” sobre as declarações de um prelado católico, em Israel, que clamava ser urgente “evangelizar os pagãos”. Os pagãos somos nós, a malta toda que não se revê na Igreja Católica…É cada rótulo que nos querem colar…

Por cá, na nossa terrinha, também um velho sacerdote católico, por quem tenho, obviamente o maior respeito, diz que o que “Interessa é Esclarecer”. Também diz que não tenciona escrever muito sobre pedofilia. Muito conveniente, esta atitude. No entanto, propõe-se a “esclarecer”, certamente em poucas palavras, já que não tenciona “escrever muito”. E fá-lo-á de forma brilhante, com certeza, já que é muito difícil esclarecer seja o que for em poucas palavras. E realmente, o nosso bom sacerdote, com formação romana em Psicologia, resolve magistralmente o assunto da pedofilia em dois ou três curtos parágrafos. A propósito de uma explicação para a actual “batalha contra a Igreja por causa da pedofilia”, o senhor padre psicólogo adianta-nos a explicação definitiva, a mãe de todas as explicações: é a “formação reactiva”, um conceito verdadeiramente revolucionário. Ela consiste em “tomar atitudes intensas, geralmente com fisionomia correcta mas resultantes de fortes tendências internas, de sentido negativo, normalmente muito negativo…” E, para não deixar dúvidas, cita um exemplo, entre muitos possíveis: “Aqueles que entram em combates exagerados contra o álcool, no seu subconsciente têm fortes tendências para ele… É frequente aparecerem, mais tarde, como alcoólicos. Estava «lá dentro»…”. E para arrasar, sai esta pérola: “É nesta linha, que se deve interpretar este «furor» por causa da pedofilia. Ele está enquadrado em atmosferas intensas de desiquilíbrios sexuais (…)”.

É formidável, genial, mesmo. Estamos nós aqui com coisas complicadas, denúncias, processos crime, crucificações e afinal é tão simples… Não tem nada a ver com o facto de durante anos incontáveis, padres católicos terem abusado sexualmente, por esse mundo fora, de criancinhas que deviam amar de outro modo completamente diferente. Nem tem nada a ver com o facto das vítimas terem, finalmente, perdido o medo e a vergonha e terem começado a falar dos abusos às famílias, aos amigos, às autoridades, aos jornalistas, aos advogados e tribunais. Ná… que ideia, não tem nada a ver com isso. Não compliquem este mundo tão simples. Tem tudo a ver é com a “formação reactiva” e com “desiquilibrios sexuais”. Essa gentalha que está por detrás da campanha de difamação e descrédito da Igreja Católica a propósito da pedofilia, jornalistas, políticos de esquerda, advogados, polícias, juízes e gente comum, como eu próprio, afinal, são todos potenciais pedófilos, desiquilibrados sexuais. Coitados, no fundo não têm culpa alguma. É que, sabem, “estava lá dentro”…

E claro que a Igreja Católica não tem nada a ver com o desiquiíbrio sexual do mundo actual. A mesma Igreja que impõe o celibato dos padres, que recusa a ordenação de mulheres, que é contra a pílula e o preservativo (mas é também contra o aborto) , que não aceita o divórcio e que defende como modelo de vida a castidade e o sexo estritamente conjugal (nos dias férteis, porque o sexo não é para brincadeiras)…Devíamos mesmo passar a chamar-lhe Igreja do Santo Equilíbrio Sexual…

Muito longe daqui, lá por Malta, o Papa Bento XVI chora baba e ranho com as vítimas maltesas dos instintos pedófilos católicos e seus familiares. Sem dúvida que é a atitude politicamente correcta e só lhe fica bem. Mas, para mim, são lágrimas de crocodilo de um político esperto. É claro que um padre pedófilo, em última análise, não é diferente de um pedófilo “civil”. É tudo farinha do mesmo saco. Simplesmente, é muito pior no caso do sacerdote, devido às suas especiais responsabilidades. Ainda hoje (20 de Abril), em “A União”, o nosso padre psicólogo volta á carga, desta vez atribuindo dons divinos ao sacerdote. Se o divino dá nisso, venha de lá o mundano…A Igreja Católica “fabrica” pedófilos regularmente, assim como produz muitos homossexuais (sendo que o homossexualismo, em si, não tem nada de mal). Isso acontece porque a instituição sempre demonizou o sexo, aceitando-o apenas de forma muito limitada para efeitos de reprodução. Claro que eles já têm dificuldade em defender isto publicamente no mundo de hoje. Mas as mensagens nesse sentido, subliminares ou não, ainda estão bem presentes. A Igreja Católica reprime ferozmente o natural e saudável instinto sexual; é castradora e produz frustrados em série. Homens que se vêem fechados entre homens, nos seus mais verdes anos, sem saber o que fazer com o seu órgão sexual mas sentindo, inevitavelmente, por vezes, muita vontade de fazer alguma coisa. Enquanto eles descarregam os seus instintos reprimidos pelos cantos dos Seminários, o assunto é lá com eles. O pior é quando se viram para as criancinhas. Nada indica que a Igreja Católica vá mudar com Bento XVI. Por isso, as lágrimas dele não me comovem. Tudo o que posso fazer é oferecer-lhe um pacote de lencinhos de papel reciclado. POPEYE9700@YAHOO.COM

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