Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

SOCIEDADE SEM PARTIDOS POLÍTICOS - APENAS UMA UTOPIA?

Janeiro 21, 2010

Tarcísio Pacheco

 

 

imagem: http://homopoliticus2.blogspot.pt/2013_04_01_archive.html

 

 

Os partidos políticos estão muito preocupados com a abstenção eleitoral nos Açores. Que não é, aliás, assim tão diferente do resto do território nacional. Há muitas análises (políticas, claro) e algumas sugestões. Mas não vi nenhum dedo na ferida. Porque, na minha humilde opinião, o que está gasto e não mobiliza ninguém, muito menos os jovens, é o próprio sistema partidário. Mas não convém muito reconhecer isso, seria um primeiro passo para o suicídio, político, claro.

Hoje em dia é um facto irrefutável que o português comum está profundamente desinteressado da actividade política. Isso é imediatamente perceptível através do comportamento dos portugueses nas eleições. Há muito tempo que a abstenção em actos eleitorais vem crescendo de forma consistente. Responsáveis partidários e analistas políticos desdobram-se em análises, pareceres e opiniões. A verdade é que toda a gente reconhece que as coisas assim vão de mal a pior mas ninguém avança com soluções concretas para resolver o problema, muito menos os próprios partidos políticos. E não o fazem porque não lhes interessa minimamente. Mudar radicalmente a forma como se pensa e se age em política no mundo actual, implicaria, inevitavelmente, acabar com os partidos políticos.

Se formos procurar uma definição para “política”, provavelmente encontraremos algo como “arte de governar e tomar decisões de interesse colectivo ao serviço de uma comunidade, de um país ou de uma federação”. No entanto, essa é sobretudo a perspectiva idealizada da política. Na verdade, a política pode definir-se como a arte de chegar ao poder e conservá-lo a qualquer custo pelo máximo de tempo possível. Hoje, isso é apenas possível por meios democráticos, nas nações desenvolvidas.

As únicas motivações de um político deveriam resumir-se ao sincero desejo de contribuir com a sua inteligência e o seu engenho pessoal para o desenvolvimento de uma comunidade, cidade, região, país ou federação, sem prejuízo de, ao mesmo tempo, se envolver num tipo de actividade que lhe é pessoalmente gratificante – gestão de recursos humanos e materiais, desenho e implementação de projectos diversos, análise e definição de estratégias, etc – porque não há nada de errado nisso e as pessoas rendem muito mais e são mais felizes quando estão nos lugares certos e no momento exacto.

No entanto, tudo o que tenho visto, me diz que não é nada disso que se passa, salvo raríssimas excepções. Quem entra na política, fá-lo quase sempre movido exclusivamente pelas seguintes motivações e objectivos:

a) Acima de tudo, enriquecimento individual, quer directamente, por prever auferir um vencimento muito superior ao que auferia na “vida civil”, quer indirectamente, por ter a clara percepção que irá colher inúmeros benefícios, montando e gerindo pelos anos fora,  redes de corrupção, tráficos de influências e contactos  privilegiados nos meios políticos, financeiros, industriais, desportivos e comerciais.

b) Atracção fatal pelo poder, necessidade de exercer autoridade sobre corpos de subordinados, gosto por dar ordens e influenciar directamente a vida das pessoas.

c) Promoção social, culto da personalidade, ser conhecido na rua, aparecer na comunicação social, andar bem vestido, fazer viagens frequentes, comer muito e em bons restaurantes, conhecer gente importante, conhecer gente bonita e atraente, que só circula nos meios próximos do poder, ser respeitado e temido até.

A afirmação relativa ao enriquecimento individual, directo ou indirecto, não é uma fantasia minha. Ela é absolutamente comprovada pelos factos que vemos noticiados quase diariamente e que reportam a descoberta de escândalos, de casos de corrupção e de tráfico de influências, pondo a nu extensas redes de interesses interligados que chegam às mais altas cúpulas do poder. Na verdade, não é que os políticos de hoje sejam piores que os do passado. Não, a maior parte sempre foi má, exceptuando-se as tais honrosas excepções. A riqueza e o poder ligados à actividade política atraem as piores pessoas, como a podridão atrai as moscas. O que acontece é que funcionam muito melhor as instituições ligadas ao poder judicial, paradoxalmente criado e tornado teoricamente independente pelo poder político, uma condição indispensável nas sociedades democráticas. A capacidade de intervenção do poder judicial vem crescendo regularmente. Não nos damos conta mas a capacidade de investigação das instituições policiais é muito mais eficaz hoje em dia. Isso explica-se por várias razões: funcionários mais inteligentes, melhor formados, melhor seleccionados e mais bem preparados; a tremenda evolução tecnológica, sobretudo na área informática mas também no que concerne a outros meios tecnológicos; capacidade de investigação muito desenvolvida; reconhecimento de crimes muito especializados, como os chamados “de colarinho branco”, por exemplo e criação de departamentos específicos para os investigar; menor possibilidade de controle político das chefias;  progresso social, cultural e mental geral , que permitiu às pessoas perceberem, interiorizarem e assumirem que não há intocáveis e que ninguém está acima da lei nem livre de suspeita. Este quadro evolutivo, sempre em curso, é que tem permitido toda a intensa actividade de detecção e investigação de crimes diversos envolvendo poderosos e conhecidos, a que temos assistido ultimamente. No entanto, apesar dos inúmeros processos em curso, quase não há culpados, condenações e expiação de culpas. Quase inevitavelmente, as montanhas parem ratos, os processos são arquivados, demoram tanto que os eventuais crimes prescrevem ou então, de alguma forma, os processos são abafados. Isso não invalida nada do que ficou escrito atrás. O que se passa é que a nossa jovem democracia está ainda em crescimento. As coisas já funcionam, embora de forma deficiente e o menos que falta é areia na engrenagem, que é do total interesse dos políticos.

Outro factor de evolução é tão notório que tem sido designado por “terceiro poder”. Refiro-me à comunicação social. Hoje em dia, grandes e poderosos grupos económicos estão por detrás de estações de televisão e de alguns jornais e revistas. Eles enriquecem a entreter as pessoa e a vender notícias. A seguir às tragédias, o que vende mais são os escândalos. Isso é tão importante que deu origem ao chamado “jornalismo de investigação”. Este tem o seu lado perverso e até imoral. Porque muitas vezes, no frenesim da notícia, usa fontes pouco seguras e dependentes, levantando falsos testemunhos. Todos sabemos que, por vezes são ditas mentiras nos jornais ou, pelo menos, verdades mal contadas, mas, frequentemente, basta a suspeição para manchar definitivamente uma reputação que até podia não ter mácula. No entanto, forçoso é reconhecer o importante papel da comunicação social, “farejando” e levantando as primeiras pistas sobre casos de corrupção, por exemplo, dando razão à velha máxima de que “não há fumo sem fogo”. Dentro das devidas balizas éticas e sem perder nunca o respeito e amor pela verdade, o “terceiro poder” é um importante elemento das sociedades democráticas.

Deve ser neste momento bem claro o meu pouco apreço pela actividade política e pelos políticos em geral. No entanto, o que realmente me repugna é a actividade partidária. Os partidos políticos são parasitas do sistema. Numa sociedade amadurecida e democrática, não fazem falta alguma, pelo contrário. Os partidos políticos só são importantes quando ilegalizados, em situações ditatoriais, cada vez mais raras no mundo de hoje, quando concentram os esforços, revolucionários ou pacíficos,  para a instauração da democracia. Podem também desempenhar um papel importante nas democracias emergentes, quando ajudam a consolidar o ambiente de liberdade e enquadram personagens cuja intervenção é fundamental. Mas depois de amadurecida uma sociedade, a acção dos partidos políticos é sobretudo nefasta para o bem estar geral. A actividade partidária constitui uma perda de tempo e uma delapidação de recursos de todos os tipos, humanos, primeiro que tudo mas também materiais. É um sumidouro de fundos públicos.  Anualmente, gastam-se fortunas para alimentar estes monstrinhos. Os partidos políticos constituem ainda o habitat por excelência de gente medíocre,  incompetente, sabuja e descarada,  que tenta garantir o seu futuro orbitando à volta dos que são mais espertos. O partido político é como um organismo vivo, parasitário, que importa nutrir e manter. O interesse partidário sobrepõe-se sempre ao interesse público e só acidentalmente coincidem. Quando um partido chega ao poder, fará tudo o que puder para o manter, normalmente sem quaisquer preocupações éticas. É por isso que os políticos mentem frequentemente, a tal ponto que chegam a dizer exactamente o contrário do que antes tinham dito. Os políticos dos partidos são, regra geral, indignos de confiança, porque farão qualquer promessa, não importa qual, para chegar ao poder. Uma vez lá, facilmente arranjam desculpas para faltar às suas promessas. Quando na oposição, os partidos deveriam colaborar na resolução dos problemas comuns, uma vez que perderam eleições democráticas. Quando muito, deveriam vigiar os governantes, no sentido de evitar ilegalidades e quebra de promessas. Mas as oposições fazem muito mais que isso. Para elas, nenhuma iniciativa dos governantes é boa. E consomem a maior parte do seu tempo a tentar prejudicar, empatar, sabotar e criticar as decisões e práticas dos governantes. Do mesmo modo, para os governantes, nenhuma ideia ou iniciativa das oposições é boa, mesmo que dela tenham partilhado no passado. Também não vale a pena apostar em nenhum partido oposicionista, pensado que “com eles será diferente”. Até pode ser que seja, mas por pouco tempo, porque o poder rapidamente corrompe, a teia maligna de ligações e dependências começa logo a ser construída, o principal esforço será sempre a manutenção do poder e a breve trecho o antigo partido oposicionista exibirá o mesmo autoritarismo que antes criticara, dizendo que “agora é diferente, governar é outra coisa”. Enfim, um panorama degradante que em nada contribui para o bem comum.

Os governantes e deputados, a todos os níveis, deveriam ser apenas grupos de cidadãos, eventualmente constituídos por pessoas de todos os quadrantes ideológicos que, com toda a naturalidade, discutiriam quando tivessem que discutir mas seriam absolutamente norteados pela finalidade do interesse público. Para dar um exemplo, muitas vezes a construção de mais um shopping ou de um novo aldeamento turístico, não tem  o menor interesse para a população de uma determinada localidade, pelo contrário; mas acaba mesmo por acontecer porque os decisores políticos foram directamente corrompidos, porque é preciso atender aos interesses da clientela que os ajudou a ascender ao poder e a manter-se lá ou ainda porque a liderança do partido assim o decidiu. A permanência no poder deveria ser bastante reduzida porque a possibilidade de perpetuação no poder é muito perniciosa e conduz à formação de grupos promíscuos , inter dependentes, em que a satisfação de interesses privados e pessoais é o  que predomina. Desse modo, far-se-ia uma selecção natural que permitiria o acesso aos cargos políticos de pessoas com uma motivação intrínseca, genuinamente interessadas em trabalhar em prol de uma comunidade por um breve período de tempo. Foi triste e degradante assistir recentemente ao espectáculo proporcionado por alguns políticos autárquicos, que estavam no poder há dezenas de anos, quando confrontados com a perspectiva de serem substituídos à força. O seu apego patético ao poder ficou então bem claro.

Os vencimentos não deveriam obedecer a nenhuma escala de referência. Deveriam ser simplesmente exactamente iguais aos que as pessoas auferiam nas suas actividades profissionais. E isso hoje é bem fácil de confirmar, a menos que haja fraude nas declarações de IRS. Se um candidato a deputado é funcionário bancário ou professor, uma situação corrente, então deveria manter o seu vencimento enquanto deputado. Mas se pelo contrário, um candidato a governante, fosse principescamente pago, por exemplo, como gestor de topo de uma grande empresa, então deveria receber também exactamente o mesmo enquanto governante. Eliminando as motivações extrínsecas interesseiras (enriquecimento material directo e indirecto, perpetuação no poder) ficaria garantido que só chegariam ao poder pessoas com motivações generosas e genuíno interesse em colaborar na persecução do bem comum. Pagar menos aos candidatos a políticos não faz sentido porque, no nosso mundo tão materialista, em que o dinheiro é tão importante, ninguém abdicaria de uma posição confortável na vida, para ir trabalhar no sector público. Mas pagar mais aos candidatos a políticos, que é exactamente o que se faz hoje, com o pretexto de assegurar a prestação dos mais competentes, também não faz sentido, porque assim está-se a assumir que é a componente financeira a grande motivação do candidato.

Resta ainda a questão dos privilégios e mordomias da classe política, chocantes num país pobre e actualmente em crise profunda. É chocante presenciar como os deputados se aumentam constantemente a si próprios, muitas vezes disfarçadamente, procurando que a opinião pública não perceba, enquanto para os trabalhadores do país são propostos aumentos ridículos e isto desde há muitos anos. É chocante ver as declarações públicas,  graves e doutorais, do Governador do Banco de Portugal que, há demasiados anos vem ganhando no pobre Portugal muito mais do que o seu equivalente no país mais rico do mundo. Quando se ganha assim não é difícil falar do “despesismo e imprudência” dos portugueses, não é Dr. Victor Constâncio ?

No fundo, o que defendo é a moralização da política. Para fazer justiça à sua definição ideal, os seus protagonistas deveriam ser impulsionados acima de tudo pela vontade de servir, o seu concelho, a sua região, o seu país, por um período de tempo bastante limitado. Tenho toda a liberdade para falar assim, apesar de saber que estou a pregar no deserto. Posso gabar-me de total virgindade política..

No fundo, com o sistema que temos, toda a gente vai para a política para, de algum modo, se servir. Ninguém vai para servir. POPEYE9700@YAHOO.COM

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2008
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2007
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2006
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2005
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2004
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2003
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2002
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2001
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2000
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 1999
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Fazer olhinhos

Em destaque no SAPO Blogs
pub