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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

O PORCO MAQUILHADO

Setembro 09, 2010

Tarcísio Pacheco

 

 

IMAGEM: http://www.dragoart.com/tuts/4537/1/1/how-to-draw-miss-piggy.htm

 

 

 

Pode não parecer mas este artigo tem a ver com a Igreja Católica, com que é que havia de ser, pois então. Mas não se abespinhem tão precocemente. Não vou chamar suíno ao Papa nem nada que se pareça. E tenho imenso respeito pelos porcos, esses animais felizes que, embora contrariados, nos dão as suas entranhas e que, em breve, ao que consta, nos darão também o seu fígado, em benefício da nossa extensa população de bêbados crónicos e cirróticos.

O caso é que um tipo inteligente disse um dia “podem até aplicar baton num porco mas nunca deixará de ser um porco…”.

Vem isto a propósito de mais um artigo de um fanático defensor da ortodoxia católica, publicado recentemente em “A União” e no “Diário de Notícias”, a nível nacional, intitulado pomposamente “Falsificação da História”. O seu autor defende, mais uma vez, que a pobre, inocente e perseguida Igreja Católica, continua a ser vítima de uma conspiração mundial (provavelmente orquestrada pelo Anti-Cristo), com a finalidade, desta vez, de falsificar a História, culpando a Igreja pelas Cruzadas, Inquisição, perseguições a hereges, escândalos sexuais e pedofilia, entre outros crimes. E socorre-se da recente obra do “grande” (a adjetivação, claro, é do articulista) sociólogo americano Rodney Stark, The God’s Batallions: the Case for the Crusades, publicado em 2009. Este autor, que nem é um historiador, é um estudioso da sociologia das religiões, faz investigação e tem, naturalmente, as suas perspetivas pessoais sobre a História das Religiões. As opiniões que ele expressa na sua obra vão, segundo ele, no sentido de desmistificar algumas ideias comuns quanto ao fenómeno das Cruzadas. Rodney Stark não é de modo nenhum uma fonte desinteressada. Numa entrevista recente, em 2004, ele afirmou que se não se considerava um homem de fé mas que também não era ateu. No entanto, não muito mais tarde, veio dizer publicamente que mudara de ideias e que agora se considerava um “cristão independente”, o que o coloca, no mínimo, próximo da religião cristã. Cá para mim, sociólogo ou historiador “independente”, em termos religiosos, é o que não professa religião alguma. Seja como for, o senhor, apesar de maduro, parece não saber bem ainda o que há-de fazer com as ideias dele. Mas o nosso articulista sabe muito bem porque as usa para, de forma ridícula, menor, boçal, sectária e mal intencionada, vir dizer que a História foi falsificada.  Aos leitores de espírito aberto, recomendo uma pesquisa na Internet sobre este artigo (“Falsificação da História”, A União e Jornal de Notícias) para verem a espécie de fanáticos e mentecaptos ignorantes  que aplaude este artigo.

O maior ridículo está na sua própria afirmação de que Rodney Stark não descobriu nada de novo. Ele não andou a fazer espeleologia pelos desertos do Médio Oriente nem descobriu uma série de pergaminhos com novidades revolucionárias. Também não teve nenhuma visão reveladora depois de 3 dias de jejum. Simplesmente, limitou-se a pegar nos dados que todos nós conhecemos sobre as Cruzadas, baralhou, deu de novo e fez os seus próprios comentários, totalmente respeitáveis enquanto isso. Mas o nosso articulista espertalhão tratou essa informação como se de grande novidade se tratasse e, como de costume, veio desculpabilizar a Igreja Católica pelos seus muitos crimes.

Na verdade, tudo o que Rodney Stark diz é verdade, à luz do nosso conhecimento histórico atual. Mas nada disso invalida o facto de que todas as Cruzadas têm a Igreja Católica na sua génese e que estão associadas a uma terrível e sanguinária violência que nada tinha a ver com a figura de Jesus e com o mundo de paz e amor incondicionais que ele veio anunciar.

As Cruzadas é a designação de um movimento quase permanente de raiz militar e inspiração cristã, com origem na Europa, ocorrido entre os séculos XI e XIII, que tinha como objetivo principal e formal, a tomada dos lugares santos cristãos do Médio Oriente, entretanto ocupados por turcos muçulmanos, extremamente agressivos e aguerridos.

Tudo o que Stark diz e o articulista refere é verdade, como já se disse. Mas não muda a verdade geral e uma das formas de mentira é a omissão. Senão vejamos:

Verdade - o inimigo principal eram  os turcos seljúcidas. Omissão – as  hostes dos cruzados arrasavam tudo à sua passagem e não faziam grandes distinções, massacrando indistintamente turcos, árabes, judeus (claro) e até cristãos.

Verdade – as Cruzadas eram uma amálgama de muita gente diferente. Omissão – as Cruzadas iniciaram-se sempre a partir do apelo direto de um Papa ou de pregadores cristãos inflamados, a maior parte mais tarde beatificada ou canonizada.

Verdade – não eram só os filhos segundos das grandes famílias, sem esperança de herança, a juntar-se às Cruzadas, também alinharam muitos cabeças das casas senhoriais europeias, alguns com elevados custos.  Omissão: a vida dos fidalgos da época era a guerra, não sabiam fazer outra coisa; passavam a vida a investir em homens e armamento, com a finalidade de obter mais poder, honrarias, riqueza e, sobretudo,  terras.

Verdade – nalguns casos, a motivação era mesmo do âmbito espiritual e religioso (os tais “batalhões de Deus”). Omissão: conhecendo nós as características da Humanidade, que não mudou assim tanto, só podemos rir da pretensa “espiritualidade” dos Cruzados; os cavaleiros nobres comportavam-se com enorme ferocidade, sem sombra de piedade e grande parte deles, senão mesmo a maioria, participava ativamente nos saques e transpunha para o Oriente o sistema feudal, recebendo terras e direitos muito rendosos, para além da fama e da glória, que diziam muito aquela gente; quanto à arraia-miúda, era constituída por soldados profissionais e mercenários que iam para onde lhes mandavam e recebiam soldo; outros eram vagabundos das cidades, que não tinham onde cair mortos; uns e outros entregavam-se entusiasticamente aos saques e pilhagens, que eram a sua grande motivação; pelo meio, cometiam toda a sorte de malvadezas, violações e massacres de populações inteiras, incluindo mulheres, crianças e velhos.

Aquilo que conheço da Humanidade e da história das Cruzadas leva-me a ver os “batalhões de Deus” como turbas selvagens, fanatizadas, extremamente ignorantes, quase sempre muito bem armadas e equipadas, sedentas de sangue e de ouro, com os testículos repletos de testosterona. Deus, se existe, deve ter ficado imensamente envergonhado com os seus “batalhões”.

Para o nosso articulista, todos os investigadores que pensam de maneira diferente de Stark são “historiadores de pacotilha”. No entanto, a verdade é que podem pintar as beiçolas do porco mas ele vai sempre grunhir e comer lavagens. Escrito em Angra do Heroísmo, a 9 de Setembro de 2010.

POPEYE9700@YAHOO.COM

 

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