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popeye9700

Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

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Crónicas e artigos de opinião, a maior parte publicada no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

BAGAS DE BELADONA (169) - BAGA GLÓRIA, GLÓRIA, ALELUIA

Dezembro 15, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem em: Distopia, você sabe o que é? Definição, conceitos e obras

BAGAS DE BELADONA (169)

HELIODORO TARCÍSIO          

BAGA GLÓRIA, GLÓRIA, ALELUIA – Em  verdade vos digo, vivemos tempos de espanto e maravilha. Não sei mesmo se não estaremos a viver o tempo mais significativo da História, depois da invenção do fogo e da roda e da vinda do Dr. Jesus. Que inveja sentirão os nossos descendentes por não terem vivido estes tempos gloriosos e salvíficos. Mas cabe-nos a nós,  a esta geração magnífica,  criar o deslumbrante porvir de paz universal em paraísos de leite e mel, guiados pelos sábios líderes de quem todos temos a inestimável honra de ser contemporâneos. Se bem que o mel possa estar em causa porque até as queridas abelhas,  os comunistas conseguiram massacrar. Sim, foram os comunistas, está provado. Se não acreditam, é porque não estão atentos à Palavra, diligentemente difundida pelo Dr. Elon na sua rede X ou pelo Dr. Donald na sua rede Truth (Verdade, em português). Por falar em comunismo, o Tinhoso tinha um plano tão genial quanto macabro para lançar a Humanidade no caos, tendo incarnado no Dr. Karl, aquele filósofo alemão que, até mesmo pelo aspeto sujo, cabelo de grunho e barba de Neandertal se via logo que não era gente do bem. Esta sabe vestir-se, sabe apresentar-se, vejam o Dr. Donald, sempre tão preocupado com a sua sedutora aparência que nem para dormir tira o fato e a vistosa gravata vermelha. Há fotos recentes que o provam. E não foi por acaso que o Tinhoso incarnou na Alemanha, esse mesmo país que agora simboliza e representa a decadência civilizacional da CE. E, verdade se diga, os seguidores do Dr. Karl quase levaram a sua avante, com as suas ideias insidiosas de justiça e igualdade. Justiça só a divina porque só Deus é infalível e igualdade, se Deus quisesse que fossemos todos iguais, ter-nos-ia criado todos perfeitos, assim como o Dr. Donald, para dar um bom exemplo, altos, fortes, elegantes, louros como o trigo maduro e alvos de pele. Mas Deus sabe o que faz, na sua infinita sabedoria e se Ele também criou os outros, mais escurinhos, do Bangladesh e assim,  é porque tinha boas razões para isso, quem somos nós para contestar a Sua vontade? Deus é muito inteligente, um excelente gestor e sabe que para as coisas funcionarem, alguém  tem de cavar terra, acartar pedra e limpar latrinas. E essas tarefas, fundamentais para o progresso da Humanidade, não se podem executar de fato e gravata, evidentemente, nem com peles branquinhas, que ficam facilmente encardidas. E se toda a gente pudesse comer caviar, já ninguém queria batatas e em poucos anos o esturjão tinha-se extinguido, que as plebes são comilonas e insaciáveis. É preciso pensar nisto tudo. O PAN só pode andar contente. Dantes, era tudo muito claro e bem organizado, uns mandavam, poucos, para não dar barafunda e era um sistema muito prático e inteligente, o filho mais velho sucedia ao pai, os outros amanhavam-se como calhava e as filhas serviam para casar e gerar os futuros varões do poder; estes também se ocupavam da defesa contra atacantes, geralmente, moirama ou amarelados e só em cavalos e armas gastavam uma pipa de massa; alguém tinha que pagar estas despesas, para isso é que foram sabiamente criados os impostos; que eram cobrados, sobretudo aos que hoje em dia, segundo um distinto deputado, se devem chamar “colaboradores” e que nunca estão satisfeitos, sempre com greves e cenas assim, que ofendem a Deus e aos governantes; depois, ainda havia os que oravam, perdoavam os muitos pecados da plebe, o que era uma trabalheira desgraçada e recolhiam o dízimo da igreja. Isto funcionou assim lindamente anos a fio até que o Tinhoso inspirou a Revolução Francesa, que já tinha muito de comunista e andámos neste deboche anos e anos com muita miséria e carnificinas horríveis, com milhentas vítimas inocentes. Depois, Deus voltou de um período alargado de férias e começou a pôr ordem nisto. Atualmente, apraz-me dizer que limpámos o sebo à maioria dos comunistas, embora ainda reste um ou outro e até em lugares de destaque, como na presidência do Conselho Europeu ou na América, onde o comunista Obama ainda ronda na sombra, sempre a tentar sabotar o bom trabalho dos obreiros de Deus na Terra. As coisas começaram a endireitar quando o Dr. Donald, por inspiração divina e grande inteligência das massas, chegou ao poder, sobrevivendo até a um horrendo atentado. Que grande Homem! Martin Luther King disse que teve um sonho. Grande coisa, sonhos há muitos, ainda noite passada tive um, bem giro. Mas o Dr. Donald disse que “precisamos de trazer Deus para o dia a dia da América”. Que coisa mais linda e amorosa. É mesmo de líder cristão. E, realmente, eu vi na Internet, já não me lembro onde precisamente, mas vi,  uma fotografia do Dr. Donald a passear num bonito jardim, de braço dado com o filho de Deus, o Dr. Jesus. Estavam numa grande conversa, entusiasmadíssimos, com certeza a congeminar algum plano de paz. Que distinção! Há 2000 anos que o Dr. Jesus estava ausente em parte incerta. Mais alguém se pode gabar disto? Obama, Biden, Macron, Merz, Starmer? Pois claro…E, recentemente, uma terrível injustiça foi reparada. De forma cruel e injusta, o comité Nobel, com certeza corrupto e contaminado por comunistas, atribuiu o Nobel da Paz a uma tipa venezuelana qualquer, ignorando o pobre Dr. Donald, o Príncipe da Paz, o que o deixou muito triste e acabrunhado e Deus também não gostou nada da brincadeira. Felizmente, surgiu um herói, o corajoso Dr. Elefantino, que lhe atribuiu o Prémio da Paz da FIFA, pelo seu destacado papel na conciliação dos povos. Quanto ao Nobel, acabou-se. Quem é quer saber disso, daqui em diante? Em breve, os seus prémios passarão a ser brindes de sabão de máquina. E o Dr. Donald, com a inteligência e bondade que lhe são universalmente reconhecidas, vai até permitir que os adeptos do Haiti vão apoiar a sua seleção, desde que tragam os seus próprios animais de estimação para comer. Quanto ao Dr. Elefantino, já se levanta um clamor para que se acabe com os prémios da FIFA, passam a ser Elefantinos, de Ouro, da Liberdade, da Paz e por aí fora. Tchau Alfredo (o do Nobel). Eu entusiasmo-me a falar deste admirável mundo novo e vejo que já ocupei demasiado espaço. Queria falar de Portugal, mas fica para outra vez. Tudo indica que em breve as caravelas voltarão ao mar, sob o comando da nossa Padeira de Aljubarrota e com a efígie de N.ª Sr.ª de Fátima na proa. Vamos voltar a África, hurra, hurra, por El-Primeiro Ministro e por André de Portugal. Por ora, Glória, Glória, Aleluia. Rejubilemos.  popeye9700@yahoo.com

 

BAGAS REFORMA-TE ANTES QUE MORRAS E A BUROCRATIZAÇÃO DA DESBUROCRATIZAÇÃO (168)

Dezembro 12, 2025

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: Bureaucracy By Damien Glez | Politics Cartoon | TOONPOOL

 

BAGAS DE BELADONA (168)

 

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA REFORMA-TE ANTES QUE MORRAS – Sem surpresa, a Assembleia da República chumbou a proposta do parlamento açoriano, arquitetada por Artur Lima, no sentido de reduzir o acesso à idade da reforma, com o argumento de que os açorianos têm uma esperança de vida média inferior à dos portugueses continentais em cerca de dois anos. Era o desfecho realista esperado. “Arbitrárias, irrazoáveis e inconstitucionais” é como a competente comissão parlamentar classifica as propostas insulares de reforma. O respetivo parecer é do deputado Nuno Jorge Gonçalves, do PSD. Era bom que os açorianos não esquecessem tal facto. Mas parece que, nos Açores, não é só a vida que é mais curta, a memória também não é de longa-metragem. Pelo menos foi a ideia que transmitiu o insuspeito Shawn D. Littleton, oficial norte-americano que publicou através do Instituto Histórico da ilha Terceira, um estudo académico, devidamente autorizado,  intitulado A Importância Estratégica dos Açores, que tive o privilégio de traduzir. Ao longo do extenso texto de 32 páginas, explica como, de forma fria, cínica e calculista, Portugal tratou sempre os Açores como uma colónia que, ao logo do tempo e das vicissitudes da História foi usando como moeda da troca, ao sabor das conveniências políticas do momento, sem reais, duradoras e permanentes compensações, benefícios ou mudanças estruturais para os Açores. E agora, que somos região autónoma, no final de 2025, a exploração continua, nem sequer nos é reconhecido que morremos mais cedo. Parece que isso seria anticonstitucional. Para Littleton,  somos 250.000 nativos explorados e submissos. Donald Trump, o ídolo dos emigrantes açorianos nos EUA,  ainda é mais explícito: somos  “esse shitty country”. Confesso que fiquei sem perceber o que é que é “inconstitucional”. Se é os continentais morrerem mais tarde, se é os açorianos morrerem mais cedo. Mas, sendo açoriano, vou apostar nesta segunda hipótese. Dá-me mais jeito porque até tenho umas coisas planeadas para a reforma, que não me daria jeito nenhum alterar. Assim, fico mais animado, agora que ganhei dois anos de vida. Longe de mim, desrespeitar a Constituição Portuguesa. Pena é não ser com efeitos retroativos.

BAGA BUROCRATIZAÇÃO DA DESBUROCRATIZAÇÃO – Tenho de ser sincero, sou do tempo das cartinhas e dos selos. Conheci a minha primeira namorada, quando ela tinha 14 anos e eu 15, éramos da mesma turma do 10.º ano. Sendo ela filha de um oficial da FAP, com origem noutra ilha, ficávamos frequentemente longe em períodos de férias. Com que emoção eu, em casa de meus pais, em Santa Luzia, sabendo da hora de passagem do carteiro, ficava a aguardar, com o coração nas mãos, para ver se caía alguma coisinha pelo porta-cartas. E, na verdade, caía com frequência e eu ficava todo feliz, lia e relia as cartinhas, obrigado, Paula. Era muito amor manuscrito, no cursivo impecável dela. Pode mesmo ter contribuído para ela se ter tornado uma escritora de sucesso. Mais tarde, tudo mudou, a começar pela namorada. Depois, sucessivos governos de Portugal elegeram como desígnio nacional, acabar com a pesada e anacrónica burocracia lusa. Veio o digital, que acabou com a curta vida dessa maravilha tecnológica que foi o fax. O digital trouxe o email. Que loucura! Era só escrever a cartinha, fazer um clique e, quase instantaneamente, à velocidade Einsteiniana da luz, a cartinha percorria ares e mares, não fazendo diferença se o destino era Macau ou uma casa ali ao lado. Aí, foi demais. Podia ter sido o início de um futuro fantástico. Mas não foi. Deitaram para o lixo as máquinas de escrever, muitas delas elétricas e a ainda a cheirar a novo. E desataram a comprar os computadores que enviavam emails. O momento foi de choque. Repartições inteiras, exércitos de burocratas ficaram repentinamente com pouco para fazer. O digital foi o 25 de Abril da comunicação. O que se seguiu foi o 25 de Novembro. Aconteceu a reação. Hordas de burocratas, provavelmente de extrema-direita,  conluiaram-se para reagir. O resultado foi a burocratização da desburocratização. Enviar um email com um clique era demasiado simples, fácil e rápido. Havia que complicar. Meteram mãos à obra. E nisso, são extremamente competentes. Uma das suas primeiras e mais malévolas criações, foi o SGC (Sistema Integrado de Gestão de Correspondência). Foi do género “ah, agora é assim, mandar emails? Já vão ver, esperem pela pancada”…E a gente levou com ela. Agora, para se enviar um simples documento, tem de usar um sofisticado programa informático, que não deixa nada ao acaso. Sabemos sempre quem escreveu o quê, quando enviou, onde para o documento, quem o recebeu, por que mãos passou, o que cada um disse ou fez e quem deve fazer o quê em cada momento. É o paraíso da burocracia, o requinte máximo. Passámos do clique ao clicão. É claro que no fim do processo, o documento pode ser arquivado (“terminado” em burocratês), como se fazia antigamente, o equivalente ao antigo furar as folhinhas e arrumar num dossier, mas não pode ser qualquer um, de qualquer maneira. Ah não, isso também tem as suas regras.

Como se isto não fosse suficiente, depois criaram outra câmara de tortura, o SIGRHARA,  sistema integrado de gestão de recursos humanos do governo regional, uma fortaleza gigantesca e imponente onde, até há pouco tempo, só entrávamos por motivos de força maior, pedindo muito a medo aos façanhudos guardas do sistema que nos baixassem a ponte levadiça. Era aceder, descobrir o caminho no labirinto o mais rapidamente possível, cortar a cabeça ao dragão e sair a correr para os verdes prados, de volta à liberdade. Ah, mas estava muito fácil e o departamento  executivo da Burocratização da Desburocratização do Big Brother já andava a fazer horas extraordinárias para conceber a próxima grilheta. Dantes, se tínhamos de ir ao médico, pedíamos uma declaração de presença que entregávamos nos nossos serviços administrativos para ser tratada por pessoas que escolheram fazer isso na vida delas. Mas os burocratas estavam atentos. “Olha só o descaramento deles, trazer papelinhos e entregar nas secretarias, já lhes vamos tratar da saúde “. E então, pimba, há dias apareceu a nova norma. Entregar os papelinhos, sim, claro, papelinhos são coisas de estimação. Mas, antes, é preciso d.i.g.i.t.a.l.i.z.a.r o dito cujo. Sem isso, nada feito. E depois, é preciso pegar no papelinho que, esse sim, chegou às nossas mãos via email (shiuuu, podia ter chegado por SGC) e inseri-lo num complicado meandro de operações nada intuitivas, na nossa querida página pessoal e única do SIGRHARA, preenchendo uma catrefada de quadros e parâmetros com a ajuda do nosso inestimável amigo, o rato. Isto passa-se num país que abraçou a desburocratização como desígnio nacional. Imaginem se fosse ao contrário. O que vale é que já estou perto da reforma. Isto é, se não morrer antes. Mas parece que isso seria anticonstitucional. É o que me vale. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA METEOEXPERTS (BB167)

Outubro 13, 2025

Tarcísio Pacheco

 

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imagem: link de imagem indisponível

 

BAGAS DE BELADONA (167)

HELIODORO TARCÍSIO          

 BAGA METEOEXPERTS – Com o acesso livre e generalizado da maioria da população à Internet, multiplicam-se as páginas pessoais nas redes sociais. Os “influencers” são mais que as mães russas, o que é cada vez mais fácil. Vivem em constante disputa para ganhar mais “seguidores”. Alguns têm muitos milhares. Alguns ganham dinheiro com esta atividade, mas também é frequente pretenderem apenas notoriedade, serem conhecidos ou fazerem parte de alguma organização que pretende promover (ou destruir) alguma coisa; por vezes, são apenas pessoas que se dedicam a um determinado tema por paixão pessoal. Os temas das páginas variam imenso: desporto, moda, saúde, sociedade, humor, alimentação, animais, direitos humanos, religiões, música, cultura ou simples atualidade. Refletindo a decadência da nossa civilização, há muitos “influencers” cujas páginas promovem ideias extremamente negativas, ou então são de uma miserável futilidade e vacuidade intelectual. Uma grande parte dos “influencers” é inofensiva, mas alguns são extremamente perigosos, no terrível presente que vivemos. São os que, individualmente ou em grupo, trabalham todos os dias para criar o caos social e facilitar a emersão de grupos políticos e a implantação do ideário da extrema-direita. Claro que não me refiro aos simples papagaios do partido Chega, em Portugal ou do movimento MAGA, nos EUA, por exemplo. Esses são apenas peças inconscientes de um xadrez muito mais amplo, peões menores habilmente manipulados por mentes muito perversas, mas inteligentes. Por detrás deles existem estruturas bem organizadas e muito complexas, transnacionais e que contam, inclusivamente com servidores informáticos dedicados.

Este é um tema complexo. O que me fez escrever hoje é um assunto mais circunscrito. São os “peritos” em meteorologia que agora abundam nas redes sociais. Eles cresceram em consonância com o aparecimento e vulgarização de muitos sites de meteorologia, a maior parte parcialmente gratuitos e com ambientes e informação de fácil leitura, interpretação e descodificação. Não são, evidentemente, meteorologistas profissionais. Estes fizeram formação académica específica e trabalham, geralmente, para entidades públicas. Para além da sua formação, têm, evidentemente, acesso a estruturas, recursos, informação, equipamentos, modelos e ferramentas que só estão ao alcance de profissionais. Mesmo assim, as previsões meteorológicas que produzem não são sempre 100% exatas. Por diversas razões, sendo a principal que a ciência meteorológica é tão exata quanto possível. Muitas vezes só se consegue produzir valores de probabilidade, especialmente no que respeita a níveis de precipitação. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, as alterações climáticas vertiginosas a que assistimos no presente, baralham muitas vezes os dados e confundem as previsões. Por isso, criticar a informação meteorológica oficial por nem sempre ser exata é um ato de cegueira e de ignorância. Especialmente nos Açores, onde o tempo, por razões bem conhecidas da ciência, é, por natureza, bastante instável. É contribuir para criar a ideia do “meteolixo”,  à semelhança do que já existe para a comunicação social, o “jornalixo”.  Por detrás disto, está uma perversidade terrível e muito mal-intencionada, a de que se deve confiar sobretudo e apenas, no que se lê nas redes sociais. É assim que a extrema-direita tem crescido, em Portugal e em todo o mundo. Os meteorologistas amadores vão buscar os dados que divulgam aos diversos sites onde eles estão disponíveis para toda a gente. Por isso, acima de tudo, considero-os “divulgadores”. Que também se enganam com frequência, obviamente. Um dos mais conhecidos “peritos” meteorológicos açorianos está sediado na Terceira e a sua página conta com cerca de 30.000 seguidores. Tudo bem quanto a isso. O homem é um apaixonado da meteorologia, o que não tem nada de mal, à partida. O que é realmente incrível é a confessada incapacidade dos seus seguidores para obterem diretamente as previsões meteorológicas que pretendem. O que isso nos diz sobre o nível cultural e  intelectual da sociedade açoriana. O que isso nos revela sobre analfabetismo funcional e tecnológico e info exclusão. Ainda recentemente, uma conhecida minha, que eu julgava mais evoluída, numa discussão de Facebook, rogava ao divulgador meteorológico que, por amor de Deus, não desistisse da sua atividade porque “não era capaz de entender a informação meteorológica oficial”. Fiquei estarrecido. Se fossemos ao principal site meteorológico nacional, o do I.P.M.A. (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), no separador “Previsão Descritiva”, para o dia em que escrevo (8 de outubro), para o grupo Central dos Açores e para este dia, podíamos ler o seguinte: “Céu geralmente muito nublado. Períodos de chuva e aguaceiros, por vezes FORTE. Condições favoráveis à ocorrência de trovoada. Vento sueste moderado a fresco (20/40 km/h) com rajadas até 55 km/h, rodando para sul. Estado do mar: Mar cavado. Ondas do quadrante oeste de 1 a 2 metros. Temperatura da água do mar: 22ºC. “. Previsão que se revelou bastante acertada ao longo do dia. A minha pergunta é: que parte desta previsão, feita por meteorologistas profissionais, é que esta senhora, que até tem estudos e não é nenhuma ignorante, não entende?! É realmente de pasmar.

Para concluir, não vejo nada de errado em alguém criar uma página relativa à sua paixão pessoal, nas redes sociais. Por mim, pode ter os milhões de seguidores que quiser, desde que não seja nada que infrinja a lei (o que nas redes sociais é cada vez mais difícil de avaliar). No caso específico da meteorologia, não vejo nada de errado em que alguém peça e receba “previsões” sobre chuva, por exemplo, por causa de uma tourada, festa, casamento, batizado ou churrascada. O que isso possa revelar de analfabetismo funcional, iliteracia tecnológica ou simples preguiça, não passará de uma questão pessoal. Todavia, no que respeita a eventos que podem colocar em risco a vida e a segurança das pessoas, o caso muda radicalmente de figura. Falo, por exemplo, de mau tempo, tempestades severas ou furacões. Nesses casos, jamais se deve recorrer a “previsões” de “peritos” que não são meteorologistas profissionais. Consultem as previsões oficiais, nomeadamente as do I.P.M.A., embora existam muitas alternativas.  Com licença da expressão, “qualquer burro as entende”. Até Donald Trump, embora eu não garanta, uma vez que esta criatura já se armou em meteorologista no passado, com graves consequências. Mas este foi um exemplo radical, admito. O ideal é consultar várias fontes e cruzar dados, dependendo do que precisamos de saber.  Pior ainda, se falamos de saídas para o mar. Aliás, qualquer titular de uma carta náutica, que não saiba um mínimo de meteorologia, deve arrumar o barco e voltar à escola. Que eu saiba, aqui na ilha, apenas a Escola de Formação de Navegadores de Recreio do Angra Iate Clube ensina meteorologia.

Posto isto, eu também quero é sol na eira e chuva no nabal, como toda a gente. Isso quer dizer que podem ter acabado os meus banhos de mar, mas, em contrapartida, agora é que os meus araçás estão a ficar amarelos e gordinhos. É assim a vida. popeye9700@yahoo.com

 

BAGA ORCAS SÃO OS ORCS DO MAR (BB166)

Setembro 29, 2025

Tarcísio Pacheco

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BAGAS DE BELADONA (166)

HELIODORO TARCÍSIO          

 

BAGA ORCAS SÃO OS ORCS DO MAR – Quando em junho de 2021, largava da marina de Lagos, no comando do meu veleiro de cruzeiro, La Bohème (ex-Alexandra), rumo aos Açores, na última etapa de uma viagem que começara em Port Saint Louis, no sul de França e passara já por Ciutadella, na ilha de Menorca e por La Linea de la Conception, a norte de Gibraltar, sentia-me bastante feliz, na companhia do meu irmão, Tomás, do meu filho, Rodrigo e do meu bom amigo, Marco.  Vinha duma agradável estadia de três dias na aprazível cidade algarvia de Lagos, que incluira um emocionante encontro com o meu querido amigo do tempo da faculdade, Carlos Canas, que não via há mais de 40 anos. Na época, não podia adivinhar que o Carlos, então saudável, iria adoecer gravemente e falecer em janeiro de 2025. Todavia, naquele dia, havia uma nuvem negra no horizonte, mas o que me assombrava a alma não era o receio habitual dos muitos imprevistos que podem ocorrer numa viagem oceânica a bordo de um pequeno veleiro de cruzeiro, com destaque para as tempestades e fúrias do mar. Se deixarmos o medo corroer-nos a alma e tolher-nos os passos, a vida passa-nos ao lado. A vida é um risco constante. No caso das viagens oceânicas, o essencial é estarmos bem preparados, skipper, tripulação e barco e sentirmo-nos confiantes. Era esse o caso e uma preparação cuidadosa da passagem no temível estreito de Gibraltar, com corrente e vento favoráveis permitiu-nos sair para o grande Atlântico em segurança e passar ao largo de Tarifa (que regista ventos de 30 nós mais de 300 dias por ano) com vento Leste, atingindo quase 10 nós de velocidade, apenas com a vela grande içada. Façanha que, passados 4 anos, nos mares dos Açores da Madeira, não consegui repetir. Depois, em oito dias, chegámos em segurança a S. Miguel.

 Voltando aquele dia de junho de 2021, havia um perigo novo para quem anda no mar, imprevisível e assustador. Naquela altura já era bem conhecido o grupo de orcas que se dedicava a atacar pequenos veleiros de recreio, tendo-se registado já alguns afundamentos, com perda total da embarcação e elevados prejuízos materiais, para além do stress e do pânico provocado em tripulações que muitas vezes são constituídas por famílias, tipicamente, um casal e crianças. Esse bando agressivo de animais selvagens desloca-se numa vasta zona marítima que vai desde a Galiza até Gibraltar, abrangendo toda a costa continental portuguesa. Na época, era um pequeno grupo familiar, com meia-dúzia de animais, responsável por ataques esporádicos. Entretanto, passados poucos anos, o grupo cresceu, poderá contar agora com cerca de 30 animais e os ataques têm-se multiplicado, sendo agora muito frequentes, com eventos todas as semanas, bem documentados, inclusive através de vídeo e noticiados nos media. O perfil dos ataques é sempre o mesmo. Os alvos são sempre pequenos e inofensivos veleiros de recreio, sendo os ataques concentrados sobre os habitualmente longos lemes destas embarcações, com cabeçadas, encontrões, dentadas e pancadas de cauda, partindo e rachando superfícies, encaixes e suportes, o que facilmente causa inundações maciças, que levam ao rápido afundamento e perda total. Os ataques têm acontecido geralmente perto da costa, o que tem permitido o socorro de outras embarcações, havendo também casos em que os tripulantes se salvaram porque tiveram tempo de abrir as balsas salva-vidas. Mas será apenas uma questão de tempo até haver vítimas mortais, por afogamento ou hipotermia. Nós, velejadores de recreio, estamos de mãos atadas, não nos podemos defender. Legalmente, não podemos ter nenhum tipo de arma a bordo, mesmo defensiva. Já houve algum tempo para os cientistas entenderem o que se passa e sugerirem soluções. Tem aparecido algumas sugestões, produtos químicos, dispositivos de ultrassons, etc., mas nada de realmente funcional e disponível no mercado. As autoridades também se têm mantido impávidas e serenas, com conselhos básicos que de nada servem. Hipocritamente, a autoridade marítima tem falado de “interações” entre orcas e veleiros. Não há qualquer interação. São puros ataques gratuitos, muito agressivos e perigosos, de animais selvagens a seres humanos. O cinema popularizou a figura do Willy, uma orca muito fofinha e amistosa, que interagia com um miúdo. Também assisti a esse filme e também choraminguei. Mas é apenas uma coisa do mundo Disney. Na verdade, a orca é um cetáceo da família dos golfinhos, talvez o mais inteligente de todos. Embora inofensiva para os seres humanos até agora (os únicos ataques conhecidos aconteceram em cativeiro e lá teriam as suas razões), trata-se de um animal muito agressivo e altamente voraz, que ataca e devora tudo o que vive no mar, desde outros golfinhos até baleias, passando por focas e tubarões. De fofinho, não tem nada. Há vários fóruns na Internet dedicados à discussão deste problema e eu subscrevi o maior deles. Há testemunhos em primeira mão, sugestões inteligentes e opiniões muito válidas. Mas também se veem coisas de bradar aos céus. Desde animalistas fanáticos para quem as orcas são sagradas e cuja posição é que, simplesmente, os veleiros de recreio devem deixar de navegar no mar até aos Rambos embarcados (tipicamente norte-americanos, como não podia deixar de ser), que querem arrebentar as orcas à granada. Claro que se as orcas atacassem e afundassem os preciosos barcos de pesca ou os navios que transportam o precioso petróleo, o problema já estaria resolvido, nem que se extinguisse a espécie. Mas como as vítimas são “apenas” pessoas que andam no mar “apenas” pela paixão de velejar e amor ao mar, o sistema reage com indiferença e sem pressas. O problema é que nós não vamos prescindir do nosso direito de navegar inofensivamente  no mar que é de todos e que cobre 4/5 do planeta. E se ninguém fizer nada, mais tarde ou mais cedo, vamos ter de arranjar nós próprios, maneiras de defendermos as nossas vidas e propriedades. Pode não ser com pólvora, mas decerto que não vai ser com nada agradável para as orcas. Elas vão ter de entender a mensagem, já que são tão inteligentes. Se é a sério, então estamos em guerra e vale tudo. Se é a brincar, então que vão brincar com criaturas do tamanho delas. Ou com “a pombinha prá areia” como cantam os da banda terceirense UZhomes.

Na sua obra monumental, “O Senhor dos Anéis”, Tolkien imaginou os orcs, criaturas horríveis e maléficas, criadas pelo Mal através de magia negra. Este grupo ibérico assassino é mais de orcs do que de orcas. Eu, que sempre adorei golfinhos, que os defendi já publicamente no DI, que jamais fiz mal a um cetáceo, se for atacado pelas ovelhas negras da espécie, irei defender-me com unhas e dentes e tudo o que estiver à mão. popeye9700@yahoo.com

 

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (3)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem: 1990, Atlântico Norte, a bordo do Antares, com o skipper, Roland Girard

(continuação) Tânger é uma cidade grande, mas não prestámos atenção às zonas novas. Passámos uns 3 dias a deambular pela marginal e pela zona antiga, cheia de lojas, cafés, restaurantes e mesquitas. Como turistas, fomos sempre seguidos por enxames de “guias” que ofereciam um pouco de tudo. Tentávamos também não entrar nas lojas porque não havia muito dinheiro para gastar nem tínhamos onde guardar objetos. Mas, num certo dia, foi impossível escapar à sedução de um jovem marroquino muito simpático que, à entrada da sua loja oferecia copinhos de chá. Quase à força, acabámos por entrar. Era uma loja de tapetes. Fomos logo servidos de vários copinhos de saboroso chá de hortelã-pimenta, a escaldar e fortemente adoçado. Em seguida, inevitavelmente, tentou vender-nos tapetes, começando por peças enormes.  Debalde explicámos que estávamos num pequeno veleiro, que não tínhamos onde guardar aquilo. Ele nunca desarmou, limitou-se a ir reduzindo o tamanho dos tapetes. Ao cabo duns extenuantes 45 minutos, lá nos apresentou, o menor tapete da loja, quase um lenço de assoar e uma pechincha imperdível, segundo ele. Eu era a vítima perfeita, sem jeito para estas coisas e depois do incontornável regateio cultural, lá levei o tapetinho para bordo.

Retive mais 2 episódios de Tânger: Logo no segundo dia, fomos seguidos por um tipo execrável, um “guia” que queria oferecer à força tudo e mais alguma coisa, incluindo prostitutas. Tentámos sacudi-lo, mas o tipo era persistente e durante umas 2 horas colou-se-nos aos calcanhares, falando sem parar em todas as línguas que conhecia, incluindo um português arrevesado. Já estávamos a ferver de raiva e a considerar seriamente o homicídio, quando passámos fora de uma loja de eletrodomésticos em que os donos estavam à porta; apercebendo-se da situação, convidaram-nos a entrar e escorraçaram a melga; esta ainda ficou um bocado na rua a barafustar, mas acabou por desistir; simpaticamente, os donos da loja ofereceram-nos o inevitável chá; ficámos a conversar e explicámos que estávamos de passagem num pequeno veleiro… pois não tardou muito para que aquelas 2 almas tentassem vender-nos frigoríficos e máquinas de lavar! Pedimos desculpa e raspámo-nos dali para fora. É o que se chama sair da frigideira para cair no lume. Noutra ocasião, estava eu sozinho com o Charlie e sendo ele fotógrafo profissional, estava sempre de máquina na mão, a registar tudo. Passámos numa rua e no outro lado estava uma espécie de homem santo, a vender exemplares do Corão numa banquinha; juntaram-se por lá uns quantos fiéis e o homem arengava à assembleia de forma expressiva; o Charlie começou a fotografar a cena e eu desaconselhei, achava que se reparassem, não iam gostar; e assim foi, a certa altura, o homem dá por nós, começa aos pulos e aos berros e a apontar na nossa direção; a turba desatou a vociferar contra nós em árabe vernáculo, provavelmente a chamar-nos infiéis e começaram a atravessar a rua; disse ao Charlie para arrumar a máquina, puxei por ele e, literalmente, fugimos dali quase a correr. Nem quis olhar para trás, já estava a ver um filme estilo Indiana Jones, com uma multidão enraivecida a perseguir-nos pelas ruelas estreitas da Casbá de Tânger, a pedir as nossas cabeças infiéis.

Bom, escapámos desta e o resto não tem muita história. Depois de alguns dias, partimos para a costa espanhola, onde fomos parando em diferentes portos. O Charlie saiu logo na primeira escala, em Málaga e fiquei sozinho com o Roland. Escalámos então diversos portos, como Almeria e Cartagena, onde ficávamos 2 ou 3 dias e fazíamos algum turismo.  Era a bela vida do cruzeiro mediterrânico. O barco ia para Alicante, onde nos esperava um irmão do Roland. Este ainda me convidou para passar uns dias na sua casa, em Grenoble, nos Alpes, mas eu já estava com saudades de casa e da minha bebé, Bárbara, então com 2 anos. Depois de umas voltas por Alicante, despedimo-nos e apanhei o comboio, para Madrid e depois Lisboa. No comboio fiz amizade com um jovem casal canadiano, de Montreal, que ia para Lisboa. Na nossa capital, ainda os levei a passear e ofereci-lhes uma garrafa de ginginha das Portas de Santo Antão, já que eles tinham adorado a prova. Depois, foi apanhar a TAP e voltar para casa.

O Roland tinha o meu endereço e poucos anos mais tarde, escreveu-me, convidando-me para uma grande aventura marítima, da França à Tailândia, via canal do Suez. Fiquei uns dias a sonhar com aquilo, mas trabalhava e já tinha nascido o meu filho, Rodrigo (1992). Com muita pena minha, tive de declinar o convite. Haveria de fazer outras viagens de veleiro, mais tarde, talvez menos exóticas, mas suficientemente aventurosas. FIM

 

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (2)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem: 1990, foto privada, algures no Atlântico Norte, eu à proa do ANTARES

 

(continuação) Um skipper respondera à minha mensagem; tratava-se de Roland Girard, skipper do ANTARES, um veleiro de casco em aço, armado em ketch, com 15 m. de comprimento. Roland, então com 55 anos, era um antigo executivo francês, de Grenoble, que se reformara cedo e partira para as Caraíbas, para usufruir da dolce vita dos trópicos. Depois de 15 anos no paraíso, a gozar o sol e a companhia de jovens caribenhas, voltava para França, a contragosto, para cuidar da mãe, idosa e doente. Trazia dois jovens franceses a bordo, mas, insatisfeito com a tripulação, despedira-os na Horta. Alistou-me no rol da tripulação, a mim e ao Charlie, um fotógrafo freelancer americano.

E assim, no dia 4 de agosto de 1990, o Antares largou amarras da Horta, rumo ao Mediterrâneo, com destino à cidade espanhola de Alicante. O veleiro era robusto e confortável e aprendi muito de vela oceânica nessa viagem. Nessa época, ainda não havia enroladores de genoa e era preciso ir à proa, a qualquer hora do dia ou da noite, para mudar a vela da vante, consoante o vento que fazia, uma tarefa desagradável, molhada e perigosa, que acontecia com regularidade.

Nesta passagem, conversava bastante com o Roland, em francês. O Roland não atinava muito com o Charlie, achava-o um americano típico, que só falava inglês, era pouco comunicativo e parecia não saber muito sobre coisa nenhuma, para além de fotografia. Uma ocasião, já a uns 2 dias de viagem da costa europeia, o Roland perguntou-me casualmente se eu conhecia Marrocos e se queria passar por lá. Claro que eu queria, os meus olhos até brilharam. O Charlie não teve direito a opinião e, assim, ficou combinado rumar a Tânger. Aproximando-nos do estreito de Gibraltar, apanhámos um dia de forte ondulação e cerrado nevoeiro, causados por mau tempo da noite anterior. É uma zona de tráfego intenso e nós não tínhamos radar. De vez em quando ouvíamos o barulho do motor de um grande navio a aproximar-se, mas não víamos nadinha, o que era um pouco assustador. Então, o Roland mandava-me para a proa com a buzina de ar comprimido, para fazer os sinais sonoros convencionais em situação de má visibilidade. Navegámos assim um dia inteiro e no dia seguinte, já com terra no horizonte, ainda prestámos assistência a outro iate francês, no mesmo rumo, a quem se tinha esgotado o combustível e que nos pedira ajuda pelo rádio VHF. A forte ondulação não permitia aproximações; assim, através de um sistema de cabos, passámos-lhe um jerrican com 25 litros de gasóleo, o que foi uma operação interessante, após a qual cada um foi à sua vida.

Sem mais história, numa bela manhã solarenga aproximámo-nos de Tânger, na costa marroquina. Não havia marina na época e amarrámos simplesmente ao cais. Vieram logo a bordo dois agentes fardados que, para além de quererem ver a documentação toda, começaram a pedinchar “presentinhos”…eu não tinha nada que prestasse e, um pouco a medo, apresentei uma latinha de creme Nívea, felizmente por abrir, o que agradou ao agente, tendo-a enfiado imediatamente na algibeira. Informaram-nos ainda que só mais tarde poderíamos sair do porto e entrar na cidade, uma vez que dali a bocado chegaria por mar o rei de Marrocos (na época, Hassan II, pai do atual rei), que se tinha deslocado à Argélia para uma conferência e os acessos estavam todos fechados. Com efeito, conseguíamos avistar logo à saída do porto o belíssimo comboio privado do rei, todo em verde resplandecente e com frisos dourados, que aguardava o monarca. Foi-nos dito também que devíamos arranjar uma bandeirinha de Marrocos (que não tínhamos, pois esta escala não tinha sido planeada), quer para içar no barco, quer para acenar à passagem do rei (exatamente assim, nestes termos). Era complicado, se não podíamos sair do porto, como arranjar uma bandeirinha? Felizmente, à tarde, perto da hora prevista de chegada do rei, começou a reunir-se uma multidão de marroquinos no porto e toda a gente tinha na mão bandeirinhas nacionais; abordámos um grupo grande, que parecia ter assaltado uma loja de bandeiras e, gentilmente, lá nos ofereceram algumas. E foi assim que, ao final da tarde, assistimos à chegada do iate real e o rei passou perto de nós, distribuindo saudações e sorrisos aos seus súbditos. Claro que a tripulação do Antares, sentindo-se quase distinguida com uma audiência real, agitava freneticamente as bandeirinhas, não fôssemos incorrer nalgum crime de lesa-majestade. Mais tarde, pudemos então sair do porto e fomos conhecer Tânger. (continua)

BON VOYAGE (2) Da Horta a Tânger e Alicante (1)

Setembro 05, 2025

Tarcísio Pacheco

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imagem: foto privada, 1989, Zim Garoupa à proa da Bicha de Alcácer, ilha Graciosa ao fundo

Creio que o ano era 1990, por aí. Na época, era professor nas Velas, em S. Jorge, deambulava então pelas ilhas, de escola em escola, em grande parte por opção, com pouca vontade de cumprir o destino habitual dos universitários açorianos, de voltar a correr para a ilha de origem, terminado o curso, casar, ter filhos e morrer devagar. Queria movimento e aventura, embora já fosse pai da minha filha mais velha, Bárbara, nascida em 1988. Com o mar salgado a correr-me nas veias, sonhava com viagens marítimas enquanto lia a Cruising World, revista americana de vela de cruzeiro, que comprava regularmente. Sabia que mais tarde ou mais cedo, haveria de ter um veleiro. Sabia também que, antes, convinha adquirir experiência de vela oceânica.

No ano anterior, acompanhado pela esposa, C., já havia feito uma primeira tentativa nesse sentido. Nas férias de Verão, fomos para a Horta, deixámos uma mensagem no Peter’s e ficámos à espera. Não tardou que surgisse uma proposta para embarcar na Bicha de Alcácer, uma velha barcaça de transporte de sal no rio Sado, convertida em veleiro e levada para as Caraíbas, onde andara no charter, mantendo o nome original. Voltava agora para França, para Bordéus. No entanto, a tripulação alemã contratada, desistira nos Açores e fora-se embora, deixando a Bicha amarrada na marina da Horta. Lá teriam as suas razões. Com efeito, a antiga barcaça salina era agora um veleiro lindíssimo, de linhas clássicas, estilo pirataria, fiquei apaixonadíssimo quando o vi. Mas parecia em mau estado e muito mal equipado, mesmo para a época. O dono contratara então um skipper francês, o Pierre Garoche, que estava acompanhado por um amigo, o competente velejador de S. Miguel, José Francisco Garoupa, mais conhecido por Zim Garoupa.* Responderam ao nosso anúncio, conhecemo-nos (no Peter’s claro, à volta de um gin) e fomos aceites como tripulantes. Preparámos o barco o melhor que pudemos. Nem sequer balsa salva-vidas havia, apenas um pequeno bote pneumático, cheio de furos. Como skipper, preparo o meu barco com toda a segurança. Mas naquela época era jovem e inexperiente. Comprámos provisões e no início de agosto de 1989, abalámos rumo a Bordéus, passando pela ponta dos Rosais, em S. Jorge e navegando entre a Terceira e a Graciosa. Navegámos por uns 3 dias, essencialmente com bom tempo. Por isso mesmo, tivemos períodos de calmaria e usámos bastante o motor. Certa noite, navegando a motor, de repente este fez uns barulhos estranhos, deu uns estampidos e…calou-se, todo fumegante. Uma rápida inspeção concluiu por avaria irreparável no mar. Com apenas 3 dias de viagem, o skipper optou por reunir a tripulação e pedir opiniões, embora a decisão final fosse sempre dele, já que um barco no meio do oceano não é um sistema democrático. Sem pressão de ninguém, o Pierre acabou por decidir voltar. Navegámos então para Oeste, rumo a S. Miguel, onde aportámos ao cabo de uns 2 dias. Lembro-me que foi a primeira vez que senti enjoo de terra, ao passarmos no cubículo escuro e estreito da autoridade marítima. A Bicha ficou em S. Miguel, mais tarde foi para terra e uns meses depois foi para França em navio cargueiro. Quanto a nós, inventámos um plano B, apanhámos a TAP e fomos passear para a serra do Gerês.

Assim, não conta com esta aventura como primeira viagem oceânica. Essa haveria de ser no ano seguinte.

No Verão de 1990, voltei à carga, desta vez, sozinho. Viajei para o Faial, deixei uma nota no Peter’s e fui acampar numa nica de relva na beira da praia da Alagoa. Gosto da Horta, que me traz muitas recordações de infância, uma vez que a minha mãe era de lá e moraram precisamente atrás da praia da Alagoa, numa pequena casa que ruiu e foi levada pelo mar numa noite de temporal, em que a minha avó e a minha mãe se salvaram por milagre, tendo saltado da cama e fugido poucos minutos antes. O meu avô trabalhava na empresa inglesa de cabos submarinos e estava de turno nessa noite. Perderam tudo quanto tinham nesse desastre.

Acampando na praia, todos os dias ia ver se havia resposta ao meu pedido de embarque. O destino era-me indiferente, desde que fosse para Leste. A viagem era a minha motivação, não o turismo. Lembro-me que uma noite já estava a dormir na minha minúscula tenda e acordei com grande barulheira à minha volta. Tentei ignorar, talvez se fossem embora. Mas não foram e a certa altura, abriram-me o fecho da tenda e entrou-me por lá dentro uma bela moça. Por esta, não me importo de ser assaltado, pensei eu. Mas acabou tudo bem, afinal era só uma troupe da televisão alcoolicamente descontraída, o pessoal do Zeca Medeiros, que estava no Faial a filmar uma novela qualquer.  Uns dias depois, finalmente, embarquei para a minha primeira viagem oceânica num pequeno veleiro. (continua)

 

*PS: Antes da publicação desta crónica e muito depois dela ter sido escrita, recebi a triste notícia do falecimento do meu amigo, Zim Garoupa, em S. Miguel, a 8 de julho de 2025, após doença prolongada.

 

 

BAGA EI TOIRO LINDO (BB165)

Julho 08, 2025

Tarcísio Pacheco

 

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imagem em: Cow Bull Love

BAGAS DE BELADONA (165)

HELIODORO TARCÍSIO          

 BAGA EI TOIRO LINDO! Como era de esperar, o pessoal do PAN e os anti-taurinos tiveram um ataque de histeria à conta do infeliz incidente da recente morte de um toiro no mar, no porto de pescas do Porto Judeu, ilha Terceira. Para que ninguém apareça a pregar aos gafanhotos sozinho no deserto, é salutar que se façam ouvir outras vozes, com perspetivas diferentes.

Já escrevi muitas vezes sobre este tema, que me apaixona. As minhas convicções sobre este assunto – tauromaquia – assentam sobretudo em duas linhas: separo sempre, por completo, touradas de praça de touradas à corda, por entender que, tratando-se em ambos os casos de tauromaquia, dizem respeito a realidades muito diferentes; e, no âmbito da defesa dos animais, não admito que se ataque as touradas de forma isolada, separando-as dos inúmeros abusos e atropelos aos direitos dos animais que ocorrem a toda a hora, por todo o lado, desde sempre.

Esta baga diz respeito às touradas à corda terceirenses, por isso, vou abstrair-me, por ora, de referir as touradas de praça. Quanto à minha segunda linha de pensamento, não suporto a hipocrisia dominante. Atente-se nas palavras de Pedro Neves, deputado do PAN, entrevistado pelo DI no dia 4 de julho: “(…) O bem-estar animal deve sobrepor-se a qualquer tradição. Os animais são seres sencientes e não podem ser tratados como mercadoria ou objetos.” Parece um discurso muito bonito à partida, eu próprio o subscrevo, como amigo dos animais e defensor dos seus direitos e até me emociono. Mas, depois, ponho-me a pensar: Sr. Pedro Neves, os animais não podem ser tratados como mercadoria ou objetos [como nas touradas], mas que sentido faz, que não seja ideologia ou ato de fé, apregoar isso histericamente e manter um olímpico silêncio sobre o constante sofrimento animal à nossa volta? Porquê esse encarniçamento conta as touradas à corda tradicionais, que já os levou a tentar impor o seu fim por via legislativa? Porquê essa raiva contra o que de mais genuíno tem a alma terceirense? Analisemos o assunto de forma lógica e racional. Quer dizer, um toiro terceirense de corda, nascido e criado exclusivamente para esse fim, não deve sequer nascer e muito menos passar, frequentemente, todo o seu ciclo expectável de vida no paraíso bovino, quase sempre nas altas pastagens terceirenses, entre os seus congéneres, com muita erva verde e água fresca, com manadas de vacas meigas à disposição, tratado com cuidado por ser valioso para o proprietário, tendo apenas de trabalhar uns dias aqui e ali, por meia hora, entre maio e outubro. Isso é errado, é contra os interesses do bicho, extinga-se a raça, arenga o PAN. Mas não vejo o PAN dizer nada quando todos os dias vitelos são retirados às mães, fechados num viteleiro, engordados em vez de alimentados, num cruel e curto simulacro de vida, para, menos de um ano depois serem degolados, pendurados pelas patas e estripados no matadouro, a fim de satisfazer a gula humana por carne vermelha. Isto já não é, aparentemente, tratar os animais como mercadoria ou objetos. Porque não vejo o PAN a protestar todos os dias à porta dos matadouros nem o vejo a propor leis que proíbam criar e matar animais para os comer. Espero que o Sr. Pedro Neves não me venha responder com a estafada tese de que são coisas muito diferentes e de que precisamos de comer carne para sobreviver, tralala tralala. Até é verdade que são coisas muito diferentes, na medida em que é infinitamente mais cruel e desumano criar um vitelo para o matadouro do que criar um touro na Terceira para a lide de corda. E quanto à sobrevivência da nossa agressiva espécie, a necessidade de consumir carne é, no mínimo, uma questão amplamente discutível, sendo que inúmeras pessoas, e até cada vez mais, vivem longas vidas saudáveis sem qualquer consumo de proteína animal. No fundo, consumir carne é cultura, tradição e gula. Touradas à corda é apenas cultura e tradição, sem a gula.

O que aconteceu no Porto Judeu no passado dia 30 de junho foi um incidente infeliz, sem premeditação nem crueldade associados. Não sendo invulgar, não é frequente e eu sou a prova viva disso. Já perfaço 64 anos de idade e desde sempre que assisto a touradas à corda. Melhor dizendo, participo, uma vez que continuo por lá a correr nos arraiais, para ver tudo bem de perto e para fugir do animal quando é preciso.  Presenciei largas centenas de touradas em portos ao longo da vida e embora, para ser justo, tenha visto alguns toiros em dificuldades na água, nunca vi morrer nenhum. Pelo contrário, a atitude geral de pastores e populares é ajudar o toiro a nadar e a voltar para terra. A exceção é o porto de S. Mateus, onde, com frequência, os locais são brutos para os animais na água, forçando-os a saltar, tentando cavalgá-los na água e batendo-lhes no focinho. Os toiros têm má flutuação, nadam com alguma dificuldade e condeno veementemente estas atitudes. Talvez pudesse haver alguma articulação com a Polícia Marítima, em vez de ficarem apenas de braços cruzados em cima das gaiolas e a verificar licenças, podiam usar os apitos para impedir abusos deste género.

Finalmente, para não me alongar demasiado, a alegação bem ao estilo populista de que “tem aumentado muito o número de pessoas mortas e gravemente feridas nas touradas” carece de comprovação e fundamentação estatística. Sem estudos e números que os suportem, esta conversa não passa de floreado ideológico e pressuposto com interesse próprio. Por outro lado, estamos a falar de espetáculos públicos, gratuitos, de livre acesso, bem anunciados e bem assinalados. Só lá vai quem quer. Os locais têm obrigação de conhecer os riscos. E é a adrenalina de lidar com animais com mais de 400 quilos, cornos rijos e agressividade natural, em condições controladas, que constitui o principal apelo da atividade. Quanto aos visitantes, na atualidade, é muito fácil obter informação na Internet sobre estes eventos e os riscos associados. Já não vale a desculpa “eu não sabia, ninguém me disse”.

Muito mais havia a dizer, o tema da defesa dos animais sempre me apaixonou ou não tivesse eu recolhido na infância e adolescência, inúmeros animais da rua, para desespero da minha mãe. Amanhã, sábado, irei a Santo Amaro, às 18h30. E no domingo, às Doze ou ao Largo da Fontinha, se descobrir onde é, entretanto. Veio mesmo a calhar, o grito da minha marcha de S. João este ano, Olé!  Pois claro, olé toiro lindo, meu amado bicho cornúpeto, por mim jamais te extinguirás. popeye9700@yahoo.com

 

BON VOYAGE (1) DOS AÇORES A CABO VERDE (2)

Abril 11, 2025

Tarcísio Pacheco

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BON VOYAGE (1)

Cabo Verde (2)

Heliodoro Tarcísio

(continuação). Levávamos sempre uma linha de pesca a reboque e eu congeminei um jeito de a ligar a uns elásticos, de modo a percebermos se fisgássemos um peixe. E fisgámo-lo, tive o prazer de puxar para bordo um belo dourado-do-mar ou mahi-mahi (Coryphaena hippurus), com cerca de 5 kilos, que deu para fazermos 3 refeições (cozinhadas por mim).   

Depois de 15 dias de viagem certinhos, chegámos por fim a Cabo Verde, abordando as ilhas entre S. Vicente e Santo Antão, debaixo da forte ventania habitual nestas paragens dos alísios de nordeste e rondando o ilhéu dos Pássaros para entrar na abrigada baía do Mindelo.  Naquela época havia apenas um pequeno porto comercial cheio de barcos de pesca e uns pontões flutuantes básicos onde amarravam ocasionalmente alguns veleiros. Amarrámos, descansámos e na manhã seguinte fomos tratar da documentação de entrada. Nesse mesmo dia, o Pascal tratou de tudo e o barco foi içado para terra, numa baía mais distante, pois o plano era que o Arion ficasse lá até o seu dono decidir sobre o futuro. Cheio de vontade de conhecer a cidade, percorri cerca de 3 km a pé até ao Mindelo, debaixo do escaldante sol cabo-verdiano. Estava bem magrinho e cheio de energia porque, geralmente, emagrecemos numa viagem oceânica em pequenas embarcações, o balanço constante vai queimando calorias sem nos apercebermos.

No dia seguinte, o Pascale e o Phillipe foram embora para França e eu fiquei sozinho. Aluguei um quarto numa pequena pensão na rua de Lisboa, onde serviam também comida típica do arquipélago. Tinha planeado ficar por lá uns 10 dias. No presente, suponho que a cidade seja mais turística, mas há 23 anos, o Mindelo era uma cidade singela, porém buliçosa e cheia de vida. Fiz as férias que aprecio, com simplicidade, vagueando pela cidade, entrando nos lugares e metendo conversa com as pessoas na rua, já que os cabo-verdianos são, tradicionalmente, muito simpáticos e sociais. Costumava entrar num cafezinho central que pertencia a um antigo jogador de futebol em Portugal, cujo nome já não recordo, cheio de posters e fotografias do mundo da bola. Perguntei onde era a casa da Cesária Évora, então bem vivinha, mas muitas vezes ausente, a cantar pelo mundo e passei lá. Quando queria percorrer a ilha, já que os autocarros eram pouco fiáveis, combinava com um taxista que me levava e depois me recolhia. Foi assim que fui conhecer a maravilhosa baía das Gatas, muito longe do Mindelo, onde se realiza o festival musical do mesmo nome, em agosto, considerado o maior festival de Cabo Verde e que teve em 2024 a sua 40ª edição. Mas estávamos então no final de junho. Logo no início da estadia, louco para experimentar as águas quentinhas de Cabo Verde, passei um dia inteiro na praia; ora, sempre tive o hábito de usar um lenço na cabeça, um traço de uma vida passada em que fui pirata (dos bonzinhos); ao voltar para a pensão, fiquei estarrecido pois tinha um enorme risco na testa, separando claramente a cara bronzeada da cabeça, já com pouco cabelo; o remédio foi voltar para a praia no dia seguinte, desta vez sem bandana, para equilibrar o bronzeado. Certa noite fui jantar num restaurante com música ao vivo; não conhecia antes, mas fiquei a conhecer o Bau, nome artístico de Rufino Almeida, músico nascido no Mindelo em 1962; é primo do conhecido Tito Paris, tocou com Cesária Évora e foi mesmo seu diretor musical; Bau, não canta, mas é um guitarrista exímio e a sua prestação na execução de mornas e coladeras encheu-me a alma. Mais tarde, comprei um CD dele. Outra coisa que fiz foi apanhar um ferry e ir passar um dia à vizinha ilha de Santo Antão, apenas a 1 hora de viagem. Há diversos ferries a ligar as ilhas e é uma boa maneira de as conhecer. Santo Antão, à primeira vista, parece tão desértica como S. Vicente. Mas é muito montanhosa e tem vales profundos, bem irrigados e muito verdes, sobretudo no lado nordeste, onde se cultiva todo o tipo de frutas e vegetais. A ilha é mesmo o celeiro abastecedor de S. Vicente. Do Porto Novo, apanhei um autocarro e passei um belo dia a passear pela localidade da Ribeira Grande. Na volta, no ferry, vim com um animado grupo de excursionistas locais com quem fiz amizade, que todo o tempo cantaram e tocaram violão e berimbau. Gente alegre e simpática.

Terminado o meu tempo, viajei de avião para a ilha do Sal, onde então ficava o único aeroporto internacional; tendo chegado de manhã, aluguei um jipe e percorri a ilha, esta mais desinteressante, resumindo-se a praias e hotéis. À noite, apanhei a TAP para Lisboa.

 

 

BON VOYAGE (1) DOS AÇORES A CABO VERDE (1)

Abril 04, 2025

Tarcísio Pacheco

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(publicado no semanário ILHA MAIOR, da ilha do Pico, Açores, a 5 de abril de 2025

BON VOYAGE (1)

Cabo Verde (1)

Heliodoro Tarcísio

Sempre adorei viajar, em qualquer altura, por quaisquer motivos exceto de saúde e mesmo assim, é possível usufruir de bons momentos em qualquer circunstância. Quando a minha filha mais velha, Bárbara, entrou para a faculdade e estava hesitante entre os cursos de Serviço Social e Turismo, aconselhei-lhe o Turismo, “tens alma de viajante, filha” disse-lhe eu. E, atualmente, ela trabalha em Turismo, adora e viaja imenso. Quanto ao meu caso, quatro filhos, o trabalho, a falta de tempo e alguma ansiedade de voar, não fizeram de mim o viajante que queria ter sido. Mesmo assim, vivi algumas aventuras, especialmente em viagens marítimas.

Quando o meu amigo, Florêncio Moniz, me convidou para escrever umas crónicas de viagem para o Ilha Maior, não foi difícil aceder, motivado pela amizade com o Florêncio, velho amigo e colega de faculdade, o apreço pelo Dr. Manuel Tomás, meu antigo colega na escola C+S de S. Roque e o amor pela ilha do Pico, onde, há séculos atrás, vivi um ano maravilhoso, que recordo com saudade. Sendo Sagitariano, logo curioso e aventureiro, tenho no meu mapa astral, uma certa energia de Virgem, que me leva a ser, por vezes, todo organizadinho. Tinha, por isso, pensado em escrever cronologicamente. Mas acabei inspirado pelas belíssimas crónicas de Cabo Verde do Florêncio. E então, aí vai a minha experiência única de “morabeza”, em 2 partes.

O ano era 2001. Desde criança, apaixonado pelo mar, nesse ano, ainda tinha o meu primeiro veleiro de cruzeiro, o Zeilen, um pequeno Waarschip 20 holandês, famoso na Holanda, que adquiri no Faial em 1998. A marina de Angra estava então em início de construção e os nossos barcos costumavam ser içados para terra em setembro e lá ficavam pelo Porto Pipas todo o Inverno. No ano de 2000 fiz amizade com o Pascal, francês, proprietário e skipper do ARION, um ketch em ferrocimento, com 9.60 metros de comprimento, de construção caseira, em que o Pascal, um médico homeopata de Uzeste, perto de Bordéus, navegara desde França até aos Açores. O plano dele era, mais tarde, prosseguir para sul. Fiquei a tomar conta do ARION durante o Inverno e pouco a pouco foi-se cimentando a ideia de abalar com o Pascal no Verão seguinte. Na época era casado e já tinha 3 filhos, por isso, era mesmo só um mês de férias. E assim foi, em maio de 2001 o Pascal voltou, com o seu amigo, Phillipe, um notário francês e abalámos os três rumo a Cabo Verde, num dia chuvoso e sombrio do início de junho.

Esta foi a minha viagem oceânica mais longa, como tripulante e sempre em alto-mar. Demorámos 15 dias, de Angra do Heroísmo à cidade do Mindelo, em rota direta. Partimos com mau tempo, o que nunca é bom. Havia muita ondulação e depois de colocarmos o barco a navegar à vela, o Pascal e o Phillipe atiraram-se literalmente para o chão, a vomitar e ficaram doentes durante 3 dias. Eu já estava mais calejado pelas aventuras com o Zeilen; mas, mesmo assim, também não tinha muito apetite e durante 3 dias, foi só sopinha e fruta. Só fiquei doente um dia, depois de ter abusado de uns deliciosos pudins franceses em lata, que só eu comia. Depois, as coisas normalizaram-se e instalou-se a rotina duma viagem oceânica em veleiro. Foi antes do GPS, o Pascal fazia a navegação com o seu sextante, determinando diariamente a nossa posição e o rumo e eu e o Phillipe fazíamos tudo o resto, mareação de velas, cozinhar, arrumar e limpar. Essa viagem teve de tudo um pouco. Não nos deparámos com nenhuma tempestade séria, mas houve dias de larga e alta ondulação oceânica, com ondas de 5 a 6 metros, de nordeste. Houve dias de chuva e dias de sol, em que aproveitávamos para nos despirmos no convés e nos lavarmos com baldes de água salgada. Lembro-me que o Pascal era um francês típico, muito poupadinho, não nos deixou nunca ligar o motor, para não gastar gasóleo e não nos deixava ligar as luzes de navegação à noite, para não gastar baterias. Dizia para ligarmos uma lanterna de mão se nos cruzássemos com navegação à noite. Tínhamos uma windvane (piloto automático mecânico, de vento), mas à noite, fazíamos quartos de leme de 3 horas (das 21h às 09h). Num desses quartos, estava eu sozinho no cockpit e lembro-me que estava uma noite horrível, sinistramente sombria, havia total calmaria, o barco boiava numa espécie de charco pantanoso, o céu, o mar e o próprio barco, tudo era cinzento e sem forma; fiquei a contar os minutos para terminar o meu quarto e ir dormir. Antes o mar bravo. (continua)

 

 

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